Autoestima vínica é tudo
Redação DM
Publicado em 25 de junho de 2021 às 16:41 | Atualizado há 5 anos
Esses dias estava assistindo novamente o longa-metragem “O Julgamento de Paris” (Bottle Shock, 2008). Filme estadunidense que conta uma das histórias mais interessantes do mundo vínico. O crítico de vinho, Steven Spurrier, organiza uma degustação às cegas de rótulos franceses e californianos em uma competição. A produção é baseada em fatos e personagens reais, e independente de qualquer exagero e drama, é uma excelente história até mesmo para quem não gosta ou não entende de vinhos, mas para quem gosta é um dever obrigatório conhecer essa trama.
Os vinhos são avaliados pelos maiores críticos franceses da época e os americanos vencem os gloriosos e angelicais franceses. Enfim. Eu fiquei pensando: auto-estima é tudo. Os americanos, apesar de terem vasto conhecimento e longos anos de práticas viticultoras, hora nenhuma se sentiram inferiores pelos franceses, escola milenar indiscutível e eterna de vinificação.
Os caras se julgaram à altura dos franceses e essa sempre foi uma característica ianque, a confiança exacerbada que grande parte dos europeus e o mundo inteiro praticamente enxerga como arrogância. Mas, mesmo assim, isso colocou os EUA no mapa e também referência mundial em vinhos e grande consumidor/ produtor.
A França é referência no assunto. Se qualquer escola nova quiser aprender a fazer vinhos, terá de recorrer aos franceses para aprender, mas se quiser ser diferente, autoral, e afirmar sua identidade, vai ter que ir ao país também aprender novos métodos ou para fazer diferente. É a primeira, segunda e terceira escola máxima de enologia.
Dito isso, os americanos, até a década de 70 não eram reconhecidos como bons produtores. Foi essa confiança que os levou a desenvolver um produto impecável, com uma forte propaganda. Óbvio que um acontecimento desse iria acabar em Hollywood e o mundo inteiro, até aqueles que não consomem vinho, iriam ficar tentados em experimentar o famigerado Chardonnay do Chateau Montelena ou o Cabernet Sauvignon da vinícola Stags’ Leap.
A população americana é um exemplo – e muitas vezes exagerado – de que deve-se valorizar e acreditar no que vem de si próprio. Eu não apoio essa ideia patriota. Eu prezo a qualidade, mas dá um pouco de inveja em saber que muitas coisas que são feitas lá, inspiram o amor dos americanos. Isso é algo que deveria ser seguido de exemplo.
Sem complexo de vira-lata, gostaria de ver a população brasileira se orgulhando e consumindo seu vinho da mesma maneira. Tudo bem que nosso consumo de nacionais cresceu mais 32,4% em relação ao ano passado, mas o consumo dos importados também aumentou 26,5%. Ou seja, no geral o vinho brasileiro subiu apenas três pontos em relação aos demais.
A hora é agora, o dólar está em valores estratosféricos, o Brasil vive sequência de safras ótimas (Rio Grande de Sul), uma atrás da outra, algo raro em qualquer terroir do mundo. Já temos vinhos de qualidade nas adegas e logo virão mais. Hora de mostrar todo valor da nossa viticultura que ainda tem muito para aprender e melhorar, mas não é essa criança desajustada que muitos apontam e torcem o nariz.
Nasser Najar, jornalista e sommelier. É formado pela UFG e ISG 1&2. Escreve neste espaço às sextas-feiras.