“Stálin e Manuilski sabiam e deram a ordem para putsch militar de Prestes”
Redação DM
Publicado em 26 de maio de 2018 às 00:35 | Atualizado há 1 ano
- Depois de se render a Getúlio Vargas, comunistas fazem reviravolta na linha política e defendem luta armada, em 1950
- PCB, em 1980, dividiu-se em três facções: aliados do Cavaleiro da Esperança, homens de Giocondo Dias e independentes
- Roberto Freire funda, em 1992, o PPS, e tenta, em 2018, trocar o nome da sigla. O PCB resiste com Edmilson Costa
Georgiano, Josep Stálin, secretário-geral do PCURSS e guia-genial dos povos, nascido em 1878 e morto, aos 73 anos, em 1953, e Dmitri Manuilski, ucraniano, presidente da Terceira Internacional, fundada pelo russo de classe média, um advogado, Vladimir Ilich Ulianov, “nom de guerre” Lênin, e por Liev Davidovich Bronstein, codinome Leon Trotsky [1879- 1940], monitoraram o putsch militar deflagrado pelo PCB no Brasil, em 27 de novembro de 1935. É o que diz o historiador Marcos Guedes. Após densas pesquisas, a revelação compõe Comunismo e Stalinismo no Brasil.
– Os dois sabiam e esperavam que o levante armado no Brasil fosse um sucesso.
O pesquisador informa que 1935 teria sido um movimento executado com princípios doutrinários e interesses geopolíticos de comunistas na Rússia e no Brasil. Não funcionou, define-o. Não havia uma compreensão do cenário político no País de dimensão continental do Cone-Sul, frisa. Dos caminhos que a crise poderia levar, pontua. Fracassado, o putsch fortalece Getúlio Vargas e fragiliza a emergente democracia brasileira, observa. Apenas dois anos depois, o gaúcho de São Borja decretou a instalação do Estado Novo. A sua ditadura, atira o professor.
– Somente uma eventual vitória política e militar na operação poderia evitar a acusação de adoção de uma tática errada de Josep Stálin e de Dmitri Manuilski e que levaria ao fracasso o movimento revolucionário mundial.
Com a derrota de Adolf Hitler, Alemanha, de Benito Mussolini, Itália, e do Japão, na Segunda Guerra Mundial, em 1945, a URSS obtém projeção mundial ocupa o Leste Europeu – Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, RDA [República Democrática da Alemanha] –, vê as revoluções na Iugoslávia e Albânia e o movimento comunista internacional atinge novo patamar. Um novo alento no mundo, afirma. O PCB se tornou legal no Brasil e conseguiu eleger 16 deputados federais e um senador, o Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Preste, viúvo de Olga Benário.
– O PCB ainda colocava os interesses da URSS de forma dogmática. Antes de tudo. O que o levou a se posicionar contra greves no Brasil, defender a ordem social e Getúlio Vargas.
Com o estopim da Guerra Fria, o PCB foi cassado, aponta. O acúmulo que havia sido ganho desapareceu, diz. Motivo: a inexistência de uma forte ligação entre o partido e o seu eleitorado, resume. Refém das diretrizes da União Soviética, o PCB nunca quis ser uma sigla cujos princípios tomassem como base a realidade do movimento operário e social brasileiros, fuzila. A reviravolta na linha política oficial dos comunistas tupiniquins ocorre na década de 1950, relata Marcos Guedes. O PCB volta a defender a luta armada e ataca as reformas políticas.
– Até contra Juscelino Kubitschek o PCB fez oposição. A URSS, porém, em coexistência pacífica, acomodava-se com os EUA. Não queria mais revoluções no mundo.
O declínio que levou à dissolução do movimento comunista, conta. Com o golpe de Estado civil e militar de 31 de março, 1º e 2 de abril de 1964, o PCB fragmenta-se. Múltiplas organizações surgem. Com as suas táticas e estratégias. Além de influências das revoluções da China, em 1949, da guerra da Coreia, 1953, do triunfo em Cuba, 1959, e das guerras de libertação e independência nacionais. Década de 1980. Século 20. O que restara do PCB estava dividido em três grupos, diz o autor de Comunismo e Stalinismo no Brasil [Prismas], lançado em 2018.
– Primeiro, os seguidores de Luiz Carlos Prestes e que tinham uma verdadeira devoção à sua imagem. Segundo, os militantes que queriam um partido democrático e popular, como o PC Italiano. Terceiro, os comunistas que ficavam no meio termo da disputa política e ideológica pela hegemonia no velho Partidão.
Luiz Carlos Prestes, líder da coluna que rodou o Brasil sem ser derrotada, nunca aceitou ser comandado e, quando acabou destituído do cargo de secretário-geral, se rebelou e saiu do PCB, explica. Com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, as eleições na Polônia, a Revolução de Veludo na Tchecoslováquia, o fuzilamento de Nicolau Ceausescu e Elena Ceausescu, na Romênia, e o fim da União Soviética, em 25 de dezembro de 1991, as mudanças no PC da Itália, o PCB decidiu seguir a mesma senda. Mudar sua tática e estratégia e alterar o seu nome.
– Agora, sob o comando de Roberto Freire, o PCB vira PPS.
Sem o apoio do movimento comunista europeu ou da União Soviética e sem nunca ter criado raízes no Brasil, a única maneira de o partido sobreviver era mudar de nome e tentar recomeçar, relata o escritor Marcos Guedes. Tudo de novo, pontua. Dar um Reset, ironiza. Apesar das mudanças, a operação não funcionou, crê. Fundado em 1992, o PPS [Partido Popular Socialista] acabou sendo tragado pela cruel política brasileira, vocifera. Não custa lembrar: o PPS, que ensaia, mais uma vez, trocar de nome, é aliado do PSDB, de José Serra [SP] e do Democratas, além do PSD.
– Mesmo assim, em 2018 ainda existem partidos políticos que se declaram filhos da tradição do Komintern, a Terceira Intercional. A central mundial da revolução proletária e socialista.
O Brasil nunca possuiu um partido comunista forte, avalia. O sucesso do PT [Partido dos Trabalhares], fundado em 1980, que ganhou quatro eleições presidenciais consecutivas, se deu pela estratégia que o PCB não queria fazer, analisa. Qual é? Criar uma legenda ligada aos movimentos sociais, urbanos e rurais, de trabalhadores e das classes médias, com vínculos com setores progressistas da Igreja Católica, adeptos da Teologia da Libertação, com intelligentsia de esquerda, e egressos da derrota pós-1964. Em tempo: Marcos Guedes é professor titular de Ciências Políticas, da UFPE, e PhD na Universidade de Essex, Inglaterra.
– Pesquisei em arquivos dos Estados Unidos, Inglaterra e Europa documentos sobre o PCB e sua relação com a Internacional Comunista.

Cronologia
1917 Revolução Russa
1923 Stálin no poder
1924 Morre Lênin
1929 Trotsky deportado
1935 Putsch fracassado
1936 Prestes é preso
1945 Prestes libertado
1947 PCB é cassado
1950 Reviravolta
1964 Golpe no Brasil
1985 PCB legalizado
1992 PPS é fundado
2018 PCB consolidado