Tango, samba e música francesa
Redação DM
Publicado em 4 de fevereiro de 2018 às 00:33 | Atualizado há 1 ano
A cantora, compositora, produtora cultural e doutoranda em História da Arte, Aline Miklos é uma legítima artista goianiense. Mas, é fato que sua alma é do mundo. Fazendo jus à suas raízes ciganas, já morou na França e desde 2015 reside na charmosa Buenos Aires, na Argentina. De volta a Goiás para uma temporada de shows–que já passou por Anápolis, Pirenópolis e chega hoje a Goiânia, às 20h ao Centro Cultural UFG (CCUFG) -, a artista tem mostrado a versatilidade de quem soube muito bem incorporar suas diversas influências culturais com o espetáculo “Amores Transgressivos”.
Em cena, Aline Miklos vai migrar, com naturalidade, dos sambas brasileiros aos tangos argentinos, passando ainda pela música francesa. Seguindo um roteiro que dá razão ao nome do espetáculo, o show trata-se praticamente de uma história de amor cantada: começa no amor romântico, passa aos conflitos cotidianos, até chegar ao fim de toda ilusão.
Tais situações, de acordo com artista, concedem esta conexão entre todos ritmos explorados no espetáculo. Pois, o samba, para a cantora, por mais que seja alegre, também lá suas canções que falam de tragédia e amor, assuntos estes, que estão para sempre incorporados nas entranhas do tango.
“No espetáculo há músicas tanto de um amor otimista, em que você acha que a vida é um mar de rosas, como faixas de Lupicínio Rodrigues, que dizem: ‘eu roubei sua mulher. E aí? A gente vai brigar por isso?’ Também têm as músicas corta-punhos, que são aquelas que dizem: ‘eu queria morrer agora de amor para você saber o quanto eu te amei’”, adianta a cantora.
Contudo, Aline ressalta que toda intensidade do mundo das relações amorosas também é abordada de forma cômica. E graças à sua experiência com o universo clown, a artista promete leveza e interação com a plateia mesmo cantando algumas faixas na língua francesa ou espanhola.
“Não importa se a pessoa não entende o idioma das canções, ela vai entender o clima. Nós focamos na interação com as pessoas, chamamos todos para mergulhar conosco nas alegria e dores e amores do espetáculo. Costumo dizer que este é um show trágico, mas ao mesmo tempo muito divertido”, comenta.
VIDA CIGANA
Apesar de ter saído de Goiânia há 15 anos, as raízes musicais e artísticas desta artista começaram aqui e, nota-se que ainda influenciam sua trajetória mundo afora. Vinda de uma família de ciganos, ela fala romanês (língua cigana) e, mesmo após muitas pesquisas de canto e teoria musical, entre elas no Instituto de Cultura Islâmica de Paris, onde estudou, não perdeu a essência. É, por exemplo, integrante dos grupos de música cigana e balcânica Segundo Mundo e Kalo Chiriklo, na Argentina.
E foi justamente esta aproximação com a música balcânica e brasileira que aproximou a artista do trio argentino Cañón, que acompanha Aline Miklos em “Amores Transgressivos”. Com um trabalho voltado para incorporar uma linguagem contemporânea ao tango, quando conheceu a goiana em Buenos Aires o grupo a convidou logo para participar dos seus shows. Não demorou até a parceria chegar até o Brasil.
“Conhecendo o meu trabalho, o Cañón achou interessante cantar comigo, que sou brasileira e tenho raízes balcânicas. E eles me convidaram ainda para trabalhar cantando tango, já que eu faço uma releitura deste estilo. A identificação foi ainda maior porque eles também gravaram algumas músicas brasileiras no ritmo de tango, como ‘Retrato Em Branco Preto’ (de Chico Buarque). Então, a ideia é misturar nossas influências e procurarmos pontos interessantes”, conta Aline Miklos.
DE VOLTA
Mas, além da estreia da Cañón nos palcos brasileiros, “Amores Transgressores” trará à artista a possibilidade de viver uma experiência inédita e comovente: será a primeira vez que os pais de Aline Miklos irão vê-la num palco. “Me apresentei no Brasil, mas apenas em grupos do Rio de Janeiro e em São Paulo. Fico muito feliz de cantar aqui, que é uma parte muito pessoal da minha história”, revela.
Outro motivo que alegrou a artista foi o fato de sentir na pele a famosa solidariedade goiana. Isso porque após tantos anos longe da Capital, ela encontrou algumas dificuldades para produzir o espetáculo aqui, como por exemplo encontrar um estúdio que tinha piano. Porém, ela conta impressionada que foi só pedir ajuda, que a turnê começou a fluir rapidamente.
“Quando eu falei que eu viria a Goiânia com este trio maravilhoso, muita gente me ajudou e eu me senti muito querida aqui. E acho que isso tem também muito a ver porque tento ser também muito solidária, e acho que as coisas vão e voltam na vida”, ressalta.
E o interesse dos goianos por novas experiências musicais e, consequentemente, por seu trabalho, também surpreendeu a artista . “As pessoas falam que em Goiás só tem sertanejo, mas achei as pessoas muito abertas. Por mais que a gente fala que é um show que tem música francesa e tango, os goianos sempre se interessam, pedem para cantar mais e dizem que vão no show. Estou emocionada em trazer um show deste porte a Goiânia”, revela.

TRIO CAÑÓN APRESENTA AMANHÃ TAMBÉM NO CCUFG O NOVO ÁLBUM
Na intenção de tocar e compor canções inspiradas no tango–que como já disse o poeta e compositor argentino Discépolo: “é um pensamento triste que se pode dançar” -, o Câñón começou a se unir em 2009. Nesta época, os musicos ainda atendiam pelo nome Cuarteto Coviello, que deixou álbuns lançados: “14” (2010) e “Llegaron” (2013).
Quando o quarteto virou trio, em 2014, o grupo mudou o nome para Cañón, mas continuou em frente, no intuito de trazer linguagens novas ao ritmo tradicional. No ano passado, lançaram um álbum com faixas autorais e pela primeira vez se dedicaram a interpretação de algumas faixas, intitulado “Brujos”, que combina músicas instrumentais e cantadas.
E este álbum será apresentado aos goianos no projeto tradicional da Fósforo Cultural “La Bomba Latina”, que busca o intercâmbio com artistas de outros países latinos. A performance está marcada para começar às 20 horas também no CCUFG.
SHOW AMORES TRANSGRESSIVOS
Quando: hoje, às 20h
Onde: Centro Cultural UFG (Praça Universitária. Setor Universitário)
Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (meia)