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Quando uma estrela se apagou

Redação DM

Publicado em 9 de janeiro de 2018 às 22:40 | Atualizado há 1 ano

O camaleão, assim como algumas rãs, polvos, lulas e tipos de inseto, consegue movimentar a pig­mentação que dá cor às célu­las da pele. Mudando sua cor, o animal consegue se camu­flar entre folhagens e assim esconder dos olhos de outros bichos. O cantor, composi­tor e produtor musical David Bowie pode ser considerado a versão humanoide do bicho, com uma diferença específi­ca. Bowie utilizava da mudan­ça visual não para se camu­flar, mas ao contrário, cada vestimenta representa um momento da carreira artísti­ca, sendo que a “mudança de pigmentos” era parte impor­tante na sua criação artística. Nesta quarta-feira (10/1) com­pletam-se dois anos da mor­te de um dos maiores músicos dos últimos tempos.

David Robert Jones, ou Da­vid Bowie, nasceu na cidade de Brixton, em Londres, no dia 8 de janeiro de 1947. Desde a infân­cia, vivendo próximo da frontei­ra das zonas londrinas do sul de Brixton e Stockwell, já demons­trava talento para cantar e gritar aos seis anos de idade, quando frequentava a Stockwell Infants School. Londres na década de 50 e 60, como alguns já sabem, era uma cidade de ruas sujas, precária e feia, “o pior lugar pos­sível para uma criança nascer”, disse um vizinho de Bowie em uma das biografias escritas so­bre o autor. Em um lugar féti­do como este, o pequeno David, com sua cantoria e gritaria, é como uma estrela pequeno ilu­minando o céu escuro.

Pode se dizer que o primei­ro contato com a música foi por volta de 1953, quando se mudou junto com a família para um su­búrbio próximo, em Bromley, e começou a cantar no coral da es­cola Burnt Ash Junior School, isso aos nove anos de idade. Neste mesmo ano o interesse pela mú­sica ganhou mais força dentro de Bowie. O pai trouxe de uma via­gem discos de vinis de uma co­leção americana, entre eles The Platters, Fats Domino, Elvis Pres­ley e Little Richard. Em uma das biografias de Bowie, ele afirma que ao ouvir Tutti Frutti, canta­da por Richard, disse mais tar­de: “Eu tinha escutado a voz de Deus.” A primeira banda Bowie foi formada por volta de 1962, quando David Bowie tinha 15 anos de idade. Os Kon-rads to­cavam guitarra baseada no rock and roll para jovens e casamen­tos. No ano seguinte Bowie deixa escola e afirma aos pais que seu sonho é tornar-se uma estrela do rock. Em resposta a mãe arran­jou para ele um emprego como companheiro de eletricista.

SONHO ESTRELAR

Apesar disso, o sonho conti­nuou vivo e, logo depois, o jovem deixou a Kon-rads para formar uma nova banda, chamada King Bees. Escreveu uma carta para o empresário inglês John Bloom, mas não obteve resposta. John encaminhou o convite para Les­lie Conn, parceiro de Dick James, que resolveu contratar Bowie. Com o auxílio de Coon, Bowie lança a primeira single chamada Liza Jane, que não teve sucesso comercial. Vários infortúnios fo­ram minando o sonho de Bowie. Por conta da falta de sucesso co­mercial, o músico recorreu à pu­blicidade para ganhar a vida. Em 1969 participou do filme Love You till Tuesday (Amarei Você até Terça-Feira), concebido para promover seu repertório. O fil­me foi lançado só em 1984, mas contou com um dos maiores su­cessos de Bowie. “Esse filme de vocês – Eu tenho uma nova can­ção pare ele”, disse Bowie ao en­tregar uma demo com a músi­ca Space Oddity, lançada meses depois para coincidir com o pri­meiro pouso na lua. Space Oddi­ty é, até hoje, uma das canções mais representativas da carreira de David Bowie.

CAMALEÃO

Um dos fatores que coloca David Bowie como um dos ar­tistas mais performáticos da música é a utilização da ima­gem como representação da música. Explico: os temas e de­mais motores que influencia­vam a criação musical de Bowie também o transformaram na­quilo, sendo ele uma represen­tação daquilo que cantava. Seu amor pela atuação rendeu per­sonagens criados para a músi­ca. Ele dizia que “fora dos pal­cos sou um robô. No palco eu adquiro emoção. Provavelmen­te por isso que prefiro vestir-me como Ziggy do que como Da­vid”. Ziggy Stardust foi um dos primeiros “personagens” que Bowie deu vida, sendo que al­gumas pessoas próximas afir­mavam que era difícil separar Bowie de Ziggy Stardust. O fi­nal do personagem, ou melhor ,sua “aposentadoria”, ocorreu de forma abrupta e dramática, nos palcos do Hammersmith Odeon, em Londres.

Em 1974 Bowie muda-se para os Estados Unidos, em Nova York. Lança neste ano Diamond Dogs, considerado um misto de soul e funk. Desse álbum sur­giu o projeto musical baseado num futuro selvagem e sedia­do numa cidade pós-apocalíp­tica e a tarefa de musicar o livro 1984, de George Orwell. O disco chegou a primeiro lugar no Rei­no Unido e quinto nos EUA, gra­ças a canções como Rebel Re­bel e Diamond Dogs. Em 1976, um novo álbum e uma nova persona. Station to Station ren­deu o personagem “Thin White Duke”. Visualmente uma exten­são de Thomas Jerome Newton, um extraterrestre retratado no filme The Man Who Fell to Ear­th. O álbum mostra Bowie inte­ressado pelo misticismo, pela Cabala e também pela toxico­dependência que se tornou pú­blica após uma entrevista com Russell Harty. O biógrafo David Buclkey conta que “o cantor não deu nenhum sentido àquela que foi uma entrevista bastante ex­tensa […] Bowie parecia comple­tamente desconexo e mal con­seguia pronunciar uma frase coerente”. Neste ano o músico emagreceu consideravelmen­te, sofreu diversas overdoses e parecia “desconexo” devido ao consumo excessivo de cocaína.

ÚLTIMOS ANOS

A carreira extensa de David Bowie dificilmente poderia ser resumida assim, utilizando um curto espaço. Vários livros, pós­tumos ou lançados quando o autor ainda estava em vida con­tam detalhes de entrevistas, músicas e momentos do músi­co. Sua carreira camaleônica e todas as nuances do seu traba­lho merecem um estudo mais aprofundado. David Bowie, sem dúvida, pode ser conside­rado um dos maiores artistas dos últimos tempos, dividindo posição com cantores que ele mesmo admirava. Isso porque ele sempre esteve em constante mudança, até mesmo nos últi­mos anos de vida.

O último álbum lançado por Bowie foi Blackstar, no dia 8 de janeiro, o sexagésimo nono ani­versário de Bowie, e recebeu uma aclamada crítica em diver­sos países. Bowie faleceu dois dias após lançar o álbum, no dia 10 de janeiro. O produtor do ál­bum, Tony Visconti, contou em entrevista que Blackstar foi pla­nejado por Bowie para ser o seu “canto do cisne”, e um “presente de despedida” para seus fãs an­tes de morrer. Posteriormente, jornalistas e críticos notaram a morte como tema iminente das letras, sendo que a CNN atri­buiu a crítica: “Revela um ho­mem de braços abertos com sua própria mortalidade.” Na sema da morte, as vendas e visualiza­ções de clipes e músicas dispa­raram, fazendo de Bowie o ar­tista mais visualizado em um único dia no Vevo’s, site de com­partilhamento de vídeos.

LENDO COM BOWIE

A literatura foi uma das grandes inspirações de David Bowie. Duncan Jones, filho de David Bowie, resolveu criar um clube de livros pelo seu Twitter a fim de comunicar com os fãs de Bowie sobre o que ele gos­tava de ler. Intitulado David Bowie Book Club, o projeto co­meça com Hawksmoor, premia­do livro de 1985 escrito por Pe­ter Aykroyd. O livro está na lista dos 100 favoritos de Bowie, lan­çada oficialmente no ano de 2013. De acordo com a publica­ção de Jones no Twitter, os fãs que quiserem se juntar ao clube para discutir o livro tinham até dia 1º de fevereiro para lê-lo.

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