Deixa que digam
Redação DM
Publicado em 17 de junho de 2021 às 17:03 | Atualizado há 5 anos
O festival In-Edit Brasil começou oficialmente ontem e segue até o dia 27 com uma seleção de filmes para se ver em casa, de graça ou pagando muito pouco, R$ 3, pela plataforma in-edit-bra sil.com. Uma parte da programação das mais das 50 produções ficará também na plataforma do Sesc Digital, a sescsp.org.br/cine maemcasa, e, a partir de 28 de julho, um dia após o término oficial da exibição, alguns filmes permanecem até 28 de setembro no espaço virtual da Spcine Play: spcineplay.com.br.
Ou seja, se há perdas físicas na realização de um festival inteiramente virtual, os ganhos também existem, e a possibilidade de vê-los fora das exigências de horários impossíveis a muita gente é um deles. A maioria dos filmes vistos com antecedência pela reportagem faz parte da programação nacional e ao menos três deles saltam aos olhos pela carga emocional e pela fuga do costumeiro depoimento seguido de depoimento. Algo muito difícil de se conseguir.
“Alzira E – Aquilo Que Eu Nunca Perdi”, de Marina Thomé, é um deles. Sensível, investigativo, tem imagens preciosas de arquivo da grande família Espíndola e esforços de uma câmera esperta. Marina olha para Alzira, e já era tempo de alguém fazer isso, sem querer criar conflitos onde eles não existem para valorizar seu personagem. Ela a trata com respeito e valoriza seus muitos encontros, desde a saída do lar dos cinco irmãos artistas, em Mato Grosso do Sul, até a chegada definitiva a São Paulo e sua união com Itamar Assumpção, Luli e Lucina, Luiz Waak, Arrigo Barnabé e Ney Matogrosso. Gente de cantos diferentes que, incrivelmente, falava a mesma língua.
A vida de Jair Rodrigues aparece perfila da por Rubens Rewald no ótimo “Deixa que Digam”. Sempre foi um desafio biografar Jair, um homem sem conflitos e sem contradições, dois temperos tomados como imprescindíveis às grandes histórias. Talvez um único período de contratempo mencionado no longa de 100 minutos seja um afastamento de Jair da mídia, por um suposto desinteresse por parte dos veículos de comunicação, entre meados dos anos 1980 e entrada dos 90, mas há dúvidas que mesmo isso possa tê-lo afetado. Jair é uma pedreira a quem busca problematizá-lo.
Ele não se levantou contra os militares, não por apoiá-los, mas por não politizar a vida para a qual insistia em sorrir. Não assumiu o passado na lavoura no interior de São Paulo como uma história de superação por nunca entender que precisava de uma para ser maior do que já era, e nunca valorizou possíveis casos de racismo contra sua pessoa para levantar-se com a imponência de um militante. A história de Jair Rodrigues, sem dramas internos, é grandiosa exatamente por isso. E as cenas em que o filho Jair de Oliveira interpreta as falas e os trejeitos do pai para narrar alguns episódios foram uma sacada brilhante.
Autor dos mais prolíficos do samba e da MPB, Paulo César Pinheiro é tema de “Letra e Alma”, de Andrea Prates e Cleisson Vidal. As imagens de arquivo estão lá, mas o eixo central é guiado pelo close das câmeras que visitam o compositor em seu apartamento, no Rio, para ouvir suas tantas histórias. Paulo recita alguns de seus versos e conta passagens ótimas sobre as origens de músicas conhecidas.
Bonito
É bonito também o filme “Todas as Melodias”, que Marco Abujamra fez sobre a história de Luiz Melodia, com muitas imagens raras e um foco especial na narração da mulher do cantor, Jane Reis. Não é definitivo e, de Melodia, cabem sempre muitos mergulhos, mas emociona, informa e, o mais importante, contamina a quem assiste com a irresistível aura deste artista. A matriz criativa de Melodia foi estabelecida sobre fontes diferentes daquelas de seus pares. De todos esses gigantes, ele é um raro pensador de música brasileira que disse sim ao blues e ao rock para faz-los andar junto a todo samba que chegava ao Estácio. Melodia não precisou sufocar seus estrangeirismos para afirmar uma brasilidade imaginária. É por isso que o blues, mesmo diluído, está em tudo o que fez.
“Canto de Família”, de Paula Bessa Braz e Mihai Andrei Leaha, conta a história da família dos irmãos Cruz, gente humilde e de talento que vive de ensinar jovens e crianças muito pobres em uma escola de música num dos bairros mais violentos de Fortaleza. Que bom que o filme não cai na armadilha de mostrá-los deslumbrados quando chegam ao Rio de Janeiro para um concurso de música. Seria tão forçado quanto a ideia de Wim Wenders em mostrar os velhinhos cubanos do Buena Vista maravilhados ao chegarem aos Estados Unidos. O filme brasileiro é real em tudo.
Um dos destaques internacionais é Ro ckfield, que narra a história de dois irmãos fazendeiros do interior do País de Gales que criaram, por serem apaixonados por rock and roll desde que ouviram Elvis Presley, o pri meiro estúdio caseiro do mundo. É para lá, no meio dos porcos e das vacas, que vão gravar Robert Plant em sua fase de procura por si mesmo no pós-Led Zeppelin; Ozzy Osborne em busca de um som com o Black Sabbath; o Simple Minds, que recebe a visita de David Bowie; Lemmy Kilmister e seu carregamento de drogas; e os irmãos Gallagher, do Oasis, como sempre, em pé de guerra. ( Julio Maria/ Agência Estado )