Política & Justiça

Vida de Dilma Rousseff é verdadeiro 'thriller político'

diario da manha
Dilma Rousseff, à época da prisão
  •  Filha de um búlgaro, ela leu Zola e Dostoievski aos 12 anos
  •  Com preocupações sociais, ingressou na Polop após o golpe
  •  Ela não participou do assalto ao cofre do Adhemar, mas apoiou
  •  Presa em 1970, sofreu torturas inomináveis nos porões do regime

Renato  Dias Da editoria de Política&Justiça

– Valeu ter lutado pelas liberdades!
Assim Dilma Rousseff, atual inquilina do Palácio do Planalto, resumiu as manifestações de domingo, 15 de março, 30 anos após a posse de um civil e o retorno dos militares que haviam deposto João Goulart, em 1964, à caserna. A presidente da República participa, hoje, de ato político e administrativo, no Paço Municipal, em Goiânia, ao lado do prefeito da Capital, o médico Paulo de Siqueira Garcia, de linhagem petista, além de socialista e democrática.
Nascida dia 14 de dezembro de 1947 em Belo Horizonte, como Dilma Vana Rousseff Linhares, na maternidade do Hospital São Lucas. Ela ganhou o mesmo nome da mãe. Tanto que, em família, é sempre Dilminha. Até para o barbudo Luiz Inácio Lula da Silva. O seu pai é Pedro Rousseff, que deixara a Bulgária para se radicar em Minas Gerais. Um homem de olhos claros, cabelos louros e andar ereto, como aponta o jornalista Ricardo Batista Amaral.
Pedro Rousseff tinha 46 anos de idade quando se casou com a professora do ensino primário Dilma Jane Coimbra da Silva, uma bela morena, de 26 anos de idade, nascida em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, e criada na próspera Uberaba (MG). Dilminha era o segundo rebento do casal. O primeiro, Igór Rousseff, como em búlgaro. Aos sete anos, teve de extrair as amígdalas gigantes que lhe incomodavam. Um motivo para esbaldar-se em sorvete depois.
Aos 12 anos ela ganhou e leu Germinal, de Émile Zola, um clássico da iniciação política, informa Ricardo Batista Amaral em A Vida quer é coragem – A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidente do Brasil, Editora Primeira Pessoa, 304 páginas. Após a densa leitura, estabeleceu uma nova negociação com Pedro Rousseff para devorar Humilhados e ofendidos, do russo Fiódor Dostoievski, uma obra de temática social aguda.
Pétar Russév, nome original do pai, nascera em 1900, em Gabrovo, Bulgária, deixou o país aos 29 anos, mudou-se para a França e depois para o Brasil. Ele deixou um filho Luben-Kamen, que morreu em 2008. Quando criança, Dilminha rasgou uma nota de cruzeiros para dividir com um menino pobre de Belo Horizonte, que batera à porta de sua casa para pedir esmola, trabalho ou comida. Ela ficou aflita. Pedro Rousseff achou graça do ato da filha.
Na juventude, Dilma Rousseff ingressou na Organização Marxista Revolucionária Política Operária. Ela foi criada no ano de 1961. Em seus quadros dissidentes do Partidão e trotskistas, seguidores do velho revolucionário ucraniano, nascido em 1879, em Yanovka, que dirigiu a insurreição de outubro de 1917, na atrasada Rússia, e implantou, ao lado de Vladimir Ilich Ulianov [Lênin], um advogado bolchevique, a ditadura do proletariado, que acabou em 1991
– Dilma Rousseff cuidava da impressão clandestina de O Piquete.
Não custa lembrar: em 31 de março de 1964 fardados e civis derrubaram o presidente da República, João Goulart, um nacional-estatista de linhagem trabalhista, como conceitua Daniel Aarão Reis Filho, historiador da Universidade Federal Fluminense [UFF], e instalado uma ditadura, cuja noite, durou 21 anos. O autor de Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos [2014] contesta e afirma que o regime civil e militar termina, de fato, em 1979.
– O que existe de 1979 a 1988 é uma fase de transição entre um Estado de Direito Autoritário para um Estado de Direito Democrático.

Breno
A líder estudantil, que cursava Economia, na Universidade Federal de Minas Gerais, amiga inseparável de Carlos Alberto Soares de Freitas, codinome Breno, que integra, hoje, a lista dos desaparecidos políticos da Comissão Nacional da Verdade [CNV] e do projeto Brasil Nunca Mais, organizado por Dom Paulo Evaristo Arns e o reverendo Jaime Wright, rompeu com a Polop e o seu grupo criou o Comandos de Libertação Nacional, a Colina.
– Como Athos Magno Costa e Silva [GO].
No fervor revolucionário pós-ato institucional número 5, decretado pelo general-presidente Arthur da Costa e Silva, Colina e a Vanguarda Popular Revolucionária [VPR] iniciaram um processo de fusão. A união das organizações criou a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares [VAR-Palmares]. Separada do primeiro marido, Cláudio Galeno, que sequestraria um avião e o desviaria para Cuba em 1970, ela integrou a direção da nova organização.
– Que se autoproclamava Estado-maior da revolução brasileira. [A definição é de Daniel Aarão Reis Filho]

Novo amor
Ao lado de sua nova cara-metade, o advogado gaúcho Carlos Franklin da Paixão Araújo, proprietário de um espesso bigode, banhado no marxismo e que fez a opção pelas armas para derrotar a ditadura civil e militar e construir o socialismo no Brasil, Dilma Rousseff se aliou a Carlos Lamarca, Iara Iavelberg, Antonio Roberto Espinosa. Antes da explosão da VAR-Palmares, ocorreu a mais ousada e espetacular ação da luta armada no Brasil.
– A expropriação do cofre de Adhemar de Barros, no Rio de Janeiro, que encontrava-se no cofre da mansão de Ana Capriglione, o dr. Rui, sua amante.
Preto no branco: organizado por Juarez Guimarães de Brito, o Juvenal, que serviu, como técnico, antes de 1964, a administração do governador de Goiás, Mauro Borges Teixeira, a operação rendeu à luta armada mais de 2,5 milhões de dólares. A estratégia era financiar a revolução socialista no Brasil. Dilma Rousseff não participou da ação. Nem Max, codinome de Carlos Franklin da Paixão Araújo, mas trocou dólares pela moeda da época: 1969-1970.
– Carlos Lamarca considerava Dilma Rousseff muito intelectual.

A queda
Em São Paulo, quando foi cobrir um “ponto”, palavra que os revolucionários utilizavam para definir um encontro na clandestinidade durante os terríveis anos de chumbo, no turbulento ano de 1970, Dilma Rousseff, caiu. Trocando em miúdos: foi presa. Socos, pontapés, telefones, torturas inomináveis. Até um dente o torturador, capitão Benone Albernaz, lhe arrancou. Com um violento soco. Tempos depois veio a queda de Max, Carlos Franklin da Paixão Araújo.
– Depois de tanta pancada, ele tentou se jogar debaixo de um automóvel. Sobreviveu.
Após sair da prisão, Dilma Rousseff mudou-se para Porto Alegre [RS], esperou Max sair da cadeia, casou-se e teve uma filha. Ela formou-se em Economia. Com a redemocratização, os dois seguiram o velho caudilho Leonel de Moura Brizola. O cunhado de Jango fundou o PDT. A trabalhista assumiu a Secretaria de Finanças da Prefeitura de Porto Alegre e, com a eleição de Olívio Dutra, o bigodudo republicano da esquerda petista, a Secretaria de Minas e Energia.
Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, após derrotar o economista que exilara-se no Chile de Salvador Allende, médico marxista morto no 11 de setembro de Augusto Pinochet, José Serra, Dilma Rousseff acabou convidada para assumir um ministério. A crise do mensalão, que derrubou o capitão do time José Dirceu de Oliveira e Silva da Casa Civil, a levou ao coração do governo. A camarada de armas virou a “mãe do Programa de Aceleração do Crescimento”.

Câncer
Diagnosticada com um câncer linfático em 2009, ela elegeu-se presidente da República em 2010, ao derrotar, o eterno presidenciável tucano José Serra. Apesar da crise da economia nacional, dos desgastes políticos e do cenário internacional adverso, ela derrotou, no ano de 2014, a santa aliança Aécio Neves, Marina Silva, Eduardo Jorge e Levy Fidélix, todos abençoados pelo príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique Cardoso. Hoje, enfrenta o maior desafio de sua vida.

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