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“Reconhecer o protagonismo da minha mãe é respeitar a história”

Há um ano, exatamente no dia 21 de fevereiro de 2023, Goiás e o Brasil se despediam de Dona Íris de Araújo, ex-primeira dama da capital e do estado

Ana Paula Rezende e Iris de Araújo: preservação de um legado de trabalho em favor dos goianos Ana Paula Rezende e Iris de Araújo: preservação de um legado de trabalho em favor dos goianos

Há um ano, exatamente no dia 21 de fevereiro de 2023, Goiás e o Brasil se despediam de Dona Íris de Araújo, ex-primeira dama da capital e do estado, ex-deputada federal por dois mandatos e uma das mais proeminentes mulheres da política goiana. A emedebista morreu aos 79 anos, um ano e três meses depois da morte do seu marido, Iris Rezende Machado, com quem foi casada por 57 anos.

Em entrevista exclusiva ao Diário da Manhã, Ana Paula Rezende (MDB), segunda filha do casal Iris/Iris, falou sobre a história da sua mãe, da saudade e do legado que ela deixou. Para Ana Paula, reconhecer o protagonismo da sua mãe na política goiana é, antes de mais nada, dignificar a história.

Lembrada para disputar a prefeitura de Goiânia como candidata da base governista, Ana Paula avalia que o mais prudente seria iniciar a política eleitoral de forma mais modesta, construindo seu próprio caminho. Acompanhe a entrevista:

Ainda vivendo o luto da perda do seu pai, vocês perderam também Dona Íris. Como tem sido conviver com essas ausências?

Ana Paula - Não está sendo fácil conviver com a ausência de duas pessoas tão presentes e fortes em nossas vidas. Aqui falo em meu nome e de meus irmãos, Cristiano e Adriana. Tivemos o privilégio de ter tido como pais, e exemplos, duas pessoas tão especiais e que dedicaram suas vidas incansavelmente ao próximo. Tiveram os mesmos ideais e convicções até o fim de suas vidas. Eles eram nosso porto seguro. Fazem muita falta, muita mesmo. Sinto falta da voz, dos ensinamentos, dos sorrisos, dos nossos almoços de domingo, das conversas - quase sempre sobre política - em volta da mesa, sempre enfeitada pela minha mãe. Estamos seguindo em frente como eles nos ensinaram, unidos e fortes.

Você acha que a história da Dona Íris tem sido contada de forma modesta?

Ana Paula – Tenho uma preocupação muito grande em defender o legado dos meus pais, mas eu tenho, sobretudo, respeito pela história. Eu entendo que respeitar a história é fazer justiça àqueles que abriram caminhos para que hoje estivéssemos aqui. Reconhecer o valor da Dona Íris, o seu protagonismo, a sua coragem, a sua contribuição e o seu legado para as mulheres, principalmente para aquelas que decidiram pela política, é respeitar a história, é celebrar essa história. Minha mãe foi duas vezes deputada federal com votações recordes, foi senadora por duas ocasiões, nunca teve uma mácula na sua biografia e jamais se rendeu ao fisiologismo que hoje, infelizmente, é tão natural na política. Então, fazer a defesa da trajetória política da Dona Íris não é uma obrigação só minha, da nossa família. É uma obrigação de mulheres, e homens também, que respeitam a história política de Goiás e do Brasil.

Você acha que a história da sua mãe precisa ser contextualizada para que as pessoas entendam a sua real dimensão?

Ana Paula - Sim. Hoje, com o feminismo em alta, com leis que punem a violência contra a mulher, inclusive a violência política, com mulheres ocupando lugar de destaque em vários segmentos, muitos e muitas esquecem a contribuição que mulheres como a minha mãe, que viveram uma época em que o machismo era quase uma virtude, a misoginia era celebrada e o preconceito contra as mulheres na política era regra, deixaram para a emancipação feminina, e o quanto isso contribuiu para a nossa participação na política. Minha mãe viveu tudo isso, e com coragem, com destemor e com idealismo alcançou o seu protagonismo na política goiana. O que falta, muitas vezes, é exatamente essa leitura, essa preocupação de se colocar no lugar daqueles e daquelas que vieram antes de nós. O protagonismo da minha mãe contribuiu, e muito, para o protagonismo que meu pai alcançou. Não é possível dissociar a importância da minha mãe na vida do meu pai. Foram 57 anos de companheirismo e lutas juntos.

Quais as conquistas que dão à Dona Íris a condição de precursora da ascensão feminina na política?

Ana Paula - Minha mãe conquistou muitos espaços na política. Foi a primeira e única mulher a presidir o MDB nacional. Foi a primeira a presidir o MDB estadual. Foi a primeira mulher a integrar uma chapa majoritária para a presidência da República. Minha mãe atuou firmemente para a redemocratização do país. Com ações e exemplos, Dona Íris abriu caminhos para que outras mulheres pudessem, hoje, estar onde estão.

Na sua avaliação, tudo que Dona Íris viveu na política valeu à pena?

Ana Paula - Minha mãe era uma mulher de personalidade forte, absolutamente intransigente a tudo aquilo que ela considerava errado. Não tergiversava quando provocada, por isso, muitas vezes, foi criticada por assumir posições. Esse seu comportamento também acabou gerando lendas, boatos, e muitas vezes, aqueles que não tinham coragem de atacar meu pai, atacavam minha mãe. E ela tinha consciência disso. Eu entendo que minha mãe se enxergava uma mulher realizada por tudo que ela conquistou.

Seu nome chegou a ser cogitado para disputar a prefeitura de Goiânia pela base governista. Você acha que sua mãe te incentivaria a aceitar o desafio?

Ana Paula - Com toda sua experiência, minha mãe sabia dos custos pessoais que a política impõe, e com isso das concessões que ela exige. O político ou a política, indiscutivelmente, tem que abrir mão de boa parte da sua vida privada, da família, do lazer, porque é uma atividade muito intensa. Se não nos incentivaram a seguir na política, nem meu pai e nem minha mãe, com a autoridade que tinham, também nunca atuaram para que não nos aventurássemos nessa seara. Mas, em relação a disputar a prefeitura de Goiânia, acho que a lembrança do meu nome foi muito mais uma homenagem aos meus pais, ao grande Iris Rezende, do que um apelo ao meu próprio nome. Preciso construir o meu próprio caminho, e que as pessoas, apesar de ser filha de quem sou, me vejam como Ana Paula Rezende, vejam minhas qualidades e meus defeitos, sem me confundirem com Iris Rezende ou com Dona Íris.

Então poderíamos dizer que não está descartada uma eventual participação sua no pleito de outubro próximo?

Ana Paula - Eu já disse outras vezes. Eu quero fazer parte da política, quero contribuir com Goiânia e com Goiás. Com meu pai, eu aprendi a amar Goiânia, eu vi a transformação que o casal Iris promoveu nesta cidade, o cuidado que eles tinham com o povo de Goiânia. Então eu quero o melhor para nossa capital, para Goiás também. Ao lado do governador Ronaldo Caiado, nosso grande líder, e do vice-governador Daniel Vilela, presidente do partido que meus pais honraram, quero contribuir. Concomitantemente, continuarei contando a história de Iris Rezende e de Dona Íris de Araújo, porque o legado que eles deixaram perpassa gerações.

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