“Meu corpo é minha mátria e está sempre mudando”
Redação DM
Publicado em 7 de junho de 2018 às 01:25 | Atualizado há 8 anos
- Instalação conta com três séries: Nota de Falecimento; Meu corpo é minha mátria e está sempre mudando, e Vândalas Mascaradas
Escrever aqui que Sophia Pinheiro é formado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás é muito pouco. São dados que utilizamos para tentar entender as experiências de um artista, mas ainda sim é pouco. Como por exemplo: Sophia Pinheiro é co-fundadora do Coletivo Fake Fake, produtora de arte em design na Hábil Produção e eteceras. Não se trata de diminuir essa quantidade significativa de produções e inquietações de Sophia. A questão é apontar que essas informações de currículo não englobam o que é sua produção e nem poderiam. O trabalho de Sophia antes passa pelo seu corpo, é experimentado ali, presenciado, identificado e, só ao fim, algo é dito.
As influências são o que ela é e aquilo que as pessoas ao seu redor vivem. Ou seja, uma parte considerável do trabalho de Sophia é pôr em evidência o machismo, o patriarcado, a homofobia e o racismo. Nesta quinta-feira (7/6) a artista abre uma exposição com desenhos, fotografias e instalação em três séries de trabalho, na cidade de Barcelona, na Espanha. A exposição leva o nome de MATRIA, e é composta pelas obras “Nota de Falecimento”, “Meu corpo é minha mátria e está sempre mudando” e “ Vândalas Mascaradas”
CONFIRA ABAIXO A ENTREVISTA COMPLETA COM SOPHIA PINHEIRO:
As questões que sua produção destaca tem relação direta com a sociedade, principalmente suas contradições e desigualdades. Como essas questões te afetam? Como é o processo de transformar uma realidade tão dura e escrota num trabalho artístico?
Acredito que antes de qualquer sentimento de criação artística ou processo, me reconheço de onde vim e de onde falo. Eu sei que por ser uma mulher branca e mesmo que, bissexual, não tenha sofrido um terço dessas contradições e desigualdades se analisarmos o escopo social de grande parte da população brasileira com marcadores sociais da diferença explícitos como raça, etnia, classe social e o gênero. Mas questões me afetam muito porque eu faço parte de um todo-social, e a minha trajetória perpassa muitos campos dessas vivências. Recentemente, uma das artistas e poetas que mais gosto, a Mariana de Matos, fez uma exposição em Recife e um de seus trabalhos dizia “Considere meu corpo um aliado”. E é assim que me percebo, como uma aliada que utiliza a linguagem artística pra tentar transmutar todos esses sentimentos de dureza da realidade que sofremos. E claro, para tentar expulsar do meu corpo todas essas violências que nos acercam. Eu sinto muito. E nesse sentir, busco– como quem busca algum ponto para assentar–uma justeza das minhas imagens, do meu trabalho. A arte opera diretamente sobre meu ser e meu corpo e os uso como instrumentos.
A arte exerce essa função crítica na mão de grandes artistas. Você acredita que seria possível, para você, não pautar essas questões no seu trabalho?
Para mim, não. Digo entre amigos que fui criada por minha família para ser forte (quando dá) e para implodir o sistema. Desde muito cedo as pautas políticas se fizeram presentes na minha vida por toda minha vivência mesmo que de um lugar “privilegiado”. Por exemplo, em Berlim uma amiga onde eu fazia aulas me perguntou desde quando eu era feminista e eu não consegui pensar minha existência sem o feminismo porque eu cresci justamente em uma família de mulheres que lutaram por sua sobrevivência. Minha avó começou a ler aos 40 anos, terminou a faculdade de pedagogia em uma universidade pública com quase 60 e depois foi ser professora para crianças e adolescentes em escolas públicas. Antes ela criou as 7 filhas sozinha, costurando. Nessa costura de vida, não há como não pautar essas questões críticas e sensíveis da arte que funciona para mim como grito de liberdade e reivindicação se estar no mundo. Nada contra uma arte que se vê apenas como adorno, decoração ou não possui uma reflexão crítica, mas essa não é a minha onda. Ainda mais nesse atual contexto político brasileiro em que estamos, com a perda de direitos primários.
A obra “Notas de Falecimento”, por exemplo, critíca o massacre de uma parcela da sociedade por parte das forças policiais e o poder do Estado. Como essas instituições representam o machismo? Você vê, no futuro, alguma possibilidade de mudança para essas instituições, tendo em vista que o machismo é quase uma herança na nossa sociedade?
Para mim essas instituições representam o machismo justamente por serem forças patriarcais de um sistema capitalista que primeiro dominou as terras e as cercou, para depois dominar os corpos das mulheres e assim, sucessivamente, das pessoas que estão fora desses padrões que essas forças patriarcais estabeleceram como verdade. A opressão ao desejo–desejo de ser como se é, desejo de ter uma vida mais digna, mais igualitária, desejos simples como estudar bem, comer bem, se vestir bem. Desejos que são transformados em meros desejos de consumo e establishment de um status quo. Eu vejo sim uma possibilidade de mudança. Preciso ver, senão não consigo viver. Mas vejo sobretudo porque estamos chegando cada vez mais perto da cabeça desse ser patriarcal. Talvez seja uma visão muito otimista, mas creio que muitas dessas violências estão cada vez menos toleráveis e tenho muita esperança nas crianças, por exemplo, risos. Das conquistas que tivemos, em todo o mundo, não há como voltar atrás. É clichê, mas é um fato.
O machismo impõe regras nos corpos femininos. Na sua produção artística, alguma vez, você sofreu com imposições masculinas sobre seu trabalho?
Já sofri algumas imposições sim, bem sutis como por exemplo desde não poder postar nas redes sociais algumas de minhas fotografias a ser atacada por homens que comentaram em minha página de trabalho que se uma criança olhasse meu trabalho na rua iria ser um ultraje. E meu trabalho sofre com as imposições masculinas principalmente porque ele é indissociável ao meu corpo, a quem sou. Essa nova série “Meu corpo é minha mátria e está sempre mudando”, por exemplo, eu fiz depois de viver na carne alguns processos de violência na Europa. Foi na Europa que eu percebi que meu corpo é realmente não regulado, eu me vi latina e vi que muitas vezes o estereótipo de ser uma mulher brasileira passa à frente de outras questões, por exemplo. O machismo limita a minha produção até mesmo quando eu me observo pensando se posso expor uma foto X porque ela é muito íntima, mostra meu corpo. Ou quando pelo fato do meu trabalho mostrar muito corpos femininos, os homens acharem que estou disponível para eles ou me colocarem naquele lugar de “mulher fácil”. Mas como te disse, já provei que sou de família, risos. E o machismo limita o trabalho das mulheres justamente porque os “grandes” artistas são homens brancos. Reflexões bem pontuais nos livros “Por que não houve grandes mulheres artistas?” da Linda Nochlin traduzido pela Edições Aurora e “Elogio ao toque: como falar de arte feminista à brasileira” de Roberta Barros ou numa simples pesquisa da diversidade de artistas na história da arte, publicada no Nexo:
A mídia acaba se tornando um reflexo da sociedade. Nas suas obras você utiliza o corpo para representar a mídia. Como é refletir no seu corpo algo que é tão nocivo para a sociedade?
É bom, porque nesse processo eu me reconheço. Me vejo e me curo dessas representações. Seria como viver no poema “cuíer paradiso” da Tatiana Nascimento: “eu tô tão cansada de ter que corrigir o mundo inteiro na minha cabeça y ele continuar errado… de tentar resistir, responder (sem esquecer de dançar, de sorrir) e ver que eu vou morrer sem nada tá mudado, mudado mesmo” Refletir no meu corpo algo nocivo pra sociedade é uma maneira de me curar da sociedade.
Vândalas Mascaradas parece ser também um reflexo do que você vive, sendo artista nesse mundo patriarcal. Esse “monstro-híbrido” é algo que você tira das suas vivências ou se inspirou em algo externo?
O meu “monstro-híbrido” é híbrido mesmo. Parte do meu biopoder e do biopoder das mulheres que me cercam e das que vieram antes de mim. Um biopoder da natureza também. Em aceitar a nossa natureza e acolher luz&sombra. Uma força bem arquetípica mesmo, das máscaras que vestimos às roupas que despimos. Nesse mundo patriarcal contra a autonomia e a felicidade de nossos corpos, as “vândalas mascaradas” estão aí pra descolonizar, se exibir, entre mulheres. Nós queremos nossos corpos vivos. Não só vivos porque estão sujeitos às violências, mas vivos porque ele tem cheiro, ele transpira, ele dança, sabe? O corpo sente. Todo o corpo é zona de prazer. Particularmente, eu sempre achei meio esquisito atribuirmos ao coração todas as manifestações de sentimentos, enquanto é a pele que arrepia e transmite ao cérebro as sensações básicas de quente e frio e até as pulsantes, como o tesão. As “vândalas mascaradas” então, vem dessa festa do corpo que já transmutou as violências e agora quer viver.