Antilulistas atacam petista em Goiânia
Redação DM
Publicado em 21 de abril de 2018 às 01:41 | Atualizado há 8 anos
A intolerância política e ideológica vai, aos poucos, ganhando as ruas. Algo parecido com tropas de choque nazistas espancando esquerdistas nas ruas, durante a efêmera república de Weimar; ou cavaleiros da Ku Klux Khan perseguindo negros nos Estados sulistas da América.
O que vira moda no Brasil cedo ou tarde chega à província. Em Goiânia já chegou. No dia 7 de abril deste mês um cidadão, idoso, foi atacado por uma gangue de arruaceiros pela simples razão de ser militante do Partido dos Trabalhadores. Seu enteado levou uma facada no braço. E os agressores ainda se saíram como vítimas.
Abrão Costa Noleto, 65 anos, é comerciante. Foi dele a ideia de criar a “Feira do Pequi com Chocolate”, exclusiva em gastronomia. A feira acontece todas as sextas, no final da tarde, no Parque Flamboyant, sendo muito frequentada sobretudo pela vizinhança. Abrão é o coordenador do evento e mantém ali uma banca de chopp artesanal. É uma pessoa muito popular no local, conhecido de todos que frequentam a feira.
Nos anos 80 do século passado, Abrão Noleto exerceu a vereança em Goiânia, quando era então filiado ao MDB. Foi diretor do Muritama e diretor de esportes da Secretaria Estadual de Esportes, durante o governo Santillo. Nos anos 90, passou a militar no PT, não se candidatando mais. Desde então, dedica-se prioritariamente aos seus negócios.
Um grupo de rapazes resolveu, no Parque Flamboyant, comemorar a prisão do presidente Lula de uma forma espalhafatosa, soltando rojões. A barulheira deixou as crianças assustadas. Os muitos cães de estimação que por lá são levados a passear pelos donos, entraram em pânico. Diante daquela situação pavorosa, Abrão, como responsável pela feira, foi demandar aos alegres antilulistas que não queimassem fogos.
Irados, os antilulistas correram ao encalço de Abrão com o intuito de surrá-lo. Gritando insultos, “petista filho da puta”, os agressores o perseguirão até o carro, onde ele buscou refúgio. Os agressores ainda tentaram arrancá-lo do carro, no que foram impedidos por César, que, na refrega, acabou sendo golpeado no antebraço por uma faca.
Neste momento, outros feirantes, que presenciaram a cena, acudiram para conter os agressores. Segundo essas testemunhas, os antilulistas estavam “visivelmente embriagados”. Policiais passavam por ali e o caso foi parar na Delegacia de Polícia.
O Termo Circunstanciado de Ocorrência é contraditório. Abrão, a vítima, alvo da cólera antipetista, foi ouvido como “testemunha”. César foi qualificado como “autor” e “vítima”, contrassenso que é flagrante violação do segundo princípio da lógica, o da “não contradição”. A mesma contradição se verifica em relação a André Luiz Bastos de Paula Costas.
Outro envolvido no caso, Luciano Antônio Mendes Duarte, foi ouvido como testemunhas. Segundo consta do Termo, tanto Luciano como Abrão teriam dito que ouviram de André e de César que “a briga foi provocada por questões políticas”. Abrão disse ao Diário da Manhã que não disse nada disso.
Em seu depoimento, André contradiz Luciano. Ele disse à polícia, e consta do TCO, que estavam no parque “soltando fogos em comemoração à prisão do ex-presidente Lula”. Diz ele que, por volta das 22h30, quando estavam indo embora, foi cercado por Abrão e César “e um outro indivíduo que não sabe dizer o nome”, e que eles o agrediram. Alegou que nesse momento ia passando por lá uma viatura da polícia, que ouviu o caso e o conduziu à Central de Flagrantes.
César afirma o contrário. Viu uns cinco homens tentando tirar Abrão do carro, e lá foi socorrê-lo. Disse que André ia dando uma facada em Abrão. Então ele colocou seu braço na frente, recebendo o golpe. O ferimento não foi grave. Outros feirantes intervieram, para tomar a faca de André, que a passou para outra pessoa. Os feirantes que testemunharam o fato não foram ouvidos pela polícia. O caso, aliás, já foi repassado ao Juizado de Pequenas Causas Criminais.
FEIRANTES
Na semana seguinte, vários amigos de Abrão e outros feirantes fizeram uma pequena demonstração de solidariedade. Muitos amigos de Abrão foram lá na feira dar apoio a ele. Abrão Noleto é irmão de Laurenice Noleto, já Nonô, jornalista e escritora, autora, entre outros, de “O moço da camisa azul”, que narra os bastidores da campanha vitoriosa de Marconi Perillo ao governo do Estado em 1998. É mãe de Olavo Noleto, dirigente nacional do PT e que foi superintendente de assuntos federativos da Presidência da República durante os governos Lula e Dilma. No final do governo Dilma, ocupou o cargo de ministro de Comunicação.
Presidente do PT goianiense, a deputada Adriana Accorsi – que também é delegada de polícia – prestou solidariedade a Abrão e, num telefonema, disse-lhe que vai cobrar providências no sentido de proteger a integridade física dos feirantes e dos frequentadores da Feira do Pequi com Chocolate.