Os celulares não são os culpados
Redação DM
Publicado em 13 de fevereiro de 2018 às 23:00 | Atualizado há 8 anos
Os smartphones surgiram para escravizar a mente humana e estamos todos viciados neles. É isso o que as manchetes recentes nos fazem acreditar, mas isso não está exatamente correto. Não está exatamente errado também, mas estamos olhando para o problema a partir de um ângulo errado.
Todos conhecemos pessoas que são incapazes de viver sem seus telefones por mais de alguns minutos, e estão constantemente enviando mensagens e verificando o que os amigos estão fazendo nas redes sociais se, é claro, não somos nós mesmos a fazer isso. Acredita-se que este comportamento, causado supostamente pelo vício em smartphones, é antissocial, já que as pessoas muitas vezes preferem olhar para a tela do celular do que ter uma conversa real. Mas e se o vício em smartphones for um problema hipersocial, e não antissocial?
O professor Samuel Veissière, antropólogo cognitivo que estuda a evolução da cognição e da cultura, explica que o desejo de assistir e monitorar os outros, mas também de ser visto e monitorado por outros, corre profundamente em nosso passado evolutivo. Os seres humanos evoluíram para ser uma espécie social única e exigem a contribuição constante de outros para buscar um guia para um comportamento culturalmente apropriado. “Esta é também uma maneira de encontrar significado, objetivos e um senso de identidade”, afirma.
Em um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology, Veissière e Moriah Stendel, pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Universidade McGill, no Canadá, revisaram a literatura atual sobre o uso disfuncional da tecnologia inteligente através de uma lente evolutiva e descobriram que as funções mais viciantes dos smartphones tocam no desejo humano de se conectar com outras pessoas.
DESEJOS E VÍCIOS
Assim como com qualquer coisa, é o excesso que causa problemas.Os smartphones aproveitam uma necessidade normal e saudável de socialidade que todos nós temos, mas Veissière concorda que o ritmo e a escala da hiperconectividade empurram o sistema de recompensas do cérebro para funcionar com o excesso de velocidade, o que pode levar ao vício.
“Em ambientes pós-industriais, onde os alimentos são abundantes e prontamente disponíveis, nossos desejos de gordura e açúcar esculpidos por pressões evolutivas distantes podem facilmente entrar em excesso de insaciabilidade e levar a obesidade, diabetes e doenças cardíacas. As necessidades pró-sociais e de recompensas do uso de smartphones como meio de conexão podem ser igualmente sequestradas para produzir um teatro maníaco de monitoramento hipersocial”, explicam os pesquisadores.
“Há muito pânico em torno deste tópico”, diz Veissière. “Estamos tentando oferecer boas notícias e mostrar que é nosso desejo de interação humana que é viciante e há soluções bastante simples para lidar com isso”, pontua.
Desligar as notificações e definir horários adequados para verificar o seu telefone pode nos ajudar a começar a recuperar o controle sobre o vício. Pesquisas sugerem que as políticas no local de trabalho que proíbem os e-mails à noite e aos fins de semana também são importantes.
“Em vez de começar a regular as empresas de tecnologia ou o uso desses dispositivos, precisamos começar a conversar sobre a maneira apropriada de usar smartphones. Os pais e os professores precisam ser informados sobre o quão importante é isso”, conclui o antropólogo.