Jesus de Hollywood
Redação DM
Publicado em 29 de março de 2018 às 21:50 | Atualizado há 1 ano
A história de Jesus de Nazaré, a figura central do Cristianismo – principal corrente religiosa do ocidente – vem sendo retratada em filme desde o início do cinema, no fim do século XIX. Vários estudos se empenham em definir a linha do tempo e a evolução da representação da imagem de Cristo através desse formato, que passa pelos filmes épicos do cinema mudo, como The King of Kings (1927) até o sucesso de bilheteria Paixão de Cristo (2005), que ficou mais conhecido pelas cenas de violência extrema.
O autor Richard Wightman Fox, através do artigo Jesus in America: Personal Savior, Cultural Hero, National Obsession (Jesus na América: salvador pessoal, herói cultural, obsessão nacional), publicado em 2004, faz um resumo das várias reconfigurações ligadas à imagem do Cristo. “[Jesus] Perpetuamente renasce cultura após cultura… Sua encarnação garantiu que cada cultura posterior pudesse compreendê-lo novamente, para cada sociedade que tivesse uma visão diferente do que significa ser humano. Jesus teve que renascer para poder inspirar, e até mesmo fazer sentido para as pessoas de todas as épocas”.

CINEMA MUDO
O livro Jesus of Hollywood, escrito por Adele Reinhartz e editado pela Oxford University Press em 2007, conta a história e o desenvolvimento de um subgênero de filmes, chamado de Jesus biopic, que se propõe a narrar a história de vida de Cristo. A autora revela que o primeiro filme desta índole foi produzido em Nova Iorque no fim do século XIX. O curta de 19 minutos, dirigido por Henry C. Vincent, foi considerado perdido até 2007, quando foi recuperado através de uma fonte alternativa. Apesar de várias releituras da história de Jesus, como From Manger to Cross (1913) Christus (1917), serem considerados clássicos do gênero no período do cinema mudo, o filme que revolucionou a forma de contar a história de Cristo foi lançado em 1927: The King of The Kings.
A produção francesa, dirigida por Cecil B. Demille, conta ao longo de três horas a história dos 33 anos de Cristo, desde o nascimento à ressurreição. “Em contraste com os filmes mais antigos, o filme de Demille se atém ao desenvolvimento dos personagens e à causalidade, criando um enredo coerente e várias subtramas”, explica Adele Reinhartz. A autora comenta ainda a grande influência que a produção exerceu sobre os filmes do gênero. “Suas legendas não apenas citam textos das escrituras e fornecem informações básicas. Também transmitem diálogos espirituosos, assim como comentários do narrador sobre os personagens e eventos que retrata. O trabalho de Demille teve uma grande influência no gênero biográfico de Jesus”.
SOM
Com os avanços tecnológicos que permitiram a sincronia de imagens e diálogos nas salas de cinema, novas referências surgiram para as biografias de Cristo. A primeira delas, o filme Golgotha, do diretor francês Julien Duvivier, foi lançado em 1935, como um grande empreendimento cinematográfico. “O assunto (a paixão de Cristo), a decoração monumental erguida na Algéria, a importante figuração, assim como as anedotas anexas – polêmicas e disputas evitadas – fazem do filme uma verdadeira aventura na qual Duvivier se lançou com energia rara”, conta o autor Eric Bonnefille na publicação Le mal aimant du cinéma français, de 2002. O filme recebeu críticas pelo elevado preço de produção e por propaganda ideológica, mas assim que lançado passou a receber avaliações positivas.
A performance de Robert Le Vigan marca o primeiro retrato direto de Cristo em um filme sonorizado. Na maior parte da produção Jesus é mostrado com uma distância respeitosa, assim como acontece em outros filmes (Ben-Hur, Quo Vadis ou The Robe). Em contrapartida, existem alguns closes e até mesmo super closes que lembram os enquadramentos do cineasta dinamarquês Carl Th. Dreyer. Adele Reinhartz conta que Golgotha inaugurou um longo hiato nas produções hollywoodianas sobre a vida de Jesus. Por três décadas, nenhuma grande produção abordou a temática. “Alguns filmes continham cenas soltas de Cristo, mas de The King of Kings (1927) até o filme King of Kings, de Samuel Ray, Hollywood evitou estrategicamente colocar Jesus no centro de algum filme”.
Em Jesus of Hollywood, Adele Reinhartz também fala do clássico recente Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson e lançado em 2005. “Sua violência desmedida e a representação negativa das autoridades judaicas ajudaram a levantar controvérsias que talvez contribuíram para seu sucesso de bilheteria”, pondera. A autora critica o foco da produção nas cenas chocantes em detrimento da biografia de cristo. “Espectadores que ainda não conhecem a história em detalhes podem ficar intrigados com o enredo; por si só, ele não fornece informações suficientes para que os espectadores saibam o que Jesus fez para levantar a ira dos judeus e romanos, ou por que ele é sujeitado a tamanha violência, que culminou em sua morte na cruz”, conclui.





