“Academia é responsável pela defesa da língua portuguesa”, diz Arnaldo Niskier

Intelectual recebeu título de cidadão goianiense  na Assembleia Legislativa

Postado por Walacy Neto em 17 de Junho de 2017 às 22h23
Atualizado em 17 de Junho de 2017 às 22h23

A Academia Brasileira de Letras foi fundada no ano de 1897 pelo escritor Machado de Assis e o intelectual Joaquim Nabuco. Entre as funções que a Academia desempenha estão a manutenção da língua portuguesa e a luta pela preservação dos escritores brasileiros. Durante os 120 anos de Academia vários escritores e incentivadores da literatura brasileiro ocuparam alguma cadeira da instituição. Arnaldo Niskier é um dos atuais membros da Academia. Escritor, jornalista e educador Arnaldo ocupa a cadeira 18 do patrono João Francisco Lisboa já faz 30 anos.

Recentemente o escritor foi homenageado no Estado recebendo o título de cidadão goianiense. Em entrevista ao Diário da Manhã, Arnaldo contou sobre a situação atual da academia, falou sobre educação, crítica literária e outros assuntos ligados à língua portuguesa. Confira abaixo a entrevista.

 

DMRevista–Qual a importância da Academia Brasileira de Letras na conjuntura brasileira?

Arnaldo Niskier–Basicamente a Academia é responsável pela defesa da língua portuguesa. Isso consta no artigo primeiro do estatuto elaborado por Inglês de Souza com apoio de Machado de Assis e Joaquim Nabuco. A preocupação maior da academia e dos acadêmicos é a defesa da língua portuguesa e sau valorização no conceito nacional. Por isso se fez um acordo de unificação com as outras nações lusófonas porque nós temos que ter uma língua escrita de uma só maneira para que a gente possa ter presença na organização das Nações Unidas.

 

DMRevista – Após esse acordo o que você acha que mudou na criação literária?

Arnaldo Niskier–Eu acho que o acordo facilita a maneira de redigir. Alguns portugueses não aceitam o acordo porque consideram um instrumento de dominação cultural dos brasileiros. Na verdade eles não se conformam porque nós somos uma país com 202 milhões de habitantes e portugal tem apenas 10 milhões. Isso tem que ser entendido e tem que ser respeitado. Eu acho o acordo bom. Ele na verdade mostra em cores fortes o que os portugueses já queriam em 1945. O acordo é fundamentalmente um instrumento que foi pensado pelos portugueses em 1945. Depois o Antônio Houaiss com a genialidade dele e com a respeitabilidade dele ele elaborou o acordo que está aí sendo tocado hoje em dia e é irreversível.

 

DMRevista – Você acha que essa unificação ela favorece o Brasil e os países de língua portuguesa nesse contexto de mundo globalizado?

Arnaldo Niskier–Eu acho que simplifica a língua portuguesa. O fato de a língua portuguesa ser o sexto idioma mais falado no mundo nos dá uma posição que eu não diria de primazia mas uma posição de força na humanidade culta. Nós temos que ir pra frente com isso. Quem não gosta vai ser preocupar com outras coisas porque isso aí é irreversível.

 

DMRevista – Geralmente quando se discute essa unificação também se discute o preconceito. A obra de Monteiro Lobato, por exemplo, nela existe uma preocupação por parte de quem quer preservar enquanto uma parte quer realmente tirar esses trabalhos afirmando que são preconceituosas e etc. Como você ver isso?

Arnaldo Niskier–O mundo é muito pertinente mas é preciso partir de uma premissa. Nós estamos julgando Monteiro Lobato com olhos de 2017 e ele escreveu isso em meados do século passado. Então a Dona Benta com o que aparentemente seria uma reação contra os negros ou uma discriminação ela era uma forma de expressão respeitada naquela ocasião que não incomodou com ninguém. Hoje nos incomodamos com a obra de Monteiro Lobato que é um gênio da língua portuguesa que deve ser respeitado como tal. Não creio que a obra dele tenha qualquer aspecto discriminatório que precisa ser recriminado.

 

DMRevista – Você acha que a população negra tendo mais acesso a formas de expressão conseguiu alavancar esse debate? Desde Machado de Assis até os dias atuais quantos negras passaram pela Academia?

Arnaldo Niskier–Temos o presidente da Academia. Machado de Assis era negro, depois houve um cardeal que era negro e hoje o presidente da academia. Então esta é a prova que a Academia não discrimina nem poderia discriminar porque ela é uma instituição democrática onde pretos, brancos, azuis, mulatos tem cadeira segurada.

 

DMRevista–Uma coisa interessante que a gente vê hoje é o trabalho cultural no Brasil. Algumas áreas como a música, teatro, o cinema tem uma multiplicidade de novos artistas surgindo. Você o mesmo dentro da literatura?

Arnaldo Niskier–É até um problema para nós, em alguns casos. Esta semana estive na Academia conversando com a secretária geral da Academia e vi que para a próxima vaga, que era do Eduardo Portella, já existem oito candidatos e você conhece dois ou três destes enquanto os outros você não conhece porque são basicamente gente nova que estão se apresentando para a Academia. Mas ainda acho isso um bom sintoma.

 

DMRevista – Ao longo da história da literatura tivemos vários momentos que são separados em gêneros literários. Para você qual gênero é o futuro da literatura brasileira?

Arnaldo Niskier–Não acho que existe. Já se debateu muito quando se discutiu a quantidade de prêmio da Academia. A Academia tem um grande prêmio que é o Machado de Assis e outros que são destinados para literatura infantil, poesia, ensaios e outros. Na verdade eram destinados porque foi modificado no regimento. Isso hoje está completamente unificado. Nós trabalhamos com todos os gêneros. Agora o candidato mais forte para a vaga do Eduardo Portella é o Antônio Cícero que é um belíssimo poeta, compositor e também filósofo. Ele próprio é uma figura híbrida assim como é na Academia. Embora a grande inspiração da Academia é o Machado de Assis que pra mim é o grande escritor da literatura brasileira.

 

DMRevista – Existe uma visão da Academia de que ela é uma instituição conservadora. Mas o que vemos é uma realidade totalmente diferente. Como é essa relação entre essa parte inovadora da academia e o lado mais tradicional?

Arnaldo Niskier–Um exemplo, o presidente da Academia hoje é o Professor Domício Proença de língua portuguesa do Colégio Dom Pedro III. Ele é uma figura típica porque ele sabe tudo sobre informática e precisa saber porque a Academia tem internet, tem um site. Ela se abriu para a modernidade sendo uma instituição conservadora. Então essa dualidade aparente ela se resolve muito bem na prática.

 

DMRevista–Falando em dualidade, quando falamos em livro impresso e e-book para você nesse confronto quem venceria?

Arnaldo Niskier–Vou falar dados concretos. O e-book surgiu como uma revolução. Ele vai acabar com o livro impresso. Porém, não é isso que está acontecendo no Estados Unidos. O e-book está diminuido ano a ano enquanto o livro impresso está voltando. É claro que muitas livrarias no Estados Unidos fecharam nos últimos anos mas eu acredito que isso é muito mais pela crise econômica do que propriamente pela briga entre um e outro.

 

DMRevista–Você acha que a crítica deveria se alterar?

Arnaldo Niskier–É ler com boa vontade. Você não pode entrar em um livro com má vontade. Isso não é exame do vestibular isso é uma coisa literária. Entrar com boa vontade e descobrir qualidades e não desfeitos. Se existem defeitos é lógico que a crítica deve apontar mas na verdade é um preconceito do diabo.

 

DMRevista–O Brasil é um país que tem educação?

Arnaldo Niskier–Não é mais deveria sê-lo. Já trabalhei na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro de 79 até 83 e inaugurei várias escolas. Eu acho que nós temos que modificar a educação. Gosto muito do comportamento de Medonça Filho. Agora virá aí a partir do ano que vem a reforma do Ensino Médio que acho muito boa. Vai valorizar em termos de base curricular o português e matemática que pra mim são essenciais.

 

DMRevista–No geral qual seria a solução para o ensino público se tornar algo de qualidade?

Arnaldo Niskier–Melhorar a formação dos professores e na verdade permitir que profissionais de notório saber possam dar aulas desde que estabelecidas determinadas pretensões. Acho que isso enriquece a graduação. Faltam vagas a serem preenchidas. O notório saber não vai tirar a vaga ninguém, vai incorporar aquilo que está em falta.

 

DMRevista–Tem um fenômeno crescente em Goiás que é a militarização das escolas públicas. Colocando a gestão da mesma nas mãos da PM. Qual sua visão sobre isso?

Arnaldo Niskier–Acho que não. Não é por aí o caminho para mim. Isso é um total despropério. São coisas que não combinam.

Entrevista por heitor vilela e ulisses aésse