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O cheiro dos séculos

Redação DM

Publicado em 28 de agosto de 2018 às 02:59 | Atualizado há 2 anos

A prática do banho diário é uma cultura bastante di­fundida em quase todas as civilizações da nossa época. Nós, brasileiros, somos conhecidos por levarmos essa questão muito a sé­rio. De acordo com pesquisa publi­cada pela revista Superinteressan­te, tomamos em média 12 banhos por semana, um número bastante alto comparado a países como a Inglaterra, onde a média é de ape­nas quatro. Vários estudos revelam que os hábitos indígenas e a abun­dância de água no Brasil tiveram grande relevância no nosso con­ceito de higiene pessoal. Além dis­so, hoje vivemos numa era em que a estrutura das cidades nos permite tomar banho com muita facilidade, se compararmos a outros períodos da história.

De acordo com artigo publica­do por Francisco Evando Costa Freitas no segundo volume do livro Os desafios da escola pública para­naense na perspectiva dos professo­res, o pouco contato da civilização europeia com a água na antigui­dade está ligado também à reli­giosidade. “A palavra higiene, na sociedade ocidental, só teve um destaque maior na vida das pes­soas no início do século XIX. Nes­sa época, os médicos passaram a escrever textos de higiene que in­centivavam o uso do sabão. Mas, é bom que se diga, no Oriente, prin­cipalmente entre os muçulmanos, lavar o rosto, as mãos e os pés era, nessa época, um ritual religioso obrigatório”, explica. “Na verdade, os europeus da época considera­vam, quase que exclusivamente, o corpo como a origem do pecado”.

Em contrapartida, os povos que habitavam a América do Sul antes da colonização incluíam banhos até mesmo em seus rituais religio­sos, como explica o professor. “Aqui, a história foi diferente. Nossos co­lonizadores foram, aos poucos, adotando o banho, influenciados pelos índios. Ao contrário dos por­tugueses da época, sujos e mal­cheirosos, os índios eram fortes, saudáveis e asseados. O banho, até mesmo, está presente em muitos rituais religiosos dos índios bra­sileiros”. A temperatura do Brasil também é um fator importante a ser lembrado, pois em socieda­des europeias, onde o inverno é rigoroso, entre os mais pobres era priorizado o uso da lenha apenas para o essencial, que era cozinhar e manter o aquecimento ambien­te, e a água para o banho precisa­va ser aquecida.

Em entrevista concedida ao jor­nal Estadão, o escritor Eduardo Bue­no, autor do livro Passando a limpo: História da higiene pessoal no Brasil, explicou que hábitos praticados pe­los índios no período em que os por­tugueses atacaram o litoral do Brasil ainda permanecem em nossa cul­tura. Com o auxílio de produtos ve­getais como óleo de andiroba e ex­trato de pitanga (hoje presentes em nossa indústria), todos eles se depi­lavam, cortavam e lavavam os ca­belos. “Nessa época, os europeus tomavam de um a dois banhos por ano, e apenas por recomendação médica”, conta Eduardo Bueno. “Eles achavam que a abertura dos poros que acontecia após o banho seria a porta de entrada para a ‘peste’ res­ponsável por deixar tantos de cama”.

LONDRES, SÉCULO XVIII

John Townsend é um especialis­ta em cultura norte-americana do século XVIII, e colabora com o ca­nal Townsends, no Youtube. No ví­deo Hygiene In The 18th Century, que já foi visto mais de 500 mil ve­zes, ele descreve um panorama dos hábitos de higiene praticados em grandes centros urbanos do século XVIII, como a cidade de Londres. “Não sei se gostaríamos de estar na mesma sala que nossos antepassa­dos do século XVIII por muito tem­po, pois nós esperamos um certo nível de limpeza do qual eles não ti­nham nem ideia do conceito”, con­ta. “O sistema de esgoto de Londres no século XVIII era uma grande ca­lha no meio da rua e tudo corria. E essa era uma das cidades mais avan­çadas do mundo ocidental, na épo­ca. Se as cidades tinham esse cheiro, as pessoas provavelmente não po­deriam ter um cheiro tão melhor”.

De acordo com o esboço de John Townsend, tomar banho no século XIII era uma grande mis­são. “Eles não tinham o mesmo conceito de higiene que temos atualmente. Definitivamente, não tomavam banho com a mesma regularidade que estamos acos­tumados. Nem mesmo tinham a mesma quantidade de água dis­ponível, ou os equipamentos”, ex­plica. “Hoje na América do Norte tomamos banhos de forma fácil e rápida, eles não tinham nada dis­so. Era preciso ter uma banheira, adquirir toda a água necessária, aquecê-la, e não era fácil. Por ou­tro lado, é uma generalização, pois algumas pessoas acreditavam que o banho poderia fazer bem para a saúde e praticavam com maior fre­quência”, conclui.

IDADE MÉDIA

De acordo com Patricia Grimshaw, autora do artigo Weird Medieval Bathing Habits, publica­do no site The Vintage News, o cris­tianismo e a imensa desigualdade social existente entre nobres e não nobres influenciavam diretamen­te nos hábitos de higiene das socie­dades europeias. “Se estivéssemos naquele período, tanto a classe mé­dia quanto a classe trabalhadora seriam incluídas na categoria não nobre. Naturalmente, trabalhado­res manuais ficavam no nível mais baixo da escala de higiene”, explica a autora. “Por não possuírem ba­nheiras, os banhos eram restritos aos meses de verão, quando cór­regos poderiam ser usados para tais fins. No entanto, eles provavel­mente praticavam uma lavagem regular, mesmo com água fria ou um pano úmido”, conclui Patricia.


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