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Noite Carioca

Redação DM

Publicado em 13 de abril de 2018 às 00:02 | Atualizado há 1 ano

“Uma mesinha com um litro de uísque, um balde de gelo, três copos, três banquinhos e só. O pessoal vai cantar, conversar e contar história” – é com esse cenário simples e intimista que Reinaldo Clemente anuncia o Noite Carioca, evento que reu­nirá no palco Miriam Veiga, Re­nato Castelo e Marcio Alencastro Veiga, nomes importantes para a história da MPB produzida em Goiás. De acordo com Reinaldo, que é coordenador do evento, o Noite Carioca foge um pouco do eixo regionalista e das sines­tésicas paisagens do Araguaia e do Cerrado que caracterizam esse nicho da música de Goiás. A apresentação tem início às 19h do próximo domingo, no hall do Castro’s Hotel, e conta com a presença ilustre do maestro Jaime Alem.

Reinaldo Clemente, coorde­nador do evento, explica que a escolha do nome surgiu de uma observação sobre os últimos tra­balhos dos artistas convidados, que, segundo ele, fogem da tô­nica “Araguaia-pequi-Cora Co­ralina’’. “Como o perfil dos discos deles lembra o Rio de Janeiro, pensei em reunir essa turma e fazer uma noite carioca lá no Castro.” Um aditivo especial à noite será a presença do maestro Jaime Alem, que há mais de 30 anos se dedica à direção musical dos espetáculos realizados pela cantora Maria Bethânia. Reinal­do, que é responsável pela reve­lação de vários artistas da mú­sica popular goiana, é um dos nomes que buscam, através des­ta e de outras iniciativas, a va­lorização do amplo patrimônio musical do Estado.

O TRIO

Renato conta que a parceria musical entre os três acontece de maneira bastante natural, e que nos últimos CDs ambos dividi­ram várias composições. “Há um certo compadrio nessa história. E como a gente combina muito bem e gosta das coisas que cada um faz, os ensaios têm sido algo muito leve. Estamos preparan­do algumas músicas do Rio de Janeiro, além de músicas nossas que se parecem com coisas de lá.”

A parceria entre Marcio e Re­nato já existe há algumas déca­das. Uma das canções que fize­ram juntos – Meu Rio Vermelho, que faz parte do CD “Amigo” – fala da infância de Marcio na ci­dade de Goiás, quando ainda muito novo, com pouco mais de dois anos de idade, ficava con­fuso ao observar as nuvens e o azul do céu refletidos nas águas do Rio Vermelho. “Eu saía muito para ver o Rio Vermelho na pon­te. Tem um remanso perto da ja­nela da casa da Cora onde a água fica meio parada. Eu era mui­to novo e não entendia por que eu podia ver as nuvens na água. Contei essa história pro Renato e ele fez uma letra”. Trata-se da segunda composição assinada pelos dois. A primeira havia sur­gido em Brasília, uma marcha­-rancho que compuseram du­rante uma festa.

“De lá pra cá ele começou a mandar letra pra mim por e-mail, nem tinha Whatsapp”, explica Marcio. Renato também falou da química e da facilida­de que tem de compor com o amigo, que conhece há mais de 20 anos. “A gente faz música por telepatia. Se sentar junto a gente faz. Nunca aconteceu de não fazermos. Da mesma for­ma que já tenho essa afinida­de com ele, estamos tendo ago­ra com a Míriam.”

A cantora (e compositora), que é prima de Marcio, nasceu em Goiânia, numa família com raízes na antiga capital. “Tive uma grande influência da fa­mília. Cresci com essa referên­cia de música. Era uma música bem goiana. Aquelas serestas, e também a música sertaneja de raiz. Meu pai gostava mui­to de Eli Camargo, Sérgio Reis, Rolando Boldrin”. Ao longo do seu amadurecimento musical, passou a ter contato com a mú­sica de fora de Goiás. “Me iden­tifiquei muito com a música mineira e com a bossa nova, que pra mim é uma referência muito forte, no sentido de ou­vir, gostar de ouvir e gostar de cantar. Toda essa mistura re­sultou na referência musical que está no meu CD.”

Míriam Veiga revela ainda que, apesar de não ter criado uma estética regional para as músicas que compõem seu CD, existem várias referências uni­versais que surgem a partir de suas memórias. “Se você olhar para a capa do meu CD, vai ver que ela faz referência a muita coisa daqui. Tem uma música que fala do Araguaia, mas não necessariamente você vai iden­tificar como o Araguaia. Exis­tem referências, mas é de uma forma universal”, conclui.

De acordo com Renato, o show Noite Carioca é o primeiro de uma série. “Estamos nos entrosando muito bem, ensaiando muito bem e queremos que essas coisas boas continuem acontecendo.”

VILA OPERÁRIA

Renato Castelo aproveitou a oportunidade para lembrar dos 50 anos da canção Vila Operá­ria, um de seus maiores suces­sos. A música, composta em parceria com Antônio Siquei­ra, faz referência à antiga vila de Goiânia, que hoje leva o nome de oficial de Setor Centro-Oeste e o apelido de Fama. A Vila Ope­rária foi um dos primeiros seto­res da capital a surgirem de ocu­pação popular, devido à grande demanda por moradia daqueles que trabalharam na construção da cidade.

A música foi criada durante a ditadura militar, e imortalizada através dos versos “Na Vila Ope­rária tem um bar que se chama liberdade”. Foi apresentada pelo cantor Pau de Arara no festival Cine Goiânia, realizado no fim dos anos 1960. Segundo Renato, aquela versão da música – que já foi gravada por grandes nomes, como Marcelo Barra –, ainda é a que mais lhe emociona.

O cantor contou que o Bar Li­berdade realmente existiu, e fi­cava na Rua do Comércio, uma das mais movimentadas da região. “Assim que terminou o festival, fomos para o Bar Liberdade”. Na canção, Renato fala da ironia de um bar que faça alusão à liber­dade, numa vila chamada Ope­rária, em pleno regime militar. “Quando fizemos a música, fomos muito criticados. Estávamos em 1968, num regime militar que es­tava apertando todo mundo. Schei curioso num lugar chamado Vila Operária – ninguém gostava de fa­lar esse nome na época, ‘operária’ – existia um bar chamado Liber­dade em plena ditadura”, conclui.

NOITE CARIOCA

Onde: Hall do Castro’s Hotel (Av. República do Líbano nº 1520, St. Oeste)

Quando: Domingo, dia 15 de abril

Horário: 19h30

Entrada: R$ 20,00

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