“Está escrito nas estrelas”

Não conseguimos ver as estrelas. Não são visíveis porque são feitas de cristal

Postado por Edvaldo Nepomuceno em 20 de Abril de 2017 às 20h20

No artigo de hoje, se me permitem, vou tratar de alguns cientistas, filósofos e poetas, que fizeram grandes descobertas e belíssimos versos sacudindo as tuberosidades isquiáticas (no bom português bundeando). Começo esta pelo físico Kepler que em um insight crucial afirmou que os planetas se movimentam em elipses. Segundo a sua proposição, os astros descrevem, na sua órbita, uma eclipse de que o sol ocupa um dos focos. Galileu, que era o mais eloqüente defensor do sistema Solar de Copérnico, centrado no sol- seu Diálogo Sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, a primeira grande obra escrita sobre ciência, nunca aceitou a sua teoria, considerando que as órbitas tinham de ser círculos perfeitos. Até aí ele estava seguindo Aristóteles, que declarou que, enquanto o movimento na Terra (no mundo “sublunar”) deve ter começo e fim, o movimento celestial é, necessariamente, circular. O Velho Galileu estava enganado. Para que isso fosse verdade e correspondesse ao que acontece no céu, os planetas teriam de se movimentar não apenas em círculos – os mesmos velhos epiciclos que haviam derrubado o universo geocêntrico de Ptolomeu. Sabendo que havia sido derrotado, recolheu-se à solidão para lamber assim as suas feridas; mas foi Dante, o poeta divino que se envolveu, num ímpeto espiritual tendendo à perfeição e à planificação da vida e, por que não dizer, à salvação do homem, que afirmou pela sublimação do ideal em versos dando um sentido singular e profundo às tendências atrativas afirmando que o amor e o sol movem as estrelas. O filósofo Aristóteles também transmitiu o seu saber astronômico, num dos grandes jardins da Grécia, sob um céu resplandecente, quando Alexandre se indispunha com o pai. Ele, que ensinava bundeando nas ruas de Atenas, falava das esferas concêntricas que formam o universo. Como a terra está em seu  centro, a lua na esfera mais próxima seguinte, depois dos planetas e, na esfera mais exterior, as estrelas fixas. O que ele afirmou sobre as estrelas exige matemática, afinal são cinqüenta e cinco esferas se movendo no universo. Elas se movem, o céu não é o mesmo em meses diferentes. Vocês sabem disso. É a rotação das esferas. A rotação de cada esfera provoca movimento na esfera adjacente a ela. A esfera mais externa é movimentada por um motor imóvel, ou, se quiser, por Deus. Cada uma das 55 esferas menores, somando-se ao ímpeto que ganham das esferas próximas, tem seu próprio motor imóvel menor. Não conseguimos ver as estrelas, ele afirmou. Não são visíveis porque são feitas de cristal. Alexandre que passava uma manhã alegre observando o céu disse que quando ele fosse à Persia, os céus seriam diferente dizendo que há estrelas que nenhum civilizado já viu, mas que ele iria vê-las. Cada vez que Aristóteles jura visitar um lugar distante, Heféstion jura que também irá, e os outros obedientes, juram que também vão se unir à companhia, ficaram pensando quando ele ainda fitava o céu com uma folha na mão afirmando que as suas maiores batalhas ficariam registradas nas constelações. Como sei que você, amigo leitor, também é amigo das estrelas, avise-me se por acaso, numa rajada de curiosidade, vislumbrar uma das suas épicas batalhas edulcorada numa estrela, num arroubo de embevecimento bem-vindo, já que creio o estar enfadando com essa crônica sem deslumbramento (o certo era eu estar contemplando as estrelas e não escrevendo). Com a alma inundada por um súbito deslumbramento, olho para o céu e sorrio imaginando o grande Alexandre partindo para a guerra montado em Alcatrão. Se ele era conhecido desde a infância por atrair as abelhas, talvez atraísse também as estrelas. Os astrólogos dizem que um sinal auspicioso está escrito nas constelações; por isso acredito piamente que a glória dele está escrita nas estrelas. O meu conhecimento astronômico é ainda incipiente; das estrelas conheço apenas os nomes de algumas; das constelações menos ainda; nem sequer sei o número delas, e também não ouso perguntar porque tal pergunta me soa escarnecedora.  Confesso-lhe apenas, amigo leitor, que tive uma infância sem brilho e sem glória. O conhecimento que tenho do saber astronômico foi aprendido em esporádicas leituras de almanaques populares. Não li na minha infância sequer os livros do astrônomo Francês, Flammarion, autor dos alentados volumes Astronomie Populaire, Étoiles Du Ciel e Terres Du Ciel, fundamentais para entender a astronomia. Nunca perscrutei o céu com uma luneta mágica plantada em seu tripé escancarando o infinito com seu gigantesco olho. Nunca fui a um observatório, nem nunca recebi a visita de um poeta sabedor dessas coisas divinas mas sonhei com elas nos dias luminosos da minha infância e fiz delas uma escada transluminosa que me ajudou a caminhar nas noites escuras da minha ignorância. Só escrevo para lhe dizer que amo as estrelas e o universo com os olhos brilhando de felicidade e com o mesmo amor que move o sol e as estrelas. E isso, eu creio, amigo leitor, é tudo. O termo “amor” aqui aludido é no sentido largo, como sinônimo de apetite natural, muito usado pelos filósofos da tradição aristotélico-tomista; é claro que em outro vocabulário tem outras acepções. Como diz um cronista que tratou do mesmo assunto: “Dizendo que amor é que movem os astros, o poeta anunciava, trezentos e tantos anos antes de Newton, a gravitação universal. Além disso o verso de Dante tem um sentido principal que ainda é mais profundo, que é mais verdadeiro do que todas as equações do mundo. Se nós pensarmos na causa primeira e no Motor de todos os seres, e se nós pensarmos no Fim a que todos os seres são ordenados, veremos que em primeira e em ultima instância é Ele que move o sol e as estrelas. Ora, o seu nome é amor. Termo este já conhecido pelo generoso Kepler que nunca o substituiu em suas equações. Tempos depois no seu livro Harmonices Mundi Libri V, após uma série de cogitações mais ou menos destituídas de valor, anunciou a sua grande descoberta. Eis como, em genuíno estilo de salmista, ele comunicou o seu memorável conhecimento sobre as orbitas planetárias: “A sabedoria de Deus é infinita, assim como sua Glória e seu Poder. Céus, cantai o seu louvor. Sol, Lua, planetas, glorificai-o na vossa linguagem inefável. Harmonias celestes, e vós todos que procurais compreendê-las, louvai-o E tu, alma, minha, louva o teu criador. É por ele e n’Ele que tudo existe. O que nós ignoramos está encerrando n’Ele que tudo existe. O que nós ignoramos está encerrado n’Ele, bem como a nossa vã ciência. A Ele louvor, honra e glória, em todos os séculos e séculos.”
E encerrando o seu glorioso hino, o magnânimo astrônomo acrescentou esta comovente palavra de excelsa gratidão humana:
“Glória também a Moestin, o meu velho professor”.
Por aí se vê que o amor é a verdadeira força motriz dos grandes astrônomos.