Cotidiano

A Guerra do Aço que abala um setor com 200.000 empregos no Brasil

Redação DM

Publicado em 10 de março de 2018 às 01:13 | Atualizado há 1 ano

  •  Brasil diz que “recorrerá às ações necessárias para preservar direitos e interesses”

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou sua aposta em uma forte medida protecionista e anunciou que irá impor um tribu­to de importação de 25 % sobre o aço e de 10% sobre o alumínio vin­dos de outros países. A justificati­va do presidente norte-americano é que a ação irá proteger a indús­tria siderúrgica dos Estados Unidos, que convive com uma concorrên­cia “injusta”. Ele citou ainda ques­tões de segurança nacional na defi­nição das tarifas, afirmando que os EUA precisam de oferta doméstica de aço e alumínio para seus tan­ques e navios de guerra.

A decisão confirmada na quin­ta-feira já vinha sendo anuncia­da há dias e tinha gerado reações imediatas de diversos países ex­portadores, que prometeram re­taliações. O debate sobre a ado­ção das tarifas também provocou um racha dentro do próprio Go­verno. Nesta semana, Gary Cohn, principal conselheiro econômico do presidente, que era contra a de­cisão, pediu demissão.

O Brasil está entre os países que mais devem ser afetados pela me­dida que intensifica a política que elegeu Trump em 2016, da “Améri­ca em primeiro lugar”. Um terço do aço exportado no Brasil tem como destino o mercado dos EUA. Em 2017, o aço vendido aos norte-a­mericanos somou 4,8 milhões de toneladas e gerou uma receita de 2,63 bilhões de dólares (8,58 bi­lhões de reais), o que faz do Brasil o segundo maior fornecedor do produto para os Estados Unidos, atrás apenas do Canadá.

A discussão sobre o tema, no entanto, não é nova. Desde o ano passado, o departamento de co­mércio americano trabalhava com um estudo sobre os danos da importação de aço para a in­dústria siderúrgica dos Estados Unidos e possíveis alternativas para solucionar o problema.

Desde que soube do relatório, em 2017, o Brasil, assim como ou­tros exportadores, começaram a trabalhar nos bastidores para con­vencer os EUA a recuarem sobre a proposta. Segundo Alexandre Lyra, presidente do conselho diretor do Instituto Aço Brasil e da france­sa Vallourec no Brasil, a organiza­ção juntamente com o Ministério da Indústria e Comércio Exterior (Mdic) já organizaram mais de uma missão para Washington para conversar com membros da Casa Branca e parlamentares. A última delas aconteceu há poucos dias. “Tentamos mostrar que o Brasil é bastante diferente dos outros paí­ses, já que a maioria das nossas ex­portações de aço são de produtos semi-acabados, que ainda preci­sam ser reprocessados nos Estados Unidos antes de chegar no consu­midor final. Fazemos apenas parte de uma cadeia de produção”, expli­ca Lyra. Segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil, em 2017, o Brasil exportou aos Esta­dos Unidos cerca de 4 milhões de toneladas de aço semi-acabado, contra 920 mil toneladas de aço.

O representante do Aço Brasil, que reúne as principais empresas do setor, argumenta ainda que a indústria siderúrgica brasileira é uma grande importadora do car­vão dos Estados Unidos, essen­cial, juntamente com o minério de ferro, para a fabricação do aço. “Nós somos o maior importador de carvão mineral no formato de coque dos americanos. Em 2017, importamos 1 bilhão de dólares de carvão e exportamos 2,6 bi­lhões [de dólares] de aço. Ou seja, há uma complementariedade na nossa cadeia. Uma restrição leva­rá uma redução da nossa impor­tação de carvão”, explica.

A posição do Governo brasilei­ro foi de expectativa até saber se Trump iria efetivar a decisão de ta­xar o aço. Agora, depois do anun­cio do presidente dos EUA, o Go­verno Temer deve levar a questão para Organização Mundial do Co­mércio (OMC). O Brasil ficou fora das exceções das taxas, que, por enquanto, só beneficiarão a Méxi­co e Canadá, os parceiros dos EUA no NAFTA, o Tratado de Livre Co­mércio da América do Norte.

Segundo Lyra, durante as mis­sões, o grupo percebeu que alguns parlamentares estavam preocupa­dos sobre a chamada circunven­ção, quando um país tenta burlar a origem do produto para escapar de alguma restrição já em vigor. “Na nossa conversa, vimos esse tipo de receio, mas que não acon­tece no caso do Brasil. Hoje tam­bém sofremos por exemplo com o aço chinês, tanto que estamos abrindo processos antidumping para evitar a entrada do aço chinês a preços predatórios”, diz.

Ainda antes de conhecer o de­creto assinado nesta quinta-feira por Trump, Lyra acreditava que, caso se confirmassem as novas taxas anunciadas há dias, o Brasil enfrentaria graves problemas no setor siderúrgico. “Teremos que realocar esse volume grande de aço para outros mercados, mas todo o mundo estará fazendo a mesma coisa. O que vai aconte­cer será uma grande guerra co­mercial. Não será os EUA versus o resto do mundo e sim o resto do mundo versus o resto do mun­do tentando se defender”, explica.

Em nota divulgada nesta quin­ta-feira, o Governo brasileiro mani­festa “grande preocupação” com as medidas, que “causarão graves pre­juízos às exportações brasileiras e terão significativo impacto negati­vo nos fluxos bilaterais de Comér­cio, amplamente favoráveis aos Es­tados Unidos nos últimos 10 anos, e nas relações comerciais e de in­vestimentos entre os dois países”. “Ao mesmo tempo em que mani­festa preferência pela via do diálo­go e da parceria, o Brasil reafirma que recorrerá a todas as ações ne­cessárias, nos âmbitos bilateral e multilateral, para preservar seus direitos e interesses”, finaliza a nota.

A mudança das regras de im­portação do aço nos Estados Uni­dos também chega em um mo­mento em que o Brasil começa a sair de uma das suas piores crises econômicas. “Teríamos que adap­tar o nosso parque em um momen­to em que já operamos com um ní­vel baixo de ocupação. Vamos ter que nos adaptar ao perder um ter­ço das nossas exportações. Vamos desligar equipamentos, o que vai impactar também no emprego”, explica. As indústrias de aço e alu­mínio empregam mais de 200 mil trabalhadores no país.

QUEDA DOS PREÇOS

O efeito das mudanças e a cor­rida mundial atrás de novos mer­cados para a venda de aço devem fazer o valor do produto cair e criar um efeito dominó. “Se esse preço despencar muito outros países que poderiam comprar também podem abrir novos processos antidumping [com o objetivo de evitar que os pro­dutores nacionais sejam prejudi­cados por importações realizadas a preços inferiores ao mercado in­terno do país exportador]”, explica.

Para a agência de risco Moo­dy’s, a medida afeta, mas não dra­maticamente, as três principais si­derúrgicas do país: Usiminas, CSN e Gerdau. A principal consequên­cia pode ser forçar as siderúrgicas a venderem para mercados alterna­tivos, com lucros menores.

José Augusto de Castro, presi­dente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), avalia que a medida pode gerar um impac­to de US$ 250 milhões de dólares (815 milhões de reais) para o Brasil sobre o aço acabado. Antes desta quinta-feira Castro ainda acredita­va que algo poderia ser modifica­do na medida proposta pelo presi­dente americano. “O que o Trump está fazendo não tem amparo le­gal, ele está tratando todos os paí­ses como se eles tivesses feito um cartel para exportar aço para os Estados Unidos pelo mesmo pre­ço. Isso pode gerar um grande pro­blema, uma guerra comercial e o mundo pode, inclusive, se unir e isolar os EUA comercialmente”.

Castro avalia ainda que o Bra­sil perde duas vezes, pois além de ficar sem mercado no exterior, o mercado interno pode ser afeta­do também. Com a reviravolta da sobretaxação do aço pelos EUA, as importações do produto no Bra­sil podem aumentar já que have­rá uma disputa de mercado e pre­ços no mundo inteiro.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a decisão nor­te-americana de impor sobreta­xas ao aço e alumínio é “injusti­ficada, ilegal e prejudica o Brasil”. “Se adotadas, as medidas vão afe­tar 3 bilhões de dólares em expor­tações brasileiras de ferro e aço e 144 milhões de dólares em expor­tações de alumínio. Isso equiva­le a uma massa salarial de quase 350 milhões de reais e impostos da ordem de 200 milhões”, ressal­tou a entidade, em nota.

 

 

Canadá, México e Chile fecham acordo global do Pacífico contra o protecionismo de Trump

Há um ano, praticamente nin­guém acreditava ser possível. Os Estados Unidos acabavam de abandonar as conversações nas quais estavam sendo finalizados os detalhes do Acordo Transpa­cífico de Cooperação Econômi­ca (TPP, na sigla em inglês), um dos principais projetos do Gover­no de Barack Obama, e iniciavam sua particular travessia no deser­to do isolamento comercial. As probabilidades de que o acordo avançasse sem a maior potência mundial eram remotas. Mas às vezes o remoto também chega: 13 meses depois, México, Chile, Peru, Canadá e sete países da Ásia (Brunei, Japão, Malásia, Cinga­pura e Vietnã) e Oceania (Aus­trália e Nova Zelândia) selaram quinta-feira na capital chilena um dos maiores acordos comerciais do mundo. A assinatura ocorreu poucas horas antes de que o Go­verno de Donald Trump apre­sentasse seu primeiro grande de­creto tarifário, que sobretaxará as importações de aço e alumínio, e em meio à renegociação do Tra­tado de Livre Comércio da Amé­rica do Norte (Nafta, na sigla em inglês), no qual o México e o Ca­nadá apostam boa parte de seu crescimento econômico nos pró­ximos anos. Além, o Mercosul, em geral mais lento para fechar acor­dos comerciais, também se uniu à onda começando a negociar com os canadenses. O momento não poderia ser mais simbólico para enviar uma mensagem clara: há vida além dos EUA.

Rebatizado como Tratado Inte­gral e Progressista de Associação Transpacífico (e conhecido como TPP11) depois que Washington abandonou o barco, o acordo co­mercial estabelece um mercado livre de tarifas com 500 milhões de consumidores, somando quase um sexto do PIB mundial. Um gi­gante com presença em três con­tinentes e que, segundo todos os especialistas em comércio in­ternacional consultados, está na vanguarda em termos de regula­mentos e facilitação do comércio com um enfoque radicalmente novo. O acordo entrará em vigor quando for aprovado em pelo me­nos 6 dos 11 países signatários. Quem sabe se nessa ocasião já terá começado a primeira guer­ra comercial deste século.

“O TPP11 estabelece as ba­ses para o comércio do futuro”, ressalta Ignacio Bartesaghi, di­retor do Departamento de Ne­gócios Internacionais e Integra­ção da Universidade Católica do Uruguai e autor de vários arti­gos acadêmicos sobre o tratado. “É uma grande plataforma para atrair investimentos, posicionan­do os signatários claramente na vanguarda mundial em termos de padrões e harmonização de normas comerciais. Melhorará muito o ambiente de negócios e permitirá que esses países se adaptem às condições comer­ciais que o resto do mundo tam­bém terá no futuro.”

 


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