Mestre do sopro, músico Raul de Souza foi além do trombone
Redação DM
Publicado em 17 de junho de 2021 às 17:06 | Atualizado há 5 anos
Muitos vão dizer por dias que ele foi o maior trombonista do Brasil, um dos maiores do mundo. Sua morte será lamentada, imagens serão postadas e sua generosidade, exaltada. Mas o que de fato Raul de Souza tinha, além da superfície e da história que se cata aqui e ali, para ser Raul de Souza? O que o levou aos inúmeros festivais de jazz, a estar onde a música brasileira mais brilhava e a gravar com Sonny Rollins, Airto Moreira, Cal Tjader, Stanley Clarke, Ron Carter, Chick Corea, Freddie Hubbard, Sarah Vaughan, George Duke, Lionel Hampton, Frank Rosolino, Sérgio Mendes, Flora Purim, Milton Nascimento e tanta gente? Que música era essa?
Não se conhecerá Raul de Souza por inteiro ouvindo apenas um de seus álbuns, mas uma parte de Raul já é inebriante. Então, com o perdão do imperativo, ouça o que deixou esse homem que se foi aos 86 anos, na França, onde vivia, por complicações de um câncer na garganta. E, se puder, comece por “À Vontade Mesmo”.
Este primeiro álbum da discografia solo do trombonista, lançado em 1965, já o traz arrasador e pronto, aos 31 anos de idade, depois de muitas colaborações em estúdios, gigs no Beco das Garrafas e gafieiras pelos bailes do Rio de Janeiro.
Sua backing band, jeito bonito de chamar a banda de apoio, era tão luxuosa quanto o termo: tratava-se do Sambalanço Trio, de César Camargo Mariano, que vinha com a bateria de Airto Moreira e o baixo de Humberto Cláiber. Raulzinho, como era chamado, vem espantosamente ágil e feroz para tocar “À Vontade Mesmo”, o tema de abertura. Um fraseado limpo e sempre muito melódico, com cortes na respiração e sem glissandos, o deslizar entre as notas que torna os trombones de vara tão mais sensuais do que os de pisto. Raul, jovem e em busca da lacração, só usou, até meados da década de 1970, as peças com pisto, ou válvulas, uma forma de conseguir respostas mais rápidas.
O jazz e sua força instrumental pulsavam em Raul e o faziam se juntar ao time dos rebeldes em busca de um lugar de protagonismo para os instrumentistas. A bossa nova, desde 1959, havia se apresentado muito generosa aos compositores, aos arranjadores e, mesmo impondo sérias limitações, às vozes. Assim, “Você e Eu surge” no álbum de Raul como uma libertação reverencial mas impositiva que dizia: por trás de toda a contenção das gravações minimalistas de uma bossa nova pode haver um músico exuberante.
Seu trombone já chega improvisando no segundo ciclo harmônico, depois de tocar a melodia apenas uma vez, em um andamento bem mais veloz do que as versões de “Você e Eu” que se conhecia até ali. Ele faz extravagâncias deliciosas antes de passar a vez para o piano de César e retomar a melodia novamente. Depois de dizer ‘olhem para nós também’, retomava sua admiração pela beleza da cena que se impunha a todos e tocava uma das mais belas versões de “Primavera”, também de Lyra e Vinicius, mas agora como uma bossa cool extremamente delicada, como Chet Baker fazia com um aerofone menor, o trompete.
O Raul de Souza que se ouve em 1977, para conhecer mais uma de suas faces, é outro homem. Aqui, inspirado pelo funk e pela disco, ele faz um álbum pulsante, eletrificado e rock and roll. Sua vida já saiu do Brasil e se baseia agora nos Estados Unidos, onde viveu por quase 20 anos antes de sua partida para 16 anos de França. O jazz que ele respira já havia se fundido ao rock no início da década para criar o fusion, arrastando gente que o admirava, como Chick Corea, John McLaughlin e Miles Davis. Mas Raul viu tudo aquilo talvez como algo cerebral demais.
Agora, no LP “Sweet Lucy”, tudo se eletrificava de forma espetacular nas mãos gigantes do “funky boy” Byron Miller no baixo; do impossível baterista Leon Ndugu Chancler, que cinco anos depois estaria gravando o álbum Thriller, com Michael Jackson; da tecladista Patrice Rushen e do guitarrista Al McKay, do Earth, Wind & Fire. Todos dirigidos por George Duke, da banda de Frank Zappa, The Mothers of Invention. É preciso ouvir esse álbum para falar de Raul de Souza.
Muitas histórias, músicas e um instru mento inovador existem entre o álbum de 65 e o de 77. Dirão que, em algum momento, Raul criou um instrumento e o patenteou, e é verdade. Seu nome é souzabone, uma peça de quatro válvulas, uma a mais do que os trombones de válvula normais. Raul adorava falar de sua invenção e escreveu sobre ela em sua página de Facebook. “O souzabone é o instrumento que criei. É um trombone de pisto com um quarto pisto a mais e geralmente é usado com pedais de efeito (oitavador, delay, etc), como nessa performance”. Seu apetite pela invenção não cabia mais no próprio instrumento. Foi preciso expandi-lo. (J.M/A.E)