Nelson Rodrigues
Redação DM
Publicado em 26 de janeiro de 2018 às 00:50 | Atualizado há 9 anos
Li, certa vez, não me lembro em qual jornal, que Nelson Rodrigues (1910 – 1980) foi também um grande humorista, pois fez do riso um modo de dar à crônica jornalística o status de literatura. Indubitavelmente, foi um dos maiores dramaturgos da língua portuguesa. O seu “Vestido de Noiva” (em 1943) nos mostra quão grande ele era. As suas crônicas se comparam às de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e outros mais. Nelson foi dono de um estilo límpido e, sobretudo, elegante. Mas, também mordaz. Acerca de seu lado desportista é necessário dizer que emocionava as torcidas. Irritava os progressistas, vilipendiava o feminismo e, ainda, as alas esquerdistas e outros modismos, enquanto viveu. Muitas vezes foi tachado de reacionário por causa de algumas de suas manifestações. Seu livro de crônicas, conhecido como “Confissões” demonstra visivelmente o vigor de seu estilo. Basta dizer que foi reeditado várias vezes. No livro “Inteligência com Dor – Nelson Rodrigues Ensaísta” fez quem que o professor Luiz Alberto Fischer o comparasse ao pensador francês Michel de Montaigne (1533 – 1592), dando origem a uma forma de texto, que apresenta temas diversos e, também, o humor. Ivan Claudio, jornalista e crítico literário, comentando sobre o humorismo de Nelson Rodrigues disse: “Ao defender a sua tese, Fischer põe em relevo aspectos bem mais interessantes, como, por exemplo, o uso que Nelson fazia da linguagem coloquial e, especialmente, do humor como forma de seduzir o leitor”. Ainda, segundo Ivan Claudio: “Nelson é, acima de tudo, um humorista, de vez que frasista brilhante, ele lançava mão das mais prosaicas comparações para enfatizar afirmações que poderiam passar sem o devido impacto – e isso torna a leitura de “Inteligência com Dor” um divertido virar de páginas”. E cita os tipos satirizados que, com seu espírito impiedoso, criticava figuras de sua época. Sob o título “Padre de Passeata” ele chamava assim os sacerdotes progressistas dispostos a modernizar as missas. Então, criou a expressão para ironizar o arcebispo Dom Helder Câmara, dizendo que ele só olhava para o céu para saber como estava o tempo. Metendo o malho nas grã-finas da sociedade afirma que as mulheres esnobes, que frequentavam a ala social do Maracanã, iam ao estádio, mas não entendiam nada de futebol e quando os times entravam em campo, perguntavam: “quem é a bola?” Inventou o personagem Palhares, na sua ótica, mulherengo, que não respeitava nenhum poste, colocando em sua boca essas palavras: “quem nunca amou a cunhada não sabe o que é o amor”. Como se vê, Nelson Rodrigues além de dramaturgo escrevia com um humor cáustico, mas que todos entendiam.
(Luiz Augusto Paranhos Sampaio, membro da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e Academia Catalana de Letras da União Brasileira dos Escritores. E-mail: luizaugustosam[email protected])