O vinho da alma

A enteogenia, a alteração da percepção como busca por autoconhecimento

Postado por Redação em 2 de Fevereiro de 2016 às 18h30
Atualizado em 2 de Fevereiro de 2016 às 18h28

O Ayahuasca é uma bebida considerada enteógena. “A palavra enteógeno significa literalmente: manifestação interior do divino” deriva de uma palavra grega que se refere à comunhão religiosa com substâncias visionárias e está relacionada com a palavra entusiasmo pela mesma raiz. Ou seja, o uso de substâncias químicas para entrar em contato com o divino. O nome significa, Aya de alma e Huasca de Vinho.

Muitas vezes ao se referir a esse chá usa-se o termo “droga” de uma forma pejorativa e equivocada. O chá considerado uma bebida sagrada é feito através do cozimento de um cipó chamado Mariri (Banisteriopsis Caapi) e da folha da Chacrona (Psicotria Viridis). O uso dessa bebida é uma tradição indígena milenar que existia muito antes do conceito social construído sobre o que são drogas.

De acordo com o pesquisador Carlos Alberto Labate “O uso de enteógenos por seres humanos existe há, pelo menos, 50 mil anos . Em praticamente todos os cantos da Terra existe ou existiu alguma cultura que usa ou usou estes seres vivos com características especiais para as mais diversas finalidades”.

A bebida é geralmente utilizada em rituais ligados à expansão da consciência, da mente e do espírito. Muitos meios de comunicação se referem à bebida como uma droga recreativa e ao mesmo tempo perigosa, ignorando a experiência das pessoas que usam a planta na sua jornada de autoconhecimento.A revista “Isto É” por exemplo em uma matéria sobre o ayahuasca escreveu a seguinte chamada “O governo autoriza o uso do chá alucinógeno em rituais religiosos, mesmo com casos de morte após o seu consumo. A medida abre um novo e perigoso precedente na discussão sobre a legalização das drogas”.

Obviamente as substâncias precisam de algum estudo que ofereça informações de algum possível risco, para alertar se existem restrições. Porém disso para pedir a proibição baseado em preconceitos está um grande pulo.

A experiência de autoconhecimento

A estudante Larissa Batista conta sua experiência com a bebida, ela começa com os motivos que a levaram a procurar em uma cerimônia do Santo Daime o uso da substância enteógena “Eu andava me sentindo mal, bem mal, me faltava algo e eu não sabia o que era. Tentava pensar no que poderia ser e não conseguia encontrar resposta. E às vezes é no momento de desespero que a gente pensa em algo além. Tenho minhas crenças e minha curiosidade acerca de religiões que fogem dessas predominantes, católica, evangélica, que, pra mim, são farinha do mesmo saco. Não consigo engolir. E essas minhas crenças não se encaixavam ali

Larissa continua sua história “conversando com uma amiga, do Daime, sobre esses sentimentos ruins que estavam me esmagando, ela me convidou. Eu pensei por um tempo, até que a coisa realmente apertou. Além do mal estar, eu sentia falta de me conectar com algo, então fui. É isso, fui levada pela minha necessidade de me agarrar a algo, pela necessidade de ter minha serenidade de volta e pela curiosidade. Ah! E também autoconhecimento”.

Sobre a ligação do ayahuasca com a busca por uma visão mais ampliada de si mesmo ela conta “Já tinha ouvido falar de experiências com a ayahuasca, em que as pessoas têm um contato profundo consigo. E eu sentia que precisava disso também”.

Os primeiros minutos que seguiram o primeiro despacho (cada vez que se toma a bebida é um despacho) foi de silêncio, antes de começarmos a cantar os Hinos. Nesse momento, em que cada um fica refletindo consigo mesmo, eu tive vontade de chorar e alegria. De amor, mesmo, eu diria. Queria abraçar todo mundo com a maior força que tenho em mim! Tive uma sensação de pertencimento e de conexão, com tudo que há, tão, mas tão imensa. Coisa que eu não imaginava que sentiria, e que, acredito, muita gente nem sequer pensa que possa existir

Mesmo que para muitas pessoas o uso desse chá pareça uma prática condenável, ele traz uma experiência muito importante e construtiva para muitos como no caso de Larissa que termina dizendo “A sensação, começou no início do trabalho e se estendeu até várias semanas depois. Eu me senti renovada, livre, cheia de amor e parte do mundo de verdade. E dizer isso talvez até pareça exagero pra quem lê, mas pra mim nem parece o suficiente”.