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Pantera negra

Redação DM

Publicado em 15 de fevereiro de 2018 às 22:52 | Atualizado há 1 ano

 

A Marvel Studios com­pleta 10 anos de exis­tência este ano. Tudo começou de maneira esforça­da em 2008, sem muitas ex­pectativas, mas cheio de es­perança com o lançamento do primeiro filme: Homem de Ferro. Um personagem até en­tão desconhecido do grande público, e cuja aposta não só era incerta, como representa­va todo o investimento da em­presa. Caso fosse fracasso, os planos de construir um uni­verso compartilhado cairiam por terra, e as portas provavel­mente seriam fechadas. Mas, como bem sabemos, o resul­tado foi outro. Homem de Fer­ro foi aclamado por crítica e público, arrecadou milhões mundialmente e começou uma cultura que alastrou por toda Hollywood: criar uni­versos unificados na telona. A Disney não deu bobeira e ga­rantiu a compra de todo o con­glomerado Marvel levando para debaixo de tuas asas, in­clusive, o departamento de ci­nema. Com a compra, Marvel/ Disney se consolidaram como a mais representativa, e lucra­tiva, máquina de fazer dinhei­ro da atualidade no entreteni­mento audiovisual.

Os filmes de super-heróis se tornaram um subgênero do ci­nema, e hoje, são os responsá­veis por mover uma engrenagem que ainda busca em superprodu­ções garantir a atenção, dividida, do público. Outro feito da Marvel Studios foi conseguir alcançar um patamar de confiabilidade que não engessa o investimen­to em personagens desconheci­dos. Guardiões da Galáxia foi o abrir da porteira para não temer usar personagens antes conside­rados Classe C das revistas em quadrinhos. Com o cinema, e a harmônica orquestra criada pela empresa – onde cada elemen­to é colocado com planejamen­to e cuidado nos filmes –, a Mar­vel Studios ainda não amargou o gosto de um fracasso comercial, e seus filmes são o resultado de trabalho em equipe e disciplina.

Pantera Negra apareceu pela primeira em Capitão América: Guerra Civil, e já conseguiu se destacar em meio ao numero­so grupo de heróis. Após a exce­lente introdução no intitulado MCU (Marvel Cinematic Uni­verse, ou, traduzido, Universo Cinematográfico da Marvel), agora é a vez do personagem re­ceber a sua adaptação solo, cuja responsabilidade é consolidar a mitologia do herói no cerne po­pular ao se aprofundar em suas origens e cultura.

E se existe um personagem – destes já apresentados ao pú­blico – que se difere em cultu­ra, e estilo, é o Pantera Negra. Com temática africana, o dire­tor Ryan Coogler – do excelen­te Creed – Nascido Para Lutar –, injeta com fervor sangue negro na produção e mergulha de ca­beça nos estilos, tons e caracte­rísticas da África para compor todo o universo do personagem. É uma mescla de modernidade, filme de super-herói e conceitos africanos que são visualmente belíssimos de assistir. As cores vivas, a música, o visual quen­te e arrebatador são trabalhos de produção notáveis, e impor­tantes para estabelecer respeito, e relevância, aos negros na cul­tura do entretenimento. Mais de 90% da obra é composta por atores de raça negra, e a trama coloca a cultura africana como DNA primordial do filme. O re­sultado é uma obra que possui uma representatividade essen­cial, principalmente para um período de nossa história onde se debate, e defende, a necessi­dade da oportunidade para ato­res de diferentes etnias.

Mas se por um lado Pantera Negra carrega esta importante lição social, por outro, como fil­me de super-herói, e como pro­posta de diversão, a obra peca em aspectos que prejudicam a efici­ência das intenções. Sim, as ca­racterísticas da Marvel Studios continuam lá. É um filme nitida­mente da empresa. Mas sua reso­lução erra ao estender em dema­sia os dramas, e investir pouco na aventura. Muito vai e vêm, con­versa demais pra cá, conversa demais pra lá, e pouco exercício da ação. E quando sim, as cenas são fracas e sem nenhum grande momento envolvendo os perso­nagens. Algo que prejudica seria­mente o ritmo e nossa disposição ao desenrolar da narrativa.

A impressão deixada é que este Pantera Negra foi feito por encomenda, apenas para esta­belecer em definitivo um perso­nagem, mas sem muito esmero e cuidado. Cumprir tabela. A ação é genérica e sem criatividade, e há momentos vergonhosos onde se percebe, claramente, que os atores se encontram em frente a uma tela verde. Para um filme da Marvel Studios/Disney, cujo po­der de investimento não é peque­no, são deslizes imperdoáveis.

Já o elenco é um acerto e tan­to. Chadwick Boseman, desde Guerra Civil, já se provou caris­mático e imponente, caracte­rísticas importantes para um personagem que além de herói, é também o rei de uma nação. Andy Serkis como o vilão Garra Sônica não tem muita oportuni­dade em cena, mas quando sur­ge, Serkis se diverte desmedida­mente e investe com gosto no jeito grotesco, e sarcástico, do personagem. Michael B. Jordan cresce aos poucos em tela, e dá conta do recado. Martin Free­man esbanja o imenso carisma habitual e é sempre bem vin­do. E as mulheres, todas, estão excelentes e roubam comple­tamente a cena. Desde a ótima Florence Kasumba até Lupita Nyong’o, Letitia Wright e a vete­rana Angela Bassett.

Pantera Negra não chega a ser um filme ruim. É o padrão Marvel onde se há uma expectativa pron­ta do que será visto. Por um lado, esta expectativa já equilibrada que existe pelos filmes do estúdio é ruim, afinal, vai chegar um mo­mento em que o público vai que­rer algo diferente. Mas, por outro, é bom por não tornar a experiên­cia desastrosa. O filme é agradá­vel, tem seus momentos diverti­dos, mas em comparação com outros longas como Capitão Amé­rica: Soldado Invernal, Homem de Ferro, Doutor Estranho e Guar­diões da Galáxia, por exemplo, Pantera Negra está muito abaixo do potencial de envolver, entreter e divertir. Como já dito, o ritmo é inconstante, arrastado, e não há cenas de ação visualmente cria­tivas e empolgantes. No geral, é um filme que cumpre sua obriga­ção empresarial, e de fundamen­tar um produto. Mas, particular­mente, queria ter me divertido bem mais.

(Matthew Vilela, jornalista e crítico de cinema do DM e do blog “Blog do Matthew Vilela)


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