As “reminiscências” do Raimundo XIII
Redação DM
Publicado em 12 de janeiro de 2018 às 23:05 | Atualizado há 9 anos‘A Ilha do Leprosário: Em frente à cidade, ficava uma ilha muito grande. Ela era chamada e conhecida como ‘a ilha do Leprosário’. Ela deveria ter sido, até o final da primeira metade do século XX, o destino daquelas pessoas discriminadas pela sociedade, por serem portadoras dessa terrível moléstia milenar, que tanto horror causava. Não tão terrível pelo mal físico que causava, que já não era pequeno, mas, principalmente, pela discriminação a que estavam expostas as pessoas portadoras desse mal terrível, desde época anterior ao nascimento de Cristo. Era uma doença tão estigmatizada que, àquela época, nem sinal mais tinha, aquela ilha, que indicasse ter sido habitada, um dia, por essas pessoas condenadas pela sociedade ao isolamento total. Mas o povo se esquecia de que, algum dia, aquela ilha tinha sido morada (o nome correto é ‘confinamento’) dessa gente, sofrida e envergonhada de ter sido expulsa do convívio de seus semelhantes, e por serem portadoras de um mal para o qual não tinham contribuído. Eram apenas vítimas, por pertencerem e morarem num local onde essa doença terrível grassava, e eram pessoas carentes de recursos para se afastarem daquela região para outra região, em busca de tratamento adequado e eficaz.
Quando lá cheguei, já no início da segunda metade do Século XX, abril de 1953, apenas fiquei sabendo, bem depois, que a finalidade tinha sido atribuída àquela localidade. Na minha época, o seu nome já era outro: A ‘ilha dos bodes’. Por sinal, eu não via aquele animal habitando naquele local. As pessoas deviam colocar, por alguns dias, aqueles animais, a pastarem, em determinas épocas, a relva nova e macia que, ali, abundava.
‘Colheitas Diversificadas na Ilha do Murici – Quando era época, na seca, as praias eram abundantes, época de se colher, à noite, de preferência na ‘lua cheia’, – noites muito claras – ovos de ‘tracajás’ ou de ‘tartarugas’. Na época da desova, esses animais saiam para a praia, e logo que achavam o lugar apropriado, o instinto animal lhes indicava esse local, onde cavavam e, ali, depositavam seus ovos multiplicadores. As tartarugas abriam um grande buraco, e as tracajás, buracos menores. Elas ‘sabiam’ que, dali, viriam a nascer dezenas e até centenas de outros animalzinhos iguais a elas – seus sucessores.
Acontece que elas não contavam com o ‘bicho homem’, ou animais silvestres, predadores, que se alimentavam de sua pródiga postura.
Eu gostava muito dos ovos desses animais. Eles eram servidos sempre cozidos. E, uma vez cozidos, duravam muito tempo. Os ovos cozidos eram empregados em gostosas farofas feitas com farinha de mandioca.
Para localizar o ‘ninho’ delas, com o clarão da lua, seguia-se, pelas suas pegadas, (‘rastro’), até o lugar da desova – ou seja, o seu ‘ninho’. Ali, tirava-se o manto de areia, e chegava-se logo às ninhadas. Era uma festa, cada descoberta de um bom ninho! Às vezes, elas despistavam os ‘caçadores’. Nem sempre no primeiro ninho elas deixavam seus ovos: Iam deixá-los em outro local, mais à frente. Defesa instintiva da natureza!
Nessa mesma época, íamos da Ca ilha idade até a ilha bem abaixo. Nessa época de seca, a ilha estava ligada à cidade, temporariamente, pela praia. Ia-se caminhado, até a ilha. Ainda era o início das chuvas, e as praias ainda existiam, abundantes. E nos serviam de ponte, entre a margem do rio até a ‘Ilha do Murici’. Ali, se fazia uma boa colheita desse frutinho, que era muito utilizado em refrigerantes, tais como picolés e outras gulozeimas domésticas, como sobremesa. Era de um azedume gostoso, e por isso mesmo, apreciado por todos. Os ‘muricizais’ eram nativos nesse tipo de solo – terra fresca. Quando as chuvas ainda não eram tão abundantes, a maioria dessas árvores frutíferas ficava dentro d’água. E a gente fazia a colheita das frutas ácidas, naquela água arasa – lagoa, desde que o fruto – amarelinho – estivesse em bom estado. Caído à véspera. Não podia estar apodrecido.
Aquilo, para nós, – adolescentes, – era um enorme divertimento. E olhe que se tinha que andar a pé uma enorme distância! Pois a ilha ficava bem longe da cidade. E poucas vezes a gente se utilizava da canoa. Sem contar que eu já possuía esse barco havia pouco tempo.
Aquelas árvores eram de pequeno porte. E fáceis de serem galgadas. Os galhos ficava matizados de frutos verdes, de vez e maduros. E a gente subia nelas, balançava os galhos e os frutos maduros caíam, bordando o chão com aquelas frutinhas amarelas. Aí, era só descer e catar; e assim, sucessivamente, passava-se para outros pés que tivessem seus frutos amadurecendo. Fazia-se uma boa colheita.
E retornava-se para casa, com as vasilhas cheias e com o pensamento fixo no gostoso refresco que iriam dar aquelas frutinhas.
Embora lá, no Pará, já se fizesse uso do açúcar, não era raro adoçar esses sucos com rapadura, também, como a ‘sambereba’ do buriti para comer com farinha. Adoçado com rapadura, o gosto ficava, pelo menos para nós da região, ainda mais saboroso.
‘Compra de carne, de madrugada: Naqueles dias de 1950, não era para todos terem, todo dia, uma carne fresquinha; era privilégio de poucos. E a carne de primeira, então, era para pouquíssimos.
Eu saía de casa bem cedinho, lá pelas 4 ou 5 horas da manhã, se quisesse comprar um pouco de carne. De primeira, nem pensar. Só uma de segunda, boa. ‘Seu’ Paulo era o administrador do Mercado.
Ia-se com um prato esmaltado. Nele, a gente trazia a carne. A compra era pouca.
Quando ‘seu’ Paulo abria o mercado municipal, onde estava instalado o único açougue daquela época, a gente entrava em fila, chamada de ‘cobrinha’, que seguia a ordem da fila dos que já estavam lá fora, antes de abrir o mercado.
Quando a gente chegava a ser atendido, sabia que não tinha mais carne de primeira. Esta já havia sido reservada para os mais abastados, os mais ricos e privilegiados da cidade. Aquilo era tão natural para aqueles lados, que não havia sequer reclamação. Comprava-se a carne que tivesse. Quando se comprava! E eu era o comprador oficial, meus irmãos, por parte do pai – o Ademan e o Ademar eram pequeninos ainda, e aquela tarefa não era para mulheres -, assim eu achava.
Numa dessas madrugadas, quando eu cheguei ao mercado municipal para comprar carne, observei um fogo saindo da terra, chamas lá para o lado do rio. Aquilo, para mim, era uma verdadeira assombração, ‘visagem’ como se dizia praquelas bandas. Coisa do outro mundo. Nesse dia, parece até que eu nem comprei carne. Eu tampava a cara para não ver aquilo, mas a claridade vinha mesmo assim, até os meus olhos. Eram umas chamas que subiam e, em seguida, se apagavam. E assim por várias vezes repetidas. Era só eu tirar as mãos do rosto, e vinha aquela claridade, de longe, me clarear as vistas. E ninguém aparecia, ali, para me fazer companhia. Era um terror!
Corri logo depois, fui bater em casa, todo trêmulo. Só depois de muito tempo, já bem adulto, soube que era um ‘fogo-fátuo’, advindo de matéria em decomposição, principalmente de corpos e esqueletos de animais (humanos ou animais outros). Cheguei em casa correndo, sem olhar para trás, com medo de estar sendo perseguido por assombração, alma do outro mundo, coisa de que eu tinha muito medo, pelas estórias assombrosas que os adultos nos contavam. Ao chegar em casa, acordei todo mundo com o meu barulho.
Quando eu saí de casa, todo mundo ainda dormia. Só eu acordara, de madrugada, para tentar encontrar carne, para comprar. De lá para cá, quanta coisa mudou! A carne, hoje, é abundante. Quase não é privilégio só dos mais ricos. Estórias como essa até parece de ficção. Para aquela época, principalmente numa região como aquela nossa, era bastante real.
Outro produto que se comprava no Mercado Municipal, era o peixe de tamanho maior, pescado por profissionais, com instrumentos e materiais mais adequados, as mais sofistificadas tarrafas, redes, zagaias, barcos maiores não raro motorizados, etc. Ali, a gente comprava surubim, dourado, cachorra, pacu, piau, matrinchã, tucunaré, etc.
A compra de peixe não era tão disputada como a de carne bovina. O peixe, naquela época, ao contrário da carne, era muito abundante. Em quase toda carne, tinha um pescador com muita habilidade para pescar. Nós, os amadores, utilizávamos o método mais artesanal para pescar, – o caniço, por exemplo. Esse caniço era constituído de uma vara flexível, porém muito resistente. Com o caniço, pescavam-se peixes de pequeno e médio porte, dependendo do porte do caniço e o tamanho do anzol que era proporcional ao caniço. Encontrava-se, esse material, para vara de pescar nas margens do rio. Nunca fui bom pescador, pescava apenas para o gasto. O Zezinho, irmão da ‘Madrinha’, era, ao contrário, exímio pescador. Enquanto ele pescava, eu ficava tomando banho, espantando os peixes. Ele ficava danado comigo! É que, realmente, assim o fazendo, eu terminava espantando os peixes
‘Mão dormente – Um escândalo – Certa feita, estava eu dormindo na minha rede, num quarto junto a minhas irmãs. Minha rede ficava ao lado da parede, bem próxima desta. Então, minha mão deve ter ficado em determinada posição inadequada, que adormeceu. Lá pelas tantas da madrugada, eu acordei, numa escuridão danada, com um peso em cima do meu peito. Então, peguei com a outra mão aquela coisa que estava em cima de mim, e a joguei fora. A mão estava dormente, nada senti.
E quando aquela mão foi jogada para fora, batia na parede e voltava, novamente, pra cima de mim. E aquela coisa caindo em cima do meu peito, sucessivamente, eu acreditei que fosse uma assombração; e como os meninos daquela época tinham medo dessas coisas!…Assombrações, como se dizia por lá. Assim, acordei e gritando, assombrado. E acordei todo mundo da casa… Quando acenderam as lamparinas, e nada encontraram, e até parecia que a assombração havia desaparecido, como mistério. É que pude verificar o que tinha acontecido de fato. Nada mais era do que a minha mão dormente que era jogada, a todo instante, contra a parede, e que, nela batendo, voltava a cair sobre o meu peito. Depois de minha gargalhada, e até mesmo zombaria dos colegas – todos fomos dormir, novamente, profundamente sossegados.
‘Dormindo na Área da Casa’ – Papai tinha o hábito de fechar a porta da rua, às 22h. E eu sempre já estava em casa, nesse horário. Acontece que, um belo dia, atrasei a minha chegada em casa. Eu estava num baile, como sempre, em ambientes não tão recomendáveis. E como gostava de dançar! Já tinha aprendido o suficiente para não passar vergonha com as moças. Nem ser enjeitado nos pedidos de dança, nas ‘soirées’dançantes, nas casas de família.
Assim, cheguei em casa já fora desse horário pré-estabelecido. Papai não perdeu tempo. Trancou a porta da rua, e fechou a porta da cozinha, por dentro. Dessa forma, não pude entrar em casa, para dormir.
Havia um banco numa área, ao lado da entrada. Eu, com todo o sono que estava, deitei-me nesse banco, que, àquela altura, até que seria uma boa cama… Assim, deitei-me nesse banco, e logo dormi. ‘Madrinha’, acordando lá pelas tantas da madrugada, levantou-se e percebeu que eu não estava dormindo. Ela disse que, abrindo a porta da cozinha que dava para aquela área, percebeu que, ali, eu estava dormindo. Então, ela foi, com muito jeito, tentar me acordar. E eu acordei.
Acordei tão assustado e com tanto medo de assombração, coisa do outro mundo, que pulei longe, gritando: ‘Me deixa em paz, alma do diabo!’ Falei isso varias vezes, e, ao mesmo tempo, eu dava pesadas para todos os lados, para me ver livre daquilo.
Nesse destempero todo, e ainda sonâmbulo, sem notar a presença de ‘Madrinha’, chutava ela, também, que, parece, estava vestida de branco, e era, para mim, uma perfeita assombração, coisa do outro mundo. Até que ela gritou, dizendo que era ela; aí é que eu tomei consciência da realidade. Vi que a assombração não era nada mais nada menos que ‘Madrinha’, minha ‘madrasta’. Fiquei, então, muito desconcertado, e fui levado para dentro de casa para procurar dormir, novamente. Apesar de tudo, eu estava, ainda, muito assustado. Mas terminei dormindo, novamente.
Gente nova tem sono fácil. Não tem, ainda, felizmente, outras preocupações, a não ser com coisas do outro mundo, e que, por não existirem, não podem fazer mal a ninguém.
‘Madrinha’ ficou alguns dias sentindo muitas dores de minhas pesadas involuntárias e inocentes. Ela bem sabia disso. E disse, depois, que aquelas minhas pesadas nela foram causa de um aborto, pois ela estaria grávida de pouco. Fiquei sabendo disso somente bem depois. Foi lastimável!
‘Canoa furtada’ – Como anteriormente já havia comentado, Papai havia comprado uma pequena canoa para mim. O principal motivo dessa aquisição era me ajudar na busca de lenha grande, na orla ribeirinha. Com ela, o serviço rendia muito mais. Eu cortava a lenha em tamanho grande, e nela seria possível transportar aqueles grandes pedaços de madeira (os ‘varões’). Eu os levava para casa, e lá, à medida das necessidades, eu os ia cortando em tamanho menor, para abastecer o fogão. De forma que foi uma coisa muito boa que Papai fez para mim. Em bem menos tempo, eu trazia para casa grande quantidade de madeira, tamanho grande, que rendia, depois, muitos metros de lenha. E muitos dias de serviço eram poupados. Eu, com ela, também fazia as pescarias. Mas como eu não era muito dado a esse serviço, eu a usei muito pouco para tal. Eu a usava, também, para fazer pescarias. Mas como eu não era muito dado a esse serviço, eu a usei muito pouco para tal. Eu a usava, também, e bem mais, nas horas de folga, para passear, ora rio acima, ora rio abaixo. Era muito boa, aquela vidinha que eu levava, sem maiores preocupações. Assim, fiquei com ela uns dois anos, aproximadamente. E ela me foi de grande utilidade. Era leve, e de fácil manejo.
(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35. E-mail liciniobarbo[email protected])