Araguaia sofre seca inédita
Redação DM
Publicado em 14 de outubro de 2021 às 13:32 | Atualizado há 1 ano
O Araguaia, rio que banha os Estados de Goiás, Mato Grosso, Pará e Tocantins, graças a sua extensão de 2.627 quilômetros, sofre seca inédita. É o que aponta moradores ribeirinhos. Barqueiros ouvidos pela reportagem demonstram preocupação com o desaparecimento de canais de navegação. E também com a sobrevivência econômica dos pescadores. Os cardumes dos peixes como o surubim, piau, pintado, entre outros, comuns na subida do rio para a necessária reprodução, estão desaparecendo cada vez mais. A poluição já aparece na beira da praia, como latas de cerveja.
Elias Leite da Silva, 60 anos, nasceu em Aruanã, cidade a 314 km de Goiânia. Menino do beiradão seguiu os caminhos familiares. Pescador profissional, sempre aportando com os peixes consumidos pela população. A começar pelo pintado e o pirarara. Grandinho, optou pela profissão de barqueiro. Mais rentável durante praticamente o ano todo, sobretudo na alta temporada, que ocorre durante o período de férias. Para se ter uma ideia, no período Aruanã abriga até 400 mil turistas. Todo mundo se instala em hotéis, pousadas, e barracas nas praias.
Segundo Elias, que navega anos seguidos, “nunca vi algo igual”, pondera para a seca inesperada e prolongada. Para impedir eventuais choques na areia e danos no motor de popa, barqueiros fincam varas para mostrar que o rio está raso. O Araguaia já foi cogitado para navegação de barcos de grande calado, barateando os custos dos transportes até o porto de Belém, no Pará. Atualmente, esse sonho parece impossível. Marcelo Santana, presidente da Associação dos Barqueiros de Aruanã, confirma o que revela Elias. ABA conta com 107 barqueiros, o que demonstra apreço ao associativismo, que em princípio o protege.
Marcelo está preocupado com a situação reinante. “A gente fica sem condição de navegar”, observa. Segundo testemunhas, locais antes profundos, hoje dispõem de apenas 50 centímetros. O dirigente da Associação atribui essa condição à existência de pivôs destinados à irrigação nos afluentes do Araguaia. Entre eles, os rios Água Limpa, Claro e do Peixe. Elias Silva concorda inteiramente com o seu colega.
Apesar de tudo, os barqueiros têm um movimento o ano inteiro. Há o turista que prefere se deliciar do Araguaia – e Aruanã está incluída no programa – fora da temporada. Assim, encontra as pousadas mais facilmente, a tranquilidade do lugar e, sobretudo, da beleza que o rio oferece. Ênfase para o porr de sol, que costuma juntar gente na orla para sacar uma foto. No caso de Aruanã, há uma pracinha bastante aconchegante, um dos points para se apreciar o movimento das lanchas, dos jet skis ou das voadeiras cruzando pra lá e pra cá. Um detalhe: as praias são mais extensas no período de verão. Se o rio enche, elas submergem.

Pesca esportiva
Há o turista que prefere pescar. O Ibama recomenda a pesca esportiva apenas. No caniço e anzol. Nada de rede ou tarrafa. Os barcos para a atividade pesqueira esportiva estão sempre disponíveis no porto. Há um cais onde ficam parados, aguardando a preferência das pessoas. É comum, além das canoas, voadeiras, entre outros padrões, a existência de barcos conduzidos por carretas puxadas pelas caminhonetas e outros autos. Um barqueiro em regra conta com uma renda semanal de R$1.200,00.
O custo do passeio depende do itinerário e do tempo gasto. Com o aumento do óleo diesel e da gasolina, houve reajustes nesse feriado prolongado da última semana. Muita gente chiou, mas o barqueiro não tem outra saída. É também a sua sobrevivência. Como ressalta Elias: – Gosto de viver do rio. Isso aqui é a minha vida.