Política & Justiça

‘A crise atual poderá trazer já nas próximas eleições salvador da pátria’

diario da manha
O doutor em História David Maciel
  •  Historiador frisa que ascensão de José Sarney, em 1985, foi golpe político apoiado por Leônidas Pires
  •  Doutor em História fala que impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, trata-se de um golpe parlamentar
  •  Pesquisador afirma que impeachment de Fernando
    Collor havia consenso generalizado entre forças políticas
  •  Professor diz que Aécio Neves não é herdeiro de Tancredo Neves e que FHC e Lula mantêm legados do ‘velho’

Impeachment sem crime de responsabilidade é golpe, diz o doutor em História e professor da Universidade Federal de Goiás David Maciel. O pesquisador refere-se à queda de Dilma Rousseff. O pesquisador vê identidades entre os casos de Honduras, com Manuel Zelaya, em 2009, e de Fernando Lugo, no Paraguai, em 2012. Crítico, aponta que Nicolás Maduro corre sério risco de ser afastado do poder, na Venezuela. O escritor enxerga uma onda conservadora na América Latina: Argentina, Peru, Bolívia… David Maciel aponta as semelhanças e identidades entre a deposição de Fernando Collor de Mello, em 1992, e a da líder petista. Que não está consumada, explica. Estudioso da ditadura civil e militar no Brasil, a transição para a Nova República e os tempos sombrios de Fernando Collor de Mello, ele diz a ascensão de José Sarney foi um golpe político que teve como fiador o general Leônidas Pires Gonçalves.

 

Perfil

Nome completo: David Maciel

Idade: 50 anos

Formação – graduação em História pela PUC-GO, mestrado e doutorado em História pela UFG.

Instituição que leciona: graduação e pós-graduação da Faculdade de História da UFG

Livros publicados: A argamassa da ordem: da ditadura militar à Nova República (1974-1985). São Paulo: Xamã, 2004;

De Sarney à Collor: reformas políticas, democratização e crise (1985- 1990). São Paulo: Alameda; Goiânia: Funape, 2012.

Projeto de novo livro: Marxismo, História e Política (Marx, Engels, Lênin, Gramsci, Florestan Florestan Fernandes); Governos do PT, Neoliberalismo e Hegemonia burguesa no Brasil (2003-2016).

 

Leia na íntegra da Entrevista

Di­á­rio da Ma­nhã – O que há de 1992, no im­pe­achment de Fer­nan­do Col­lor de Mel­lo, na que­da, em 2016, de Dil­ma Rous­seff?

Da­vid Ma­ci­el – Com ex­ce­ção do ri­to ju­rí­di­co, não há mais na­da, pois são si­tu­a­ções bas­tan­te di­fe­ren­tes. No im­pe­achment de Fer­nan­do Col­lor ha­via um con­sen­so ge­ne­ra­li­za­do en­tre as for­ças po­lí­ti­cas, or­ga­ni­za­ções e mo­vi­men­tos so­ci­ais, além da opi­ni­ão pú­bli­ca em de­fe­sa de sua sa­í­da. Mes­mo a gran­de mí­dia aca­bou ade­rin­do ao im­pe­achment. Além dis­so, a cri­se po­lí­ti­ca que le­vou à que­da de Col­lor ti­nha por fun­da­men­to as do­res do par­to do pro­je­to ne­o­li­be­ral no Bra­sil. Ou se­ja, a sua im­ple­men­ta­ção ge­rou for­te des­con­ten­ta­men­to tan­to en­tre os tra­ba­lha­do­res, quan­to en­tre di­ver­sas fra­ções do ca­pi­tal. Por con­ta dis­so, tor­nou-se pos­sí­vel um acor­do en­tre o PT, o PSDB e se­to­res im­por­tan­tes do PMDB em fa­vor do im­pe­achment. Ago­ra, a si­tu­a­ção é di­fe­ren­te, pois ape­sar do pro­je­to ne­o­li­be­ral es­tar no­va­men­te em cri­se, mes­mo na ver­são mo­de­ra­da ado­ta­da pe­lo PT, há uma pro­fun­da di­ver­gên­cia en­tre as clas­ses bur­gue­sas e os tra­ba­lha­do­res acer­ca de sua con­ti­nui­da­de. Se de um la­do há um con­sen­so bur­guês ge­ne­ra­li­za­do em de­fe­sa da apli­ca­ção de uma ver­são ex­tre­ma­da do ne­o­li­be­ra­lis­mo, en­tre os tra­ba­lha­do­res há uma cla­ra opo­si­ção a es­ta pers­pec­ti­va, com acir­ra­men­to da crí­ti­ca e da re­sis­tên­cia ao mes­mo. Uma das ra­zões pa­ra que o go­ver­no Dil­ma Rous­sef se iso­las­se de su­as ba­ses e per­des­se gran­de par­te do apoio que pos­si­bi­li­tou sua re­e­lei­ção foi jus­ta­men­te a in­sis­tên­cia na apli­ca­ção de um ajus­te fis­cal e de me­di­das ti­pi­ca­men­te ne­o­li­be­ra­is, que iam na con­tra­mão do que as ma­ni­fes­ta­ções po­pu­la­res e as pró­pri­as elei­ções de 2014 in­di­ca­ram co­mo pers­pec­ti­va po­pu­lar pre­do­mi­nan­te. Is­to ex­pli­ca por­que no atu­al pro­ces­so de im­pe­achment a mai­or par­te dos sin­di­ca­tos e mo­vi­men­tos so­ci­ais, o PT e os de­mais par­ti­dos de es­quer­da e as for­ças po­lí­ti­cas mais pró­xi­mas dos tra­ba­lha­do­res se po­si­cio­nam con­tra o im­pe­achment, en­quan­to o PSDB, a mai­or par­te do PMDB, os par­ti­dos de di­rei­ta e as or­ga­ni­za­ções em­pre­sa­ri­ais, além da gran­de mí­dia, são a fa­vor.

 

DM – Com Jo­sé Sar­ney, Ita­mar Fran­co e Mi­chel Te­mer, sem vo­tos, o PMDB che­gou ao Pa­lá­cio do Pla­nal­to. Exis­tem iden­ti­da­des en­tre es­ses pro­ces­sos his­tó­ri­cos?

Da­vid Ma­ci­el – Em ter­mos for­mais sim, pois nos três ca­sos os vi­ces pre­si­den­tes as­su­mi­ram o go­ver­no na va­cân­cia do ti­tu­lar, mas se no ca­so de Ita­mar Fran­co o pro­ces­so foi le­gí­ti­mo, nos ca­sos de Jo­sé Sar­ney e Te­mer, não. Is­to por­que a as­cen­são de Sar­ney foi ir­re­gu­lar, pois quem de­ve­ria as­su­mir era o pre­si­den­te da Câ­ma­ra, Ulis­ses Gui­ma­rã­es. Ape­sar da par­ti­ci­pa­ção de­ci­si­va de Ulis­ses na gran­de com­po­si­ção po­lí­ti­ca que vi­a­bi­li­zou a elei­ção in­di­re­ta de Tan­cre­do Ne­ves, sua as­cen­são à pre­si­dên­cia, mes­mo que in­te­ri­na­men­te (pois ele de­ve­ria con­vo­car no­vas elei­ções em ca­so de im­pos­si­bi­li­da­de de­fi­ni­ti­va de Tan­cre­do), po­de­ria ge­rar des­con­ten­ta­men­to en­tre os dis­si­den­tes do go­ver­no mi­li­tar que ago­ra apoi­a­vam a opo­si­ção, ca­so da Fren­te Li­be­ral, além da pró­pria re­sis­tên­cia de de­ter­mi­na­dos se­to­res mi­li­ta­res. Va­le res­sal­tar ain­da que a as­cen­são de Ulis­ses à pre­si­dên­cia o im­pe­di­ria de con­cor­rer à pró­xi­ma elei­ção pre­si­den­ci­al, o que in­vi­a­bi­li­za­va seu pro­je­to po­lí­ti­co e tor­na­va le­tra mor­ta o acor­do en­tre ele e Tan­cre­do, se­gun­do o qual Ulis­ses o apoi­ou ago­ra em tor­no do seu apoio no fu­tu­ro. Por­tan­to, o prin­ci­pal fi­a­dor da as­cen­são de Sar­ney foi aque­le que atuou co­mo a ver­da­dei­ra “emi­nên­cia par­da” du­ran­te to­do o seu go­ver­no, o ge­ne­ral Le­ô­ni­das Pi­res Gon­çal­ves, mi­nis­tro do Exér­ci­to. Nes­te sen­ti­do, a as­cen­são de Sar­ney foi um gol­pe po­lí­ti­co. Guar­da­das as di­fe­ren­ças his­tó­ri­cas, no ca­so atu­al o pro­ces­so tam­bém se con­fi­gu­ra des­ta ma­nei­ra.

 

DM – Flo­res­tan Fer­nan­des diz que a elei­ção, no Co­lé­gio Elei­to­ral, e de­pois, a pos­se de Jo­sé Sar­ney, abor­ta­ram a re­vo­lu­ção de­mo­crá­ti­ca que po­de­ria ter ocor­ri­do com as ‘di­re­tas já’. O se­nhor con­cor­da?

Da­vid Ma­ci­el – Sim, pois tra­tou-se de uma gran­de con­ci­li­a­ção en­tre as for­ças po­lí­ti­cas do­mi­nan­tes e en­tre as clas­ses bur­gue­sas, vi­a­bi­li­zan­do um go­ver­no con­ser­va­dor que con­du­ziu a tran­si­ção po­lí­ti­ca no sen­ti­do de pre­ser­var o má­xi­mo pos­sí­vel a ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­de po­lí­ti­ca au­to­ri­tá­ria cri­a­da du­ran­te a Di­ta­du­ra Mi­li­tar. Nes­te sen­ti­do, a pos­sí­vel re­vo­lu­ção de­mo­crá­ti­ca anun­ci­a­da pe­las “di­re­tas” deu lu­gar a um pro­ces­so de re­for­ma da au­to­cra­cia bur­gue­sa. Nos ter­mos de Flo­res­tan Fer­nan­des, a au­to­cra­cia bur­gue­sa, cu­jo apo­geu ocor­reu du­ran­te a Di­ta­du­ra Mi­li­tar, con­fi­gu­ra um ti­po de Es­ta­do que his­to­ri­ca­men­te não re­co­nhe­ce os tra­ba­lha­do­res e su­as or­ga­ni­za­ções co­mo su­jei­tos po­lí­ti­cos, ca­pa­zes de co­lo­car li­vre­men­te e de ma­nei­ra au­tô­no­ma su­as de­man­das e in­te­res­ses di­an­te do apa­re­lho es­ta­tal e das clas­ses bur­gue­sas sem se­rem ob­je­to da co­op­ta­ção po­lí­ti­ca e/ou de um tra­ta­men­to re­pres­si­vo. Di­an­te dis­to, cri­ou-se uma de­mo­cra­cia li­mi­ta­da, pois es­tru­tu­ra­da por den­tro por me­ca­nis­mos de cu­nho au­to­ri­tá­rio, oli­gár­qui­co e fas­cis­ta. Ou se­ja, a pers­pec­ti­va an­ti­au­to­crá­ti­ca pre­sen­te na cam­pa­nha das “di­re­tas” foi con­tra­ri­a­da por um pro­ces­so po­lí­ti­co que pre­ser­vou e re­for­mou a au­to­cra­cia bur­gue­sa, não a abo­liu.

 

DM – Por ­que a elei­ção de Tan­cre­do Ne­ves e Jo­sé Sar­ney é clas­si­fi­ca­da co­mo uma tran­si­ção pe­lo al­to?

Da­vid Ma­ci­el – Jus­ta­men­te por que se ba­se­ou nu­ma am­pla con­ci­li­a­ção po­lí­ti­ca en­tre a opo­si­ção mo­de­ra­da e os se­to­res dis­si­den­tes do go­ver­no mi­li­tar, com a acei­ta­ção do pró­prio go­ver­no mi­li­tar que saía, em tor­no de uma pers­pec­ti­va de pre­ser­va­ção, não de abo­li­ção, da au­to­cra­cia bur­gue­sa e de ne­ga­ção da pers­pec­ti­va de­mo­crá­ti­ca e po­pu­lar.

 

DM – O pro­cu­ra­dor-ge­ral da Re­pú­bli­ca, Ro­dri­go Ja­not, pe­diu ao STF a pri­são de Jo­sé Sar­ney, per­so­na­gem de seu li­vro. A ação tem fun­da­men­to? [O STF ne­gou}

Da­vid Ma­ci­el – Pa­ra além do des­con­ten­ta­men­to de Sar­ney com as ini­ci­a­ti­vas da Ope­ra­ção La­va-Ja­to, su­ge­rin­do al­gum ti­po de in­ter­ven­ção po­lí­ti­ca no sen­ti­do de re­di­men­si­o­ná-la ou mes­mo en­cer­rá-la, as con­ver­sas gra­va­das por Sér­gio Ma­cha­do su­ge­rem a ocor­rên­cia de trans­fe­rên­cia de re­cur­sos, de aju­da fi­nan­cei­ra, de ten­ta­ti­vas de ob­stru­ção da jus­ti­ça. o que in­di­ca, no mí­ni­mo, a ne­ces­si­da­de de apro­fun­da­men­to das in­ves­ti­ga­ções e a ado­ção dos pro­ce­di­men­tos ju­di­ci­ais ca­bí­veis.

 

DM – Cas­sa­do, Fer­nan­do Col­lor, per­so­na­gem de sua obra mais re­cen­te, vol­tou a des­vi­ar re­cur­sos pú­bli­cos, co­mo de­mons­trou a Ope­ra­ção La­va Ja­to. Co­mo ele en­tra pa­ra a His­tó­ria Re­pu­bli­ca­na?

Da­vid Ma­ci­el – Fer­nan­do Col­lor é um po­lí­ti­co con­ser­va­dor, de abran­gên­cia re­gi­o­nal, tí­pi­co re­pre­sen­tan­te das oli­gar­quias ala­go­a­nas, for­ma­do po­li­ti­ca­men­te em con­for­mi­da­de com a au­to­cra­cia bur­gue­sa vi­gen­te his­to­ri­ca­men­te no Bra­sil, ou se­ja, per­so­na­lis­ta, au­to­ri­tá­rio e pa­tri­mo­ni­a­lis­ta. Só che­gou à pre­si­dên­cia da Re­pú­bli­ca por con­ta de uma si­tu­a­ção his­tó­ri­ca mui­to par­ti­cu­lar, ou se­ja, de uma cri­se da he­ge­mo­nia bur­gue­sa. Uma cri­se de he­ge­mo­nia on­de, se de um la­do ha­via con­sen­so en­tre as clas­ses bur­gue­sas em tor­no da ne­ces­si­da­de de pre­ser­var o má­xi­mo pos­sí­vel a au­to­cra­cia bur­gue­sa, não ha­via uni­da­de acer­ca do pro­gra­ma eco­nô­mi­co a ser ado­ta­do. Is­to cau­sou um cur­to-cir­cui­to na re­pre­sen­ta­ti­vi­da­de po­lí­ti­ca dos par­ti­dos do­mi­nan­tes (PMDB e PFL) di­an­te das clas­ses bur­gue­sas, frag­men­tan­do su­as al­ter­na­ti­vas elei­to­ra­is e abrin­do ca­mi­nho pa­ra fi­gu­ras de pou­ca ex­pres­si­vi­da­de co­mo Col­lor. O avan­ço dos mo­vi­men­tos so­ci­ais e das or­ga­ni­za­ções dos tra­ba­lha­do­res fa­vo­re­ceu a as­cen­são das can­di­da­tu­ras de es­quer­da de Bri­zo­la (PDT) e Lu­la (PT), tor­nan­do re­al su­as chan­ces de vi­tó­ria nas elei­ções de 1989. Col­lor tor­nou-se o can­di­da­to das clas­ses bur­gue­sas e das for­ças con­ser­va­do­ras por­que con­se­guiu pas­sar a ima­gem de um “sal­va­dor da pá­tria” não en­vol­vi­do com um sis­te­ma po­lí­ti­co cor­rom­pi­do e com um go­ver­no des­gas­ta­do, ga­nhan­do a ade­são po­pu­lar e cons­ti­tu­in­do-se no an­ti-Bri­zo­la, no pri­mei­ro tur­no, e no an­ti-Lu­la, no se­gun­do. No en­tan­to, uma vez no go­ver­no evi­den­ci­ou to­dos os seus li­mi­tes en­quan­to ar­ti­cu­la­dor po­lí­ti­co e li­de­ran­ça po­lí­ti­ca, ten­tan­do im­plan­tar na mar­ra um pro­je­to ne­o­li­be­ral ex­tre­ma­do que agra­vou a cri­se eco­nô­mi­ca, so­ci­al e po­lí­ti­ca, res­sal­tou ain­da mais seu com­por­ta­men­to au­to­ri­tá­rio, per­so­na­lis­ta e pa­tri­mo­ni­a­lis­ta e uni­fi­cou as mais va­ri­a­das e di­ver­gen­tes for­ças po­lí­ti­cas e so­ci­ais con­tra si. Seu re­tor­no à po­lí­ti­ca res­ta­be­le­ceu sua ver­da­dei­ra di­men­são na his­tó­ria po­lí­ti­ca bra­si­lei­ra, qual se­ja, a de uma li­de­ran­ça re­gi­o­nal, de per­fil con­ser­va­dor e prá­ti­cas po­lí­ti­cas fi­si­o­ló­gi­cas, co­mo in­di­cam as atu­ais in­ves­ti­ga­ções con­tra ele. Na cri­se atu­al é re­al o ris­co de que nas pró­xi­mas elei­ções emer­ja um no­vo “sal­va­dor da pá­tria”, com as mes­mas di­fi­cul­da­des de ar­ti­cu­la­ção po­lí­ti­ca que Col­lor, agra­van­do a cri­se e cri­an­do a pos­si­bi­li­da­de de re­tro­ces­sos au­to­ri­tá­rios.

DM – Aé­cio Ne­ves [PSDB-MG] se­ria o her­dei­ro de Tan­cre­do Ne­ves?

Da­vid Ma­ci­el – Em ter­mos po­lí­ti­cos não, pois o que ca­rac­te­ri­za a tra­je­tó­ria de Tan­cre­do Ne­ves é a enor­me ca­pa­ci­da­de de agre­gar for­ças po­lí­ti­cas di­ver­gen­tes, con­ci­li­ar os in­te­res­ses do­mi­nan­tes e ain­da as­sim ob­ter apoio po­pu­lar pa­ra a es­ta­bi­li­da­de po­lí­ti­ca e a de­fe­sa da or­dem so­ci­al. Aé­cio não tem na­da des­ta ca­pa­ci­da­de, o que se evi­den­cia em seu com­por­ta­men­to in­tran­si­gen­te e ao mes­mo tem­po er­rá­ti­co no atu­al pro­ces­so de im­pe­achment e que o fez ser en­go­li­do pe­la di­nâ­mi­ca po­lí­ti­ca, per­den­do o pro­ta­go­nis­mo que ha­via con­quis­ta­do com as elei­ções de 2014. Em sen­ti­dos dis­tin­tos e de ma­nei­ras di­fe­ren­tes, na his­tó­ria do Bra­sil re­cen­te os ver­da­dei­ros her­dei­ros po­lí­ti­cos de Tan­cre­do são Fer­nan­do Hen­ri­que e, prin­ci­pal­men­te, Lu­la.

 

DM – O im­pe­achment, sem cri­me de res­pon­sa­bi­li­da­de, de Dil­ma Rous­seff, não é gol­pe?

Da­vid Ma­ci­el – Sim, por­que sem cri­me de res­pon­sa­bi­li­da­de o im­pe­achment não se jus­ti­fi­ca ju­ri­di­ca­men­te. Por­tan­to, o pro­ble­ma é po­lí­ti­co, ou se­ja, o im­pe­achment foi o ca­mi­nho es­co­lhi­do pe­la opo­si­ção de di­rei­ta, pe­la gran­de mai­o­ria do PMDB, pe­la gran­de mí­dia e pe­lo con­jun­to das clas­ses bur­gue­sas pa­ra in­ter­rom­per um go­ver­no elei­to, po­rém in­ca­paz de re­fun­dar a po­lí­ti­ca de con­ci­li­a­ção de clas­ses que fez as gló­rias do lu­lis­mo. De­pois das Jor­na­das de Ju­nho de 2013 e do fra­cas­so das po­lí­ti­cas an­ti­cí­cli­cas to­ma­das nos anos an­te­rio­res pa­ra evi­tar a con­ta­mi­na­ção ain­da mai­or da eco­no­mia bra­si­lei­ra pe­la cri­se mun­di­al, a pers­pec­ti­va de con­ti­nua­ção e apro­fun­da­men­to do pro­gra­ma ne­o­li­be­ral e ao mes­mo tem­po de ma­nu­ten­ção dos mo­vi­men­tos so­ci­ais e das or­ga­ni­za­ções po­lí­ti­cas dos tra­ba­lha­do­res sob con­tro­le re­dun­dou em des­gas­te, iso­la­men­to po­lí­ti­co e per­da de le­gi­ti­mi­da­de. O que pa­ra o gran­de ca­pi­tal tor­nou o go­ver­no pe­tis­ta dis­pen­sá­vel, de­pois de 13 anos de ser­vi­ços pres­ta­dos em fa­vor da he­ge­mo­nia bur­gue­sa no pa­ís.

 

DM – O que há de iden­ti­da­de en­tre Hon­du­ras, 2009, Pa­ra­gu­ai, 2012, e Bra­sil, 2016?

Da­vid Ma­ci­el – Guar­da­das as enor­mes di­fe­ren­ças de gran­de­za eco­nô­mi­ca e im­por­tân­cia po­lí­ti­ca, os três ca­sos se as­se­me­lham na me­di­da em que os go­ver­nos elei­tos de Ma­nu­el Ze­laya, Fer­nan­do Lu­go e Dil­ma Rous­sef con­tra­ri­a­ram, mes­mo que par­ci­al­men­te e em graus va­ri­a­dos, os in­te­res­ses do ca­pi­tal in­ter­na­ci­o­nal, par­ti­cu­lar­men­te do ca­pi­tal fi­nan­cei­ro, e se com­pro­me­te­ram com po­lí­ti­cas so­ci­ais com­pen­sa­tó­ri­as vol­ta­das pa­ra os po­bres. Es­ta si­tu­a­ção le­vou o ca­pi­tal in­ter­na­ci­o­nal e as clas­ses do­mi­nan­tes na­ti­vas, com apoio de se­to­res das clas­ses mé­di­as, a pa­tro­ci­na­rem gol­pes ju­rí­di­co-par­la­men­ta­res en­ca­mi­nha­dos por den­tro da pró­pria ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­de, dis­pen­san­do as­sim o fe­nô­me­no do gol­pe mi­li­tar tí­pi­co da his­tó­ria la­ti­no-ame­ri­ca­na. É im­por­tan­te res­sal­var que em Hon­du­ras os mi­li­ta­res ti­ve­ram um pa­pel im­por­tan­te na de­po­si­ção do pre­si­den­te, ape­sar de não as­su­mi­rem o po­der. No ca­so de Ma­nu­el Ze­laya tra­tou-se de uma li­de­ran­ça oli­gár­qui­ca que bus­cou ali­ar-se à AL­BA e ao cha­ma­do blo­co bo­li­va­ri­a­no (Ve­ne­zu­e­la, Bo­lí­via, Equa­dor e Cu­ba), as­sim des­con­ten­tan­do os in­te­res­ses im­pe­ri­a­lis­tas. No Pa­ra­gu­ai tra­tou-se de der­ru­bar um go­ver­no for­te­men­te vin­cu­la­do aos mo­vi­men­tos so­ci­ais e com uma pers­pec­ti­va pós-ne­o­li­be­ral. No Bra­sil, o gol­pe ju­rí­di­co-par­la­men­tar es­tá em cur­so, ape­sar de ain­da não po­der­mos afir­mar que es­tá con­su­ma­do ple­na­men­te, ha­ja vis­ta os bai­xís­si­mos ín­di­ces de po­pu­la­ri­da­de do go­ver­no Te­mer por con­ta da pau­ta ne­o­li­be­ral ex­tre­ma­da que de­fen­de, e sua pró­pria in­ca­pa­ci­da­de em go­ver­nar, sur­pre­en­den­do os que acha­vam que bas­ta­va a que­da de Dil­ma pa­ra que a es­ta­bi­li­da­de po­lí­ti­ca fos­se re­con­quis­ta­da.

 

DM – A Ve­ne­zu­e­la é a bo­la da vez?

Da­vid Ma­ci­el – Tu­do in­di­ca que sim, ape­sar do go­ver­no Ni­co­lás Ma­du­ro ain­da con­tar com o apoio ex­pres­si­vo dos mo­vi­men­tos so­ci­ais, dos po­bres e de se­to­res im­por­tan­tes da bu­ro­cra­cia ci­vil e mi­li­tar, o que lhe con­fe­re uma ca­pa­ci­da­de de re­sis­tên­cia à ten­ta­ti­va de apeá-lo do po­der. O agra­va­men­to da cri­se eco­nô­mi­ca jo­ga­rá um pa­pel de­ci­si­vo no de­sen­la­ce da cri­se ve­ne­zu­e­la­na. De to­do mo­do, é vi­sí­vel o avan­ço das for­ças con­ser­va­do­ras na Amé­ri­ca La­ti­na, co­mo exem­pli­fi­cam os três ca­sos aqui tra­ta­dos, além de ou­tros co­mo Ar­gen­ti­na, ago­ra o Pe­ru e mes­mo a Bo­lí­via, on­de a pre­ten­são de Evo Mo­ra­les de con­cor­rer a um no­vo man­da­to foi der­ro­ta­da.

 

 

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