Segunda opinião
Redação DM
Publicado em 28 de dezembro de 2017 às 22:01 | Atualizado há 9 anos
Uma pessoa mais bem vivida me disse certa vez que um ano que começa na segunda-feira não é um bom presságio. Na época achei graça do comentário. Hoje noto com alguma preocupação a coincidência para o primeiro dia de 2018 e o que nos espera o próximo ano. Tudo indica que não serão 12 meses fáceis; há muita coisa para acontecer e, no seguir da carruagem, os indícios são sugestivos.
Sempre tive muita crença em anos pares. Por uma feliz coincidência, são anos de frutos a serem colhidos. Ao menos, para mim. Anos ímpares são anos de plantio, de estudo, de reflexão. Para mim é a época na qual a gente se organiza para cumprir uma meta ou retoma projetos que ficaram ociosos por tempo demais. Coisas do acaso, mas gosto de pensar assim. Acaba sendo uma esperança a conta gotas. Como jogar na loteria e sonhar com o resultado.
Não há muita coincidência, verdade seja dita. Tudo o que acontece de bom conosco, na maioria das vezes, é resultado de esforço, planejamento e sacrifício. Raras são as situações que caem no colo da gente de maneira positiva. Acontece às vezes de ser a pessoa ideal no momento ideal. Mas quais as chances de isso se repetir indefinidamente?
Tudo indica que 2018 não será muito fácil. Mais do que uma Copa do Mundo no país de Tchekhov, temos pela frente um processo eleitoral que promete ser turbulento e complicado. Há uma polarização política no país que prejudica a convergência de projetos em comum. Isso não é bom para ninguém. Em nada contribui para a democracia.
Os últimos três anos tem sido duros. Não conheço uma única pessoa que reconheça como fáceis os últimos três ciclos. Já passamos por épocas difíceis, e aos poucos a esperança retoma seu espaço de direito. Há indícios de que as condições gerais têm melhorado, mas o quadro geral ainda é preocupante. Um país que se divide em dois blocos extremos não tende a obter bons resultados.
Fala-se muito em um salvador da pátria. Um líder político que seja capaz de conduzir o país por um longo período de prosperidade. Falta combinar com os russos – e nem se trata da Copa do Mundo. Todas as vezes que se aponta um único indivíduo como fundamento dos rumos da nação o destino é incerto, turbulento e perturbador.
Há uma crescente escalada autoritária e uma irresponsabilidade fiscal cada vez mais evidente nas propostas de parte dos pré-candidatos. Mais do que nunca, precisamos de projetos de nação que dialoguem com amplos setores da sociedade. Estamos em uma encruzilhada enquanto brasileiros: ou chegamos a um entendimento político ou partimos para a aventura de demiurgos da esquerda e da direita. Isso nunca termina bem. Falta-nos serenidade para debater os rumos do país.
O sistema de pesos e contrapesos entre os poderes deve ser observado sempre que há crises no horizonte. Embora a economia tenha sinais de recuperação, há uma profunda cisão política em andamento. Talvez o clima conflituoso das redes sociais esteja ditando o comportamento do cidadão médio. Precisaremos muito de maturidade para atravessar a tempestade que se forma à vista de todos.
Não cabe ao Judiciário usurpar funções do Congresso. O excessivo ativismo do Supremo Tribunal Federal em nome da purificação da vida política nacional é um discurso perigoso, para ficar no mínimo. As estratégias do Executivo para assegurar a governabilidade e a precária noção de alteridade dos congressistas têm sido entraves severos ao desenvolvimento do país.
Não há nenhuma solução mágica ou absoluta no contexto geral para o ano que se aproxima. Há esperança. Torço muito para que todos nós tenhamos serenidade de fazer boas escolhas sem considerar apenas o resultado imediato. Temos que olhar mais para a frente. Pelo menos, mais distante que o ciclo de 12 meses. O fato de 2018 começar em uma segunda-feira não precisa ser um fardo.
Melhor pensar de outra maneira: um professor do ginásio, o Pimenta, disse em uma de suas geniais aulas de matemática que o melhor dia da semana era a segunda-feira. Meus colegas, incrédulos com a afirmação, tripudiaram do mestre. Até que alguém quis saber o porquê daquela frase. Com sua proverbial sabedoria, o professor Primeira concluiu: “Simplesmente porque é o dia mais longe da próxima segunda.” O homem é um sábio.
(Victor Hugo Lopes, jornalista)