Política

Agronegócio vive cenário imprevisível

Redação DM

Publicado em 29 de março de 2018 às 02:34 | Atualizado há 1 ano

É ano eleitoral. E o cenário político, junto ao meio em­presarial, carrega certo sus­pense e interrogação. O cenário, afinal de contas, ainda é imprevi­sível. Com ênfase o segmento do agronegócio. Isto porque ele tem correspondido e, ainda, pairam as incertezas. E o setor que oferece a cada ano agrícola uma safra recorde mantém-se cauteloso. A agricultura e o agronegócio no Brasil contribuí­ram com 23,5% do Produto Inter­no Bruto (PIB) do País em 2017, a maior participação em 13 anos, es­timou a Confederação da Agricultu­ra e Pecuária do Brasil (CNA). Mas, se o atual governo de Michel Temer conseguiu baixar os índices inflacio­nários que ameaçavam estourar na administração de Dilma Rousseff, os empresários e produtores rurais se queixam da alta carga tributá­ria e da logística dos transportes. A presença de Henrique Meirelles, um goiano à frente do Ministério da Economia, deu maior confiança à iniciativa privada.

O mundo empresarial como um todo, querem mais, como maior segurança jurídica. As refor­mas trabalhista e previdenciária, propostas por Temer, obtiveram aprovação do setor. O Congresso Nacional, sofrendo fortes pressões de setores oposicionistas, mostrou indecisão, todavia, quanto à refor­ma previdenciária, considerada vital para equilibrar as contas pú­blicas e garantir os investimentos em áreas prioritárias como saúde, educação e outros. Esses gargalos preocupam o mundo dos investi­dores, porque no futuro ninguém quer levar prejuízos.

Em ano de eleições, tornou-se praticamente impossível a apro­vação da reforma e ainda da con­tenção de gastos do erário. Mas, as lideranças empresariais tanto da indústria quanto do comércio, ser­viços e agropecuária querem dos candidatos propostas de desen­volvimento econômico e social, estabilidade jurídica em questões básicas, segurança pública e com­bate sistemático à corrupção, en­tre outros fatores.

Pelo que se vê, 2018 traz muitas expectativas. O mercado está marca­do pela cautela dos investidores em relação aos eventuais candidatos e suas definições. O setor agropecuá­rio depende do clima para as plan­tações correspondam ou não. Uma safra corroída pelo excesso de chuva ou seca prolongada afeta os produto­res e os consumidores. Entra, então, no cenário a questão de seguro, mer­cado interno e externo. E ainda tem a questão da geopolítica, transpor­tes etc. Como fica também a pesqui­sa agropecuária num país da dimen­são continental do Brasil?

O Diário da Manhã, com o intui­to de informar com clareza o pensa­mento empresarial, sobretudo, dos possíveis investidores na cadeia do agronegócio, ouviu lideranças clas­sistas de Goiás e também do Brasil.

  • Carta do Boi

 

Ouvindo pecuaristas antena­dos com a política, a Scot Consul­toria, altamente conceituada no mercado, acaba de divulgar a Car­ta do Boi. O seu conteúdo assina­la que passado o Carnaval e com o final do primeiro bimestre, o ano começa. “Um ano que será cheio, com Copa do Mundo, eleições e um grau de incerteza incomum.”

Conforme a Scot, “o perío­do mais próximo das eleições e a Copa do Mundo, em maior ou me­nor grau, também ajudam o con­sumo. É possível que seja um mo­mento interessante no mercado físico, com preços futuros abrindo oportunidades de trava. De toda forma, é apenas uma possibilida­de. Lucro garantido hoje, mesmo que com custo, no caso das op­ções, é melhor que a esperança de um resultado melhor amanhã”.

Em análise feita pelo pesquisa­dor do Centro de Estudos Avança­dos em Economia Aplicada (Cepea) e professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/ USP, Piracicaba/SP), Sergio De Zen, demonstra preocupação. O mestre fez suas considerações palestra no Congresso de Produção e Comer­cialização de Ovos em Ribeirão Pre­to (SP), organizado pela Associação Paulista de Avicultura, e com a pre­sença de delegações de diferentes Estados, inclusive de Goiás.

 

 

  • Cenários políticos possíveis

Segundo ele, “estamos a sete meses das eleições presidenciais no Brasil e o cenário, ao contrário dos pleitos anteriores, ainda é im­previsível. Discursos extremistas dos diversos lados da história ge­ram insegurança para o agronegó­cio brasileiro, que necessita de um nome de centro não apenas para seu desenvolvimento, mas no que se refere à economia verde e ama­rela como um todo.

“O que ‘segura’ o desenvolvi­mento econômico brasileiro é a in­segurança com relação a quem vai conduzir a economia. Temos infla­ção sob controle, capacidade ocio­sa, variáveis bem-vindas, mas não sabemos quem vai vencer a elei­ção”, reflete o especialista.

De Zen destaca três possíveis ce­nários políticos. O primeiro aponta para os extremos indesejáveis: um candidato da esquerda teria em tor­no de 20% dos votos e um de direita, 15%. Com a fragmentação do cen­tro, haveria um segundo turno de risco. “Com candidatos que ape­nas polemizam e não falam sobre temas necessários, como as refor­mas previdenciárias, na saúde e na política, o dólar ficaria acima de R$ 5,00, a taxa de juros se estabelece­ria entre 15% e 20% e o nível de in­vestimento na economia brasileira não chegaria a 10%”, explica, ressal­tando ainda que se instalaria uma recessão generalizada e o prolon­gamento da instabilidade política.

O segundo cenário apontado pelo pesquisador também não é nada animador. Com a contínua fragmentação do centro e vitória de uma esquerda pragmática, com 35% dos votos (o candidato de direi­ta teria 12%), o segundo turno tam­bém seria de risco e, nessa visão, o dólar ficaria acima de R$ 4,00, com taxa de juros entre 12% e 17% e nível de investimento menor que 17%. “Essaprospecçãoperpetuariaoque se instaura no Brasil atualmente, que é a política de cooptação, quan­do há a nomeação de cargos sem dependência de critérios externos, que é o que vem piorando a qua­lidade do legislativo nacional. Um deputado conhecido acaba absor­vendo candidatos nem tão conhe­cidos, que formam uma bancada de representatividade que não é fei­ta de líderes”, critica De Zen.

O terceiro cenário é mais oti­mista e, segundo conta o pes­quisador, tem 67% de chance de ocorrer. Com a vitória em primei­ro turno de um candidato de cen­tro, com 60% dos votos, o dólar fi­caria abaixo de R$ 3,00 e a taxa de juros chegaria até 5%. Com ares mais positivos, o investimento na economia verde e amarela seria maior que 28%, impulsionando um crescimento sustentado de 3% ao ano e promovendo a tão sonhada estabilidade política. Na análise de Sergio De Zen, se um nome despontar representando uma ótica política central, vai le­var as plenárias de 2018.

  • Impacto no agronegócio

 

E como isso impacta no agrone­gócio nacional? Ele explica: o Brasil já é visto com bons olhos no merca­do externo, atraindo investimen­tos ainda que a instabilidade esteja em voga. De Zen conta que o Bra­sil é visado porque produz comida em qualidade e quantidade. Com a Operação Carne Fraca, deflagrada em março de 2017, a China tentou buscar outro mercado que supris­se sua demanda. A Austrália, único competidor que estaria à altura, ofe­receu quantidade bem menor do que a disponibilizada por nós. Os chineses voltaram correndo.

O especialista acredita que um candidato de centro inspiraria ra­cionalidade econômica, o que aumentaria a confiança dos in­vestidores internacionais. “Já apre­sentamos todos os indícios de melhorias nas variáveis macroe­conômicas: diminuiçãodainflação, retomada do crescimento e dimi­nuição da taxa de juros. Só falta ar­rumar o lado político”, finaliza.

  • Propostas dos candidatos

 

O presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), Tasso José Jaime, reconhe­ce que o setor agropecuário e de­mais componentes da cadeia do agronegócio,“trabalhapraticamen­te como uma máquina para vencer as crises que se sucedem na econo­mia e na política brasileira”. Pior de tudo, apontaodirigenteclassista, éa crise de confiança nos poderes pú­blicos. É o caso da corrupção sem precedentes. Dinheiro que poderia ser aplicado na educação, na saúde, nos transportes é desviado por po­líticos nefastos ao País.

Tasso, filho de um político cor­reto como Olímpio Jayme, preocu­pa-se com candidaturas populistas, considerando que “são danosas à sociedade brasileira como um todo”. Para ele, são demagógicas e de fundo ideológico nem sem­pre compatível com a democra­cia e a livre iniciativa. O presidente da SGPA quer que os candidatos ao Palácio do Planalto apresentem propostas adequadas ao proces­so de desenvolvimento econômi­co e social que o Brasil exige. E cita como exemplo a Coréia do Sul, um dos novos “Tigres” da Ásia.

A proposta dos candidatos aos governos da União e dos Estados pode aliviar as tensões e preocu­pações do meio empresarial, so­bretudo do agronegócio, acredi­ta Adilon de Souza, presidente da Fundação de Assistência Técni­ca e Extensão Rural (Fundater), ex-prefeito de Rubiataba, região produtora de alimentos na região do Vale São Patrício.

Em sua visão, as propostas para daremconfiança, precisamatender a sociedade como um todo. No se­tor agropecuário, tem que ser dirigi­das ao desenvolvimento econômi­co e social, integrado e sustentável. “Que agregue, ainda, valor, para ter maior rentabilidade e em conse­quência mais empregos’, assinala.

Maurício Velloso, presidente da Associação Goiana dos Criadores de Novilho Precoce, desconhece qualquer proposta dos pretensos candidatos ao Palácio do Planalto. Ele demonstra a sua preocupação e desabafa. “Não consigo identificar ninguém que reúna as condições necessárias e indispensáveis, que tenha a posição de estadista, que o Brasil precisa tanto neste momen­to”, ressalta, assinalando, por exem­plo, o desempenho de Blairo Maggi na condição de ministro da Agri­cultura e um norteador de “novos rumos para o País e uma rara exce­ção no atual momento”.

Na visão de Velloso, o eleitor do campo não está muito preocupa­do com a condição partidária nem ideológica. “Mas que reúna condi­ções de construir um País melhor, assim como os brasileiros conse­guiram produzir desde o bicho da seda as uvas e conseqüente agre­gação de valor, produzindo tecidos e vinhos de alta qualidade, e, ainda, com maiores ganhos econômicos e sociais”, resumiu ao traçar a compa­ração. Com isso, o dirigente classis­ta exemplificou ações positivas que resultem na geração de empregos e ganhos para toda a sociedade.

  • Orgulho de ser brasileiro

 

Ricardo Yano, ex-presidente da SociedadeGoianadePecuáriaeAgri­cultura (SGPA), confessa ser “gran­de a preocupação” com as próximas eleições. Não só com o poder executi­vo, mas também com o legislativo. Na condição de político que já exerceu o mandato de deputado estadual, e ocupou pastas administrativas no Estado e está à frente de seu confina­mento de gado de corte em Terezó­polis de Goiás, Ricardo entende que o eleitor brasileiro precisa saber esco­lher bem seus mandatários. “O ato de escolha é vital”, segundo ele, porque o eleito cumprirá um mandato de qua­tro anos. E, para tanto, desempenhar um compromisso onde deve preva­lecer a ética. Um programa de atua­çãoéconsideradonecessárioparasa­tisfazer aos anseios da sociedade nas áreas de educação, saúde, segurança pública, serviços básicos como água e esgotos, transportes urbanos, entre outros fatores.

A corrupção que hoje impera traz danosas conseqüências aos políticos e essa condição está refletindo na au­to-estima do brasileiro, conforme Ri­cardo Yano. Por isso, entende, que as próximas eleições devem se consti­tuir num marcado do resgate do “or­gulho de ser brasileiro”.

  • CNA defende propostas

 

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) definiu na quarta as propostas que serão enca­minhadas ao governo federal como contribuição do setor produtivo para a elaboração do Plano Agrícola e Pe­cuário (PAP) 2018/2019, que traz as principais linhas de financiamento do setor agropecuário para a próxi­ma safra. Essas propostas básicas se­rão apresentadas ao atual e pedindo prosseguimento no próximo gover­no, a ser eleito em outubro deste ano. E cada coligada, como a Federação da Agricultura de Goiás, entrará, tam­bém, ementendimentocomcadago­vernador eleito, avaliandoa contribui­ção de cada um pela agropecuária.

A entidade defende R$ 1,2 bi­lhão em recursos para o Programa de Subvenção ao Prêmio de Seguro Rural, R$ 2,5 bilhões para o apoio à comercialização, redução das ta­xas de juros acompanhando a que­da da Selic e da inflação e reajuste de preços mínimos.

Tambémfoi fechada umapropos­ta específica para o Nordeste, com um programa de convivência com a seca, que contém medidas como um seguro para a silagem e alterna­tivas para o produtor em caso de cor­tes de outorga de água nos períodos de crise hídrica.

Os principais pontos foram fecha­dos em reunião da Comissão Nacio­nal de Política Agrícola da CNA, em Brasília, que contou com a partici­pação das federações de agricultu­ra e pecuária por videoconferência.

Outras questões consideradas prioritárias foram melhores con­dições para o Programa de Cons­trução e Ampliação de Armazéns (PCA), Agricultura de Baixa Emis­são de Carbono (ABC), e o Progra­ma de Incentivo à Inovação Tecno­lógica na Produção Agropecuária (Inovagro), além do financiamento para os médios produtores.

“Ouvimos os produtores do Bra­sil inteiro para consolidarmos as pro­postas. Entregaremosaogovernonos­sassugestõesconstruídascomampla participação dos produtores”, disse o presidente da Comissão e da Federa­çãodaAgriculturaePecuáriadeGoiás (FAEG), José Mário Schreiner.

Também estiveram presentes na reunião os presidentes da Fede­ração da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (FAEC), Flávio Sa­boya, da Federação da Agricultura e Pecuária da Paraíba (FAEPA), Má­rio Borba, e da Federação da Agri­cultura do Estado de Pernambuco (FAEPE), Pio Guerra.

Para fechar a proposta do setor produtivo, a CNA realizou três se­minários técnicos em Florianópo­lis (SC), Cuiabá e Uruçuí (PI) e tam­bém reuniu sugestões online por meio do site CNA Brasil.


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