Entretenimento

JOGADOR Nº 1

Redação DM

Publicado em 3 de abril de 2018 às 00:00 | Atualizado há 1 ano

Ernest Cline tem 45 anos e é um sujeito que cresceu mol­dado pela cultura dos anos 80. Jogava todas as novidades do momento, assistia aos filmes sen­sações que eram lançados e, como tantos outros de seu tempo, e pos­teriormente, que cresceram com as obras oitentistas – principalmen­te –, não é de se espantar que seu primeiro livro, Jogador Nº 1, tenha sido um sucesso de vendas. Toda a história é moldada em cima de referências – os chamados easter eggs –, tanto de filmes quanto de jogos do período, integrados numa realidade futurista onde toda a so­ciedade vive suas vidas numa rea­lidade virtual chamada Oasis. A morte do seu criador, James Hal­liday, sucede com a divulgação de um vídeo do mesmo apresentan­do uma caça a um easter egg, que quem encontrar herdará toda sua fortuna, incluindo o domínio total de sua maior criação, o Oasis.

Diversos diretores poderiam ter dirigido Jogador Nº 1 e o fil­me continuaria com grandes pos­sibilidades de ser um entreteni­mento delicioso. Diretores como J. J Abrams, Robert Zemeckis, Joe Johnston e vários outros – que obtiveram nos anos 80 toda sua formação cultural – com o mate­rial de Cline em mãos, iriam en­trar em êxtase para inserir toda a nerdice que consumiram na vida. Mas foi Steven Spielberg quem aceitou dirigir o projeto. Justa­mente a pessoa que remodelou os anos 80 com filmes que revo­lucionaram o cinema – tanto em linguagem quanto visualmente. Spielberg é o mentor de todos es­ses diretores que seriam também de grande serventia a este filme, mas com o mestre assumindo o comando de Jogador Nº 1, aos 71 anos de idade ele prova que continua com sua criatividade intacta, e mostra o porquê detém a honra de ser o diretor mais in­fluente do cinema.

Ao assistir Jogador Nº 1 me senti como se estivesse voltan­do novamente ao livro. As adap­tações realizadas para tornar a trama mais dinâmica, e frené­tica ao público atual, são bem­-vindas e respeitam o texto de Cline. Toda a essência e as prin­cipais passagens da obra literá­ria são tratadas com carinho e desenvolvidas com sensibilida­de, fluidez e vivacidade visual. Característica que nas mãos de Spielberg ganha ainda mais contorno, estética e estofo.

Jogador Nº 1 possui uma tra­ma bastante simplória. Recicla o velho clichê de vilão e moci­nho tão costumeiros nos filmes da década de 80. Faz parte do pa­cote! No entanto, é justamente no desenvolvimento deste uni­verso virtual, na ação e intera­ção dos personagens que resi­de toda a capacidade do filme de nos entreter a um nível sur­preendente. Nunca fui fã de jo­gar vídeo games, mas me senti dentro de um, participando de um jogo em tempo real. E como amante do cinema, as diversas referências a filmes clássicos são a cereja no topo do bolo que tor­nam a experiência de assistir Jo­gador Nº 1 ainda mais identificá­vel, imersiva e extasiante.

Aliás, as referências, como no livro, são o grande chamariz da obra. Os dois materiais são fun­damentados em cima da nostal­gia, mas mais ainda no filme, o impacto consegue ser muito maior por justamente existir a possibilidade de visualizar os personagens e jogos que fize­ram parte da nossa vida. Outro ponto positivo do longa, e re­querido por Spielberg, é nun­ca tornar as referências como prioridades. Elas existem aos montes, mas nunca tomam o in­teresse do público pelo desen­volvimento da história. E muitas até se tornam parte fundamen­tal da mesma.

Uma das minhas poucas res­salvas que tenho é com a trilha sonora. John Williams estava trabalhar aqui. Quem assumiu o lugar do frequente colabora­dor de Spielberg foi Alan Silves­tre – conhecido pela música de clássicos como De Volta Para o Futuro e Forrest Gump, e tam­bém o tema principal da Mar­vel Studios no cinema. É outro grande compositor responsá­vel por trilhas sonoras memo­ráveis, mas que aqui, infeliz­mente, não cria nenhum tema instigante ou que dure após o término da obra. Exemplo: as­sista ao primeiro trailer de Jo­gador Nº 1 exibido na Comic Con San Diego do ano passa­do. A trilha é espetacular! Quan­do Silvestre inova a melodia de Pure Imagination, música de “A Fantástica Fábrica de Cho­colate”, de 1971, injetando gra­ve e tornando o ritmo lento da melodia original em uma com­posição épica, confesso, fiquei bastante arrepiado. Já no filme, particularmente, não consegui encontrar nenhum momento com uma trilha tão competen­te como esta que foi apresenta­da no trailer.

Mas Jogador Nº 1 não é pre­judicado, e o filme é uma di­versão garantida com um Steven Spielberg em plena dis­posição, criatividade e empol­gação. Uma ficção científica/ aventura/fantasia que mere­ce uma revisita e que promete deixar um sorriso no rosto de muito marmanjo. E, claro, da garotada em geral. É um en­tretenimento de alto nível, e muitíssimo empolgante. Um filme pipoca da melhor quali­dade realizado pelo mestre do gênero. Recomendado!


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