O ilusionista

Pintor recriava cenas de uma maneira em que elas nunca poderiam ter acontecido

Postado por Leon Carelli em 17 de Junho de 2017 às 00h13

O apelo ao sensível, ao encantado, e ao intocável são os principais super poderes de Burne-Jones, responsável pela contato mágico entre o público e suas pinturas. O pintor viveu entre os anos de 1833 e 1898 (morreu no dia 17 de junho, aos 64 anos), e é conhecido principalmente por seus quadros de conotação religiosa, criados através de cores vibrantes e de impressionante direção de cena. O artista é considerado um grande influenciador das artes francesas, principalmente entre os simbolistas do fim do século XIX. Também inspirou poetas como Swinburne. A obra de Burne-Jones passou grande parte do século XX relegada ao esquecimento, até passar por uma redescoberta durante a década de 1970.

De acordo com Judith Flanders, em artigo para o jornal britânico The Telegraph, Burne-Jones foi o último dos Pré-Rafaelitas, e expressou como poucos o que era o imaginário da Inglaterra no período Vitoriano (correspondente ao reinado da Rainha Victória, que durou de 1837 a 1901). O espírito reformista do pintor era traduzido nas cenas que criava. “Ele era o pintor da imaginação”, afirma Flanders. “Daquilo que deveria ter sido mas nunca foi, das donzelas sonhadoras e belas adormecidas.” A autora reitera que Burne-Jones cresceu em um período de grandes mudanças. “Nasceu na Revolução Industrial, em Birmingham, internalizada no ethos Vitoriano do trabalho pesado e dos propósitos moralistas.”

A autora descreve Burne-Jones como uma espécie de ilusionista munido de técnicas bastante particulares. “Sua personalidade era igualmente fluida: ele era um encantador que algumas vezes parecia mentalmente ausente, um gracejador prático da sensibilidade hiperdesenvolvida.” Para entender o trabalho de Jones, nada melhor do que suas próprias palavras, escritas em uma carta para um amigo. “Quero dizer a beleza através de uma pintura, sonho romântico ou algo que nunca aconteceu e nunca acontecerá – em uma iluminação melhor do que qualquer luz possível – em um lugar onde ninguém pode definir ou lembrar, apenas desejar – e as formas divinamente belas – e depois eu acordo, com o despertar de Brunilda [mitologia nórdica].”

Edward  Burne-Jones

Edward Burne-Jones

Irmandade 

Em meados da década de 1840, um grupo de poetas, pintores e críticos ingleses denominado Irmandade Pré-Rafaelita. O grupo visava reviver traços artísticos do período pré-renascentista, rejeitando a influência de pintores como Michelangelo e Rafael, que segundo o grupo, aproximou a arte de técnicas mecanicistas. Os membros da irmandade acreditavam que as poses clássicas e elegantes adotadas por Rafael Sânzio veio a tornar-se uma influência corrupta à arte acadêmica. Por esse motivo, adotaram o termo Pré-Rafaelita para nomear o grupo. O retorno de detalhes abundantes é uma das marcas da irmandade, assim como as cores intensas e as composições complexas que marcaram a arte italiana do século XV.

O século XIX colocou o meio artístico em uma imersão revivalista do Romantismo, movimento artístico que dominou a Europa no fim do século XIV. Existia uma ambição entre os pré-rafaelitas em devolver à arte sua pureza – existente, segundo eles, no período medieval. O grupo trabalhava com conceitos como pintura histórica, mimesis e imitação da natureza como uma proposta central de sua arte. Definiam-se como um movimento de reforma, criaram um nome distinto para sua forma de arte, e publicaram um periódico chamado The Germ (janeiro-abril de 1950) para promover suas ideias. William Rossetti expressou o espírito do movimento: “Ideias genuínas, estudo atencioso da natureza, simpatia ao sério e direto, e o mais importante: pinturas e estátuas primorosas.

Duas vertentes principais foram identificadas no movimento. Alguns artistas (como Millais e Holman Hunt) destacaram-se retratando temas sociais do século XIX, como o materialismo crescente, utilizando representações realistas. O segundo grupo, o que mais ganhou destaque (composto por Rossetti e Edward Burne-Jones), esteve mais ligado a temas medievais, através de cenas religiosas, carregadas de misticismo e visionarismo. As primeiras exibições do grupo tiveram início em 1849, com trabalhos de Millais (Isabella) e Hunt (Rienzi) exibidos na Academia Real. No mesmo ano, Rossetti promoveu uma exposição livre em Hyde Park Corner, importante praça de Londres, de sua peça “Infância de Virgem Maria”.

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