A sociedade está insegura
Redação DM
Publicado em 5 de abril de 2018 às 04:01 | Atualizado há 1 ano
Enquete do Diário da Manhã destaca os anseios e angústias que os cidadãos estão sentindo neste momento de incertezas na política
A descrença na política, instituições públicas e, principalmente, nos políticos brasileiros tem sido um sentimento constante por parte da população. Ansiedade, aflição e medo de um futuro incerto faz com que os brasileiros tenham ainda mais desânimo e apatia – ou alguns caso muito fervor – em relação à política.
Uma enquete realizada pelo DM demonstra que as pessoas estão sem esperanças, porém, alguns ainda acreditam na mudança. “Minha maior descrença é essa ala antiga que insiste em permanecer no poder. E faz sempre as mesmas coisas. Estamos precisando de renovação política e de novos políticos”, ressalta pedagoga Ilderlene Marques.
Conforme o psiquiatra Marcelo Caixeta, vários cientistas sociais têm apontado para este fenômeno da progressiva descrença na política, nas instituições e no poder. “O brasileiro nunca foi muito ligado as instituições, Estado, comunidade, organizações. Sempre foi mais ligado ao círculo íntimo, família, amigos, companheiros de pescaria, de churrasco, de futebol. Os brasileiros deixaram de ser ‘comunitários’ antes mesmo de terem acreditado de fato no poder da comunidade, das instituições, do Estado, dos Governos”, analisa.
O que se percebe é que os cidadãos estão procurando um herói ou salvador da pátria, no entanto, o cenário mostra improvável a pessoa desejada, daí a descrença estampada nos rostos de jovens, adultos, idosos e da população em geral em relação à política brasileira. “Neste sentido nosso atraso nos coloca na vanguarda: enquanto o hemisfério norte está ‘acordando’ de uma ‘longa noite comunitária’, nós , os atrasados, nunca vivemos isto. Nunca acreditamos em nossa política, em nossas instituições, em nosso Legislativo, Executivo, Judiciário, polícia, sacerdócio , Forças Armadas, etc. A causa principal disso é o ‘excesso de transparência’ produzida pelas redes sociais”, destaca Marcelo Caixeta.
Para a estudante de Direito, Rowena J. de Magalhães, a Constituição deveria ser cumprida, no entanto, não é o que o ocorre, por isso faz com que os cidadãos brasileiros estejam distantes e descrentes com a política no País. A jovem cita o art. 5º que trata a respeito da igualdade entre todos perante a lei. “Infelizmente nem mesmo a lei está sendo cumprida, pois neste mesmo artigo nos fala que somos todos iguais perante a lei, mas mesmo assim temos desigualdade social, pessoas morrendo de fome no País, pessoas morrendo nas filas de hospitais por falta de vagas e de auxílio no nosso País, o caso de pessoas inocentes morrendo todos os dias nas mãos de bandidos por falta de segurança em todo o Brasil. E nem vem dizer ‘Ah mais o administrador público só poderá agir dentro daquilo que é previsto e autorizado por lei’, por que se você dizer isso vou lhe pedir para que visite os lugares que deveriam ter ação política em nosso País, pois tem a lei, mas ela não é cumprida, por conta do ego”, critica Rowena.
ATAQUES
Uma questão frequente no momento político atual são ataques, principalmente pelas redes sociais, daqueles com pensamentos distintos em relação à política e aos políticos. Para Marcelo Caixeta, a sociedade não enxerga algumas diferenças entre os outros e se mostra doente em alguns aspectos. “A nossa tendência é ir para o ataque, é para firmarmos posição em relação a ele. Isso gera um problema generalizado, pois aí o outro também passa a enxergar nossas posições com a mesma paranóia, ódio, desconfiança com que o enxergamos. Nos sentimos também abandonados e sozinhos, sem muita crença nas pessoas e na humanidade”, ressalta o psiquiatra.
Marcelo ainda contextualiza tal “excesso de conhecimento sobre as más-intenções dos outros” que pode levar ao isolamento, como no caso europeu. “São o povo mais ‘intelectualizado’, mais ‘esperto-para-ver-a-maldade-do-outro’ do planeta. Mas também são o povo mais isolado e triste do planeta. Devemo , então, tampar o sol com a peneira, deixar de enxergar os ‘podres dos outros’ para nos preservarmos desta bile negra?”, questiona e conclui: “Não acho que este isolacionismo seja a solução. A solução me parece bem mais espinosiana (derivada do filósofo holandês Espinosa): quando compreendemos profundamente o móvel das outras pessoas, suas motivações, sua psicologia, passamos a entendê-las melhor, e entender melhor é o caminho para a compreensão. Da compreensão para a complacência é um passo fácil de ser dado e toda pessoa mais ‘profunda’ acaba franqueando da crítica para a compaixão. Toda vez que enxergamos nos defeitos dos outros nada mais do que os nossos próprios travestidos de outra forma, podemos atingir a tolerância”, enfatiza.
ENQUETE: VOCÊ AINDA ACREDITA OU TEM FÉ NOS POLÍTICOS? QUAL SUA MAIOR DESCRENÇA COM A POLÍTICA E OS POLÍTICOS DO BRASIL?