Assédio redefine ética profissional
Redação DM
Publicado em 11 de janeiro de 2018 às 01:39 | Atualizado há 1 ano
Um grupo de militantes e ativistas feministas francesas se manifestou contra a carta aberta assinada pela atriz Catherine Deneuve, de 74 anos, e outras 99 mulheres, dizendo que os homens deveriam ser “livres para flertar”. Após a publicação da carta aberta pelo jornal Le Monde na terça-feira (9), Caroline de Haas e outras 30 militantes feministas se manifestaram, dizendo que “aceitar insultos contra as mulheres é permitir a violência”.
Milhares de mulheres sofrem assédio sexual e moral todos os dias no trabalho por colegas ou até mesmo pelo próprio patrão. Os casos são tão recorrentes que muitas mulheres “deixam passar’’ por medo de demissões ou por represálias. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), atos de insinuação, convites impertinentes, insultos, intimidações e contatos físicos forçados são enquadrados como violência sexual. A violência psicológica também gera problemas de saúde para o (a) assediado (a), como depressão, enxaqueca, aumento da pressão arterial e, embora em casos mais raros, há também casos de suicídio.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, 88% das ações de assédio sexual em 2016 se deram na esfera trabalhista. O assédio, evidentemente, pertence a uma categoria bem diferente da que abrange carona e beijo no rosto. No País, o assédio é crime previsto no Código Penal desde 2001. Incorre nele todo indivíduo que tentar obter “vantagem carnal” usando a condição de superior hierárquico ou lançando mão de sua ascendência sobre alguém. O problema está em definir com clareza a linha tênue que separa a saudável gentileza entre os sexos do momento em que começa a brutalidade do assédio. No Brasil, os processos por assédio sexual aumentaram 200% num período de três anos.
De acordo com o Ministério Público do Trabalho em São Paulo, (MPT-SP), as denúncias de assédio moral têm aumentado nos últimos anos. Neste ano, foram 472 até junho. Em 2014, foram 684, contra 353 em 2013. No dado mais antigo, de 2009, foram 213. O MPT afirma que o aumento não significa que há mais casos, mas que as pessoas estão mais conscientes do problema e denunciam mais. O órgão também diz que nem todas as denúncias têm fundamento.

DENÚNCIA
Cada caso é uma situação única, mas de forma geral é interessante que, antes de tudo, a pessoa que se sente vítima de assédio procure conversar diretamente com o assediador. É importante ser clara e objetiva expondo o que não gosta e não quer que se repita; longe de uma postura arrogante, a ideia é ser assertiva e firme. Caso isso não resolva, então uma nova tentativa é conversar com alguém responsável pelos recursos humanos da empresa. Mas se toda tentativa de resolver a questão de forma discreta não suscitar efeito e, mesmo diante de tudo isso, o assédio continuar, então será necessário uma denúncia formal. Nesse caso será preciso um boletim de ocorrência e depois uma ação na Justiça. O que não se pode permitir é que esse tipo de constrangimento tenha continuidade.
Para fazer uma denúncia é necessário apresentar provas contra o assediador. Por causa da dificuldade em provar o assédio sexual, quase sempre muito sorrateiro, muitas pessoas, infelizmente, silenciam e acabam se prejudicando pessoalmente e profissionalmente. Mas, nesse tipo de crime aceita-se como provas gravações que podem ser feitas até pelo celular da vítima. Também é interessante prova testemunhal. Qualquer tipo de indício do assédio que um terceiro esteja disposto a relatar na Justiça pode ser de grande importância. O importante é não se calar e não aceitar esse tipo de situação.
CONSEQUÊNCIAS
O assédio moral no trabalho desestabiliza o empregado, tanto na vida profissional quanto pessoal, interferindo na sua autoestima, o que gera desmotivação e perda da capacidade de tomar decisões. A humilhação repetitiva e de longa duração também compromete a dignidade e identidade do trabalhador, afetando suas relações afetivas e sociais. A prática constante pode causar graves danos à saúde física e psicológica, evoluir para uma incapacidade laborativa e, em alguns casos, para a morte do trabalhador.
As práticas de assédio moral são geralmente enquadradas no artigo 483 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que determina que o empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando, entre outros motivos, forem exigidos serviços superiores às suas forças, contrários aos bons costumes ou alheios ao contrato, ou ainda quando for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo ou ato lesivo da honra e boa fama. Já na Justiça criminal, conforme o caso, a conduta do agressor poderá caracterizar crimes contra a honra, como a difamação e injúria, contra a liberdade individual, em caso, por exemplo, de constrangimento ilegal ou ameaça. O trabalhador que suspeitar que está sofrendo assédio moral em seu ambiente de trabalho deve procurar seu sindicato e relatar o acontecido, assim como a órgãos como o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Superintendência Regional do Trabalho.
Cem artistas francesas contra o “puritanismo” sexual em Hollywood
ÁLEX VICENTE
EL PAÍS
Em Hollywood, o movimento Time’s Up, apoiado por mais de 300 atrizes, conseguiu tingir de preto a cerimônia do Globo de Ouro, em protesto contra as agressões sexuais. Na França, um grupo formado por uma centena de artistas e intelectuais tomou nesta terça-feira a direção contrária ao assinar um manifesto criticando o clima de “puritanismo” sexual que o caso Harvey Weinstein teria desencadeado. O texto, publicado no jornal Le Monde, é assinado por conhecidas personalidades da cultura francesa, como a atriz Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a cantora Ingrid Caven, a editora Joëlle Losfeld, a cineasta Brigitte Sy, a artista Gloria Friedmann e a ilustradora Stéphanie Blake.
“O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é um crime nem o galanteio uma agressão machista”, afirmam as autoras deste manifesto. “Desde o caso Weinstein houve uma tomada de consciência sobre a violência sexual exercida contra as mulheres, especialmente no âmbito profissional, onde certos homens abusam de seu poder. Isso foi necessário. Mas esta liberação da palavra se transforma no contrário: nos intima a falar como se deve e nos calar no que incomode, e os que se recusam a cumprir tais ordens são vistos como traidores e cúmplices”, argumentam as signatárias, que lamentam que as mulheres tenham sido convertidas em “pobres indefesas sob o controle de demônios falocratas”.
Entre as promotoras do manifesto estão personalidades que já haviam expressado opinião oposta a esse movimento, quando não abertamente contrárias a certas lutas do feminismo. Por exemplo, a filósofa Peggy Sastre, autora de um ensaio intitulado A Dominação Masculina Não Existe, ou a escritora Abnousse Shalmani, que em setembro assinou um artigo onde descrevia o feminismo como um novo totalitarismo. “O feminismo se transformou em um stalinismo com todo seu arsenal: acusação, ostracismo, condenação”, disse na revista Marianne. Por sua vez, a jornalista Élisabeth Lévy qualificou como “objeto” o movimento iniciado com rótulos como #MeToo ou #balancetonporc (“denúncia teu porco”). Em um tom mais moderado, Deneuve também se opôs a este fenômeno no final de outubro. “Não acho que seja a forma mais adequada de mudar as coisas. O que virá depois? Denuncia tua puta? São termos muito exagerados. E, sobretudo, acho que não resolvem o problema”, declarou na época. Também Millet, crítica de arte e autora do relato autobiográfico A Vida Sexual de Catherine M., se opôs repetidamente a um feminismo “exacerbado e agressivo”.
As signatárias dizem que as denúncias registradas nas redes sociais se assemelham a “uma campanha de delações e acusações públicas contra indivíduos aos quais não se deixa a possibilidade de responder ou de se defender”. “Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas: homens punidos no exercício de seu ofício, obrigados a se demitirem [,,,] por terem tocado um joelho, tentado dar um beijo, falado de coisas íntimas em um jantar profissional ou enviado mensagens com conotações sexuais a uma mulher que não sentia uma atração recíproca”, dizem no texto. Também alertam para o retorno de uma “moral vitoriana” oculta sob “esta febre por enviar os porcos ao matadouro”, que não beneficiaria a emancipação das mulheres, mas que estaria a serviço “dos interesses dos inimigos da liberdade sexual, como os extremistas religiosos”.
EFEITOS NA CULTURA
O manifesto alerta também para as repercussões que este novo clima poderia ter na produção cultural. “Alguns editores nos pediram [,,,] que façamos nossos personagens masculinos menos ‘sexistas’, que falemos de sexualidade e amor com mais comedimento ou que convertemos ‘os traumas sofridos pelas personagens femininas’ em mais explícitos”, denunciam as signatárias, opondo-se também à recente censura de um nu de Egon Schiele no metrô de Londres, ao pedido de retirada de um quadro de Balthus de uma mostra do Metropolitan de Nova York e às manifestações contra uma retrospectiva dedicada à obra de Roman Polanski em Paris.