Sarah Cabral in concert

Cantora Brasileira residente em New York canta em Goiânia, amanhã

Postado por Helvécio Cardoso em 23 de Março de 2017 às 23h37
Atualizado em 23 de Março de 2017 às 23h37

Sarah Cabral nasceu em Londrina, Paraná, há 31 anos. Há 12 ela mora nos Estados Unidos da América. Antes de se mudar para lá, curtia um roquinho pesado com sua banda de garagem. Cantar era só diversão de fim de semana.

Mas foi mesmo nos Estados Unidos que ela descobriu a Música Popular Brasileira. Morou 13 anos na Califórnia. Fez aulas de canto no Conservatório de Berkeley. Tornou-se cantora profissional. Atualmente, apresenta-se em clubes novaiorquinos e já gravou um disco, ainda não lançado no Brasil.

Ela poderia, como tantos outros, tirar partido de sua voz privilegiada, arranjar um nome anglicizado, e montar um repertório de standards de jazz e Rythm and Blues. Preferiu fazer o contrário. Ela, que no Brasil só cantava roque pauleira, e em inglês, descobriu nos Estados Unidos da América um tesouro cultural chamado Música Popular Brasileira.

Orientada por Marcos Silva, um produtor brasileiro que reside há décadas na Califórnia, e que ela chama de “meu mentor”, Sarah mergulhou de cabeça na MPB. Ela conta que entregou a marcos um Ipod vazio e ordenou-lhe: “enche”. Marcos colocou ali o que há de melhor da música Brasileira. Sarah passou a ouvir compulsivamente Jobim, Edu Lobo, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal… e vai por aí numa listagem infinita.

Foi ainda no Brasil, pouco antes de se mudar para os EUA, para viver com seu pai, que ela descobriu um dia que queria ser cantora profissional. Um filme que ela viu na TV, exibido na “Sessão da tarde”, foi para ela uma epifania. “Corina”, uma comédia romântica bobinha como toda comédia romântica produzida por Hollywood. Mas não foi o enredo da fita que a deslumbrou. Foi a trilha sonora: Luiz Armstrong, Duke Wellington… só fera.

A Música Popular Brasileira bebeu nas fontes do Jazz. Antes mesmo da Bossa Nova, já no Brasil alguns compositores vinha introduzindo elementos jazzísticos em suas composições. Mas a “influência do Jazz”, título de uma canção de Carlinhos Lyra, não desnaturou a Música Brasileira. Como já comentou Vinícius de Moraes, o jazz aparou algumas arestas do Samba, tornou-o mais intimista, menos depressivo. A índole permaneceu a mesma.

E como o jazz é mais um estado de espírito do que propriamente uma escola, não tardou a Garota de Ipanema ganhar o mundo e a Bossa Nova ficar conhecida no hemisfério norte como “Brasilian Jazz”. Depois da Bossa Nova, a nossa música continuou seu processo de constante atualização. Edu Lobo, Elis Regina, Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Milton Nascimento, tantos outros, apareceram com um negócio chamado “MPB”, ou Música Popular Brasileira, instituindo a chamada “linha evolutiva da MPB”.

A MPN está longe de ter esgotado a sua linha evolutiva. Mas é fato que, do ponto de vista comercial, ela está morta no Brasil. Rádios não tocam mais MPB. Nos botecos, só se houve o espúrio “sertanejo universitário” e suas derivações oportunistas. A Sifonália reina soberana nas noites do Brasil.

Apear disso, a Música Popular Brasileira, morta no Brasil, está cada vez mais viva e passando bem nos Estados Unidos e na Europa. E foi nesses lugares que surgiu ambiente propício para a evolução de nossa boa música.

O disco de Sarah Cabral é a evidência disso. É um álbum que une sofisticação, gosto apuradíssimo, e simplicidade. São apenas seis canções gravadas e mixadas no Estúdio Esat Bay Berkeley, co produzido por Sarah, Mike Taylor, Scott Thompson e Eva Scow, os músicos americanos da banda da cantora.

Sarah não tem apenas uma voz linda, aveludada e muito afinada. Ela canta de um jeito assim bem dela. É, antes de tudo, uma intérprete. Uma artista que renova e dá continuidade à grande tradição das cantoras intimistas, que cantam quase sussurrando. Num mundo onde o que está em voga são as cantoras estridentes, que berram e se esgoelam, Sarah nada resolutamente contra a correnteza, e assume orgulhosamente sua especificidade. E não teme ousadias: Na canção “Quem vem para a beira do Mar”, de Dorival Caymi, ela dispensa orquestração. Faz-se acompanhar apenas pelo baixo elétrico de Scott Thompson.

Esse tipo de cantar, “intimista”, como se diz, não é para qualquer um. Teve como precurssora Billy Hollyday, nos EUA; Juliete Grecco, na França; Doris Monteiro, Nara Leão, Claudete Soares e, eventualmente, Elis Regina, no Brasil. Entre os homens, começou com Bing Crosby, nos EUA; Dick Farney, Lúcio Alves e João Gilberto, no Brasil, todos sob forte influência do grande Orlando Silva, que soltava vozeirão quando queria, mas sabia sussurrar, quando necessário.

Em Goiânia 

Num belo dia, Sarah topou na california com Alex Calatayud. Apesar do nome, Alex é brasileiríssimo, goiano do pé rachado, orgulhoso de ter vivido sua infância e adolescência. Da Vila Nova para o mundo. Alex mora há mais de 20 anos na Califórnia. Músico profissional, percursionista, já tocou com muita gente importante, andou por todos os Estados Unidos e pela Europa, em festivais de jazz. Ultimamente ele vem tocando na banda de Sarah. E foi ele que a trouxe a Goiânia.

Alex fundou na California, junto com um músico americano com quem está constantemente tocando, um selo, chamado “Vagabundo Records”. Tem uma proposta: intercambiar músicos brasileiros com americanos. Levar gente daqui para se apresentar lá, e trazer gente de lá para se apresentar aqui.

O primeiro evento deste projeto é o concerto que Sarah Cabral fará amanhã no Galpão Complexo Criativo, a partir das 18 horas. O Galpão é uma casa nova que vem abrindo espaços generosos para a boa música popular brasileira, uma verdadeira trincheira de resistência ao mal gosto musical.

Para este concerto, Sarah e Calatayud formaram uma banda da pesada. Alex, na percursão, Bororó no contra-baixo e no violão e Fabiano Chagas na guitarra, constituindo o núcleo duro do conjunto. A banca ainda vem reforçada com Everton Bastos, piano; Wellington Santos, trompete; André Luiz, trombone; Ricardo de Pina, bateria.

No repertório, canções de Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Milton Nascimento, Djavan, Dani Gurgel e, claro, do compositor Bororó. Só papa fina, na particularíssima releitura da tradicional MPB que esta cantora, fã de Elis Regina , de Elza Soares e Nana Caymmi, vem fazendo com muita competência.

Sarah não afeta vedetismo. Tem um jeito tímido, delicado, de uma simpatia ilimitada. Morando no Brooklin há dois anos, ela vai levando sua carreira com muita seriedade. Gosta mais do palco, das plateias, do que do disco, daí seu pouco interesse em gravar e frequentar paradas de sucesso. Para ela, a medida do sucesso é o aplauso dos que a ouvem cantar. Lúcio Alves disse certa vez que, se Orlando Silva era o cantor das multidões, ele, Lúcio, era o “cantor das multidinhas”. Aplica-se a Sarah. Seu canto é para poucos e privilegiados. Sendo o privilégio, no caso, o gosto apurado, o saber apreciar o que é bom.

Em tempo: Sarah estará soprando 32 velinhas amanhã. Mas quem ganha presente é o público que irá aplaudi-la no Galpão.

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