Grupos da morte
Redação DM
Publicado em 23 de maio de 2018 às 01:04 | Atualizado há 1 ano
- Indução ao suicídio, tráfico de drogas e outros crimes são praticados por cibercriminosos e colocam adolescentes em perigo na Internet. Delegada diz que Deep Web e Dark Net prejudicam investigações por dificultar acesso aos autores dos crimes
O crescente número de casos de suicídio entre adolescentes ligados a jogos virtuais tem preocupado pais, autoridades, instituições e entidades da sociedade civil. Pelo menos três adolescentes que suicidaram entre fevereiro e março deste ano em Goiás têm relação direta ou indireta com o jogo mortal The H4ters (Os odiadores), afirma Sabrina Leles, delegada titular da Delegacia Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (Dercc).
O jogo é semelhante à Baleia Azul, que surgiu na Rússia, e consiste em uma série de desafios diários enviados à vítima.
Dentre as ações está a automutilação e atividades contra inimigos, sendo o último desafio a prática do suicídio.
Segundo Sabrina Leles, o jogo The H4ters tem mais de 43 mil inscritos e tem fotos de adolescentes mutilados, mortos e nus com o símbolo “THS”, em referência ao jogo. “Temos 43 mil adolescentes inscritos no jogo. Se pensarmos que existem pelo menos dois responsáveis por cada adolescente, onde estão os 86 mil pais ou responsáveis que não acompanham a rotina dos filhos?”, questiona Sabrina.
Para a delegada, as investigações se travam na dificuldade de obter os dados já que a maioria se utiliza de mecanismos como Deep Web e Darknet em que as páginas são criptografadas e anônimas, além de proxies para desvirtuar o IP (identidade do computador), facilitando a ação dos cibercriminosos.
O promotor de Justiça Publius Lentulus Alves da Rocha, coordenador do Centro de Apoio Operacional à Infância e Juventude, alerta sobre a necessidade de um trabalho conjunto para combater os crimes potencializados pela Internet. “Indução ao suicídio, tráfico de drogas, ciberbulling, dentre outras ações maléficas, necessita de uma ação em equipe. A prevenção e repressão precisam ser enfáticas e observar tanto o lado humano quanto o tecnológico”, explica.
TRÁFICO DE DROGAS ONLINE
Há grupos que não induzem ao suicídio, mas vendem drogas pela Internet a adolescentes e causam um mal enorme tanto para os menores quanto à sociedade, diz o titular do Juizado da Infância e Juventude de Goiânia Vítor França Dias. De acordo com o juiz, grupos como “Gambira online” e “Gambira dos panos” vendem drogas facilmente, além de objetos oriundos de furtos ou roubos. As entregas ocorrem através de aplicativo semelhante ao iFood.
O magistrado diz que tem dificuldade de derrubar esses grupos, pois quando conseguem um novo é criado facilmente. E Ministério Público e policiais não possuem equipamentos evoluídos para acompanhar a rápida inovação tecnológica. “A administração pública ainda não assumiu a dimensão do tráfico de drogas entre adolescentes em Goiânia. Adolescentes da periferia morrem todos os dias por causa do envolvimento com esse tipo de crime”, diz Dias.
PREVENÇÃO
A psicóloga da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Viviane Teles, afirma que começar a pensar em ações para prevenir os adolescentes de participarem desses grupos é urgente. Para ela, não é fácil criar mecanismos, pois a prevenção exige uma ação conjunta específica para as crianças, adolescentes, pais, professores e sociedade. “O que mais fazemos é enxugar gelo e apagar fogo, pois a prevenção é complexa e exige esforço e dedicação de várias áreas”, comenta Teles.



