Araguatins: encontro no presente para resgatar o passado (3)
Redação DM
Publicado em 12 de janeiro de 2018 às 23:20 | Atualizado há 9 anos
Araguatins, como toda cidade, tem suas passagens curiosas, histórias interessantes. Nomes que se destacaram em minha infância. Por uma razão ou outra, até por um detalhe, chamaram minha atenção.
Quintino Gomes, bom de papo e como piloto de barco sabia enfrentar as correntezas do Araguaia e dos lugares praianos. Parece fácil à primeira vista, mas uma praia pode encalhar o barco e até ocasionar situações de risco. Pelo menos forçar a pessoa a descer da embarcação, para que ela se mova, e aí enfrentar possíveis ferrões de arraia.
Basílio, açougueiro. Exímio nos cortes dianteiro ou traseiro. Era também um contador de causos. Pessoa humilde, sempre provocava risos e era muito querido na cidade.
Antônio Rodrigues, dono de estabelecimento comercial na esquina da principal praça da cidade. Casa Rodrigues era o nome da firma. Apreciava sentar-se à porta da casa numa preguiçosa, um tipo de cadeira confortável com encosto de pano.
Daniel Frutuoso, outro comerciante e dono de barco a motor, que transportava mercadoria entre Araguatins e Belém, percorrendo rios como o Araguaia e o Tocantins. Tinha um largo tirocínio comercial. Na loja dava duro, parecendo um serviçal. À porta do estabelecimento, os fregueses do meio rural amarrarem seus cavalos e mulas, ainda selados. Era na verdade uma situação comum. Afinal, a rua detinha franco movimento porque era também uma das entradas da cidade.
Penso, atualmente, o Daniel era um negociante de visão. Foi casado com Dulce Frutuoso, filha de dona Antonina Milhomem, uma das professoras pioneiras de Araguatins. Chegou à posição de diretora do Grupo Escolar Vicente Bernardino Gomes e também de vereadora pelo PSD, partido então de Pedro Ludovico Teixeira, fundador de Goiânia e coronel político da época. Havia uma geração de filhos de Daniel-Dulce, que estudava em Belém (PA).
Seledônio Fernandes criava gado a exemplo de seu pai, Benjamim. Os animais na época eram os chamados pé-de-boi. Rústicos, pastavam capim comum. Brachiaria nem pensar. Acho que nem existia no mercado. Nenhum melhoramento genético. Enfrentavam o calor, típico da região amazônica.
Seledônio era muito ligado ao meu pai, Athanásio de Moura Seixas, coronel político e assim líder do velho PSD. Na época, é bom frisar, os coronéis tinham o poder de mando. Mas, não se roubava. O pouco dinheiro arrecadado ou proveniente de verba parlamentar tinha aplicação a que se destinava. Então, Seledônio, da confiança irrestrita do cacicão Athanásio, foi vereador e prefeito. Casado com Doracy Milhomem Fernandes teve uma prole numerosa. Entre eles, o Harmísio, pessoa bastante querida por onde passa.
Harmísio morou em minha casa em Goiânia. Como outros araguatinenses, ele veio para estudar. Aos 18 anos de idade, não teve como fugir da convocação do Exército, serviu na 7ª CSM. Hoje, é servidor do Incra. É, além do mais, excelente figura humana. Aprendi muito com ele certos comportamentos ao volante. Jamais frear,por exemplo, nas vias de lama, arenosas ou oleosas. Acho que seu conselho valeu para mim e, possivelmente, tenha salvado a minha vida numa ocasião.
Vinha de Brasília para Goiânia, a rodovia tinha somente uma pista. Nas sete curvas, como é conhecido um trecho da BR-060, percebi que a estrada estava manchada de diesel. Reduzi a velocidade e, sentido frio provocado pelo medo, apenas comandei o carro pelo volante, até passar o perigo.
Casou-se com a Eneuza, outra batalhadora e que, apesar dos trabalhos domésticos, conseguiu obter o diploma de curso superior na Faculdade de Araguatins.
Luiz Tolentino é da minha geração. Fomos criados praticamente juntos. Tivemos passagens curiosas. Ele sempre foi muito estudioso. Sua mãe era professora que cobrava estudos dos filhos à luz de lamparina. Então, Tolentino fez uma vida política. Foi deputado estadual pelo Estado do Tocantins. Infelizmente, com meus afazeres em Goiânia não acompanhei mais a sua trajetória.
Lembro-me bem de uma passagem que não dá para esquecer. Acostumados a tomar banho no Araguaia, na praia defronte, um outro jovem da nossa geração entre um pulo e outro à beira da praia,disse: – Eu sou a vaca e vocês os touros.
Não deu para encarar.
Passe-me pela cabeça, ainda, Giribita, que não guardei o nome, mas apenas o apelido. Era uma figura do folclore na minha infância. Na realidade, é todo esse povo que constrói a cidade, que dá vida e que gera história.
A série continuará amanhã.
(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em cooperativismo agropecuário pela Histadrut, em Tel Aviv, Israel. Autor do livro: O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)