Meu pai na milenar e eterna sabedoria das sementes
Redação DM
Publicado em 26 de dezembro de 2017 às 22:27 | Atualizado há 9 anos
Eu vim do chão, no vermelho da terra eu me criei. Meus pais foram raízes vigorosas que se lançaram das profundezas ignotas onde me firmei.
Meus pais foram duas grandes árvores, de longas raízes, que me sustentaram nesse chão. Um ipê e uma caraíba, sempre floridos, na ternura de meu ser.
Minha mãe teve o coração goiano carregado de telurismo e de sentimento arraigado às suas origens rurais. Mulher-chão, mulher-terra, impregnada do perfume suave do campo e suas tantas plantinhas do terreiro varrido.
Tão sublime foi na sua simplicidade de dona de casa, esposa e mãe, em sua laboriosa cozinha, sempre fumegante, no calor do fogão de lenha que é a imagem da própria vida que crepita em nós.
Sua imagem agora límpida e suave, desarraigada do sofrimento final a que eu era induzido a lembrar em sofrimento, transformou-se em uma aura bucólica de uma quase completa alegria porque, pelo amor de Cristo, tudo foi cumprido e consumado no calor ameno do afeto que nos uniu para a eternidade.
Ela era a luz que Luzia o nosso caminho.
As lembranças abraçam o espaço silente e marcam a definitiva separação. Não há mais o radinho ligado nas novenas da Rádio Difusora de Goiânia, no programa “No mourão da porteira”, o “A nós descei Divina Luz” de suas missas ou as “Saudades de matão” do meu pai; o pedir a bênção para dormir e acordar, onde ficou tudo isso?
O sentido estava na terra sempre fértil de nossas afeições. O chão querido de nossa existência.
Tudo isso é o chão da vida. Por muito longe que a vida nos leve, isso fica; é a vida; a vida que pulsa e palpita nos menores gestos, nas menores frases, na felicidade que há em cada dia que nós, muitas vezes, não percebemos. Mas, sua imagem para mim tem cheiro, sabores, ruídos, sons e tantas coisas que aguçam a lembrança e mesmo que eu chore ao lembrar-me disso em algum dia de tristeza imensa que se derrama pelos olhos, não faz mal. Tudo seja louvado por Deus porque um dia entenderemos os mistérios que cercam a vida e as suas contradições.
Haverá sempre um trieiro que me unirá à terra de minha mãe e de meu pai. Um caminho largo e bonito também, orlado de florzinhas do campo e que têm odores diversos e recordações pungentes. Haverá muitas manhãs de sol lá na roça que invadirá nossa velha casa, iluminando o terreiro varrido e o branco das florzinhas “boas noites”, molhadas pelo orvalho e um vento gracioso, que fará bater as janelas de madeira, anunciando um tempo de renovação pelo amor e pela saudade.
Minha mãe e meu pai são, agora, doce lembrança, doída lembrança, amarga certeza da morte. Mas é tão viva que, em certos dias, acomete-me uma vontade imensa de buscar aquela estrada vermelha das roças em que vivemos e vê-los surgir no retângulo luminoso da porta com os braços abertos me esperando para me dar a bênção.
Não faz mal a distância, não faz mal a saudade. Tudo no mundo é assim. Prefiro vê-los livres de tantos sofrimentos da carne a tê-los comigo daquela maneira dolorosa. Tudo passou. Lembro-me agora deles diluídos nessa paisagem tão suave do cerrado, em cada árvore bonita, em cada flor do campo, em cada manhã de sol. Eles se pulverizaram em cada coisa bela e evocativa referente ao chão, que quase sempre vejo nessas estradas do mundo de Goiás.
Sou feliz nas minhas lembranças, porque, nesse mundo, Deus me deu uma mãe e um pai!
É inesquecível o chão das histórias de meus pais. Ela foi rosa entre rosas, a minha rosa. Ele, uma árvore de longas raízes resistentes, E que eles recebam, docemente, o pensamento de amor com que me embalaram um dia, agora frutificado em muitas flores do campo, para dizer-lhes que em meu coração há um canteiro de saudades que vicejam lembranças saudosas de quem, com amor infinito, jamais os esqueceu; porque não se esquece o chão em que se sustenta a raiz mais firme de nossas intenções
Assim, por eles, por minha mãe e meu pai, eu amo a terra e tudo que nela há; amo a terra, como chão, como ofertório; como dádiva e oferecimento; como poeira e como lama; como pó, de onde viemos e para onde vamos, toda a humanidade, pressurosa e aflita, caminha, às vezes sem rumo, para o pó eterno e milenar.
Quero ser como a terra; tornando-me essa cor bonita que vejo no chão; terra de várias tonalidades, preta, marrom, vermelha, ocre, amarelada; terra como barro, tabatinga da beira do rio, das olarias, das fornalhas, dos canaviais e arrozais maduros em cachos dourados. Terra como areia, multicolor, suas cintilações de mica, brilhantes ao sol.
Vejo meu pai, agora, como um grande angico, de casca resistente e cerne rijo, que aguentou os safanões das trovoadas que a vida oferece, mas sempre com o colorido verde das folhas balançantes. Um angico lá da roça, que gosto de contemplar. Vendo-o penso: Esse é o meu pai. O meu pai agora, que se misturou ao chão da dor da minha saudade.
Nunca estudou Filosofia o meu pai. Do muito que aprendeu, o sol, a lua, a chuva, os amanheceres, as curicacas, as galinhas cantadeiras, as vacas submissas, os cavalos amansados ensinaram; todos eles, doutos mestres do tempo e do infinito. E aprendeu Sociologia com os seus compadres e Psicologia com os errados do mundo; conheceu Antropologia na descoberta do valor dos outros e Botânica no conhecimento de tantas plantas do mato e seus valores ecológicos, terapêuticos e medicinais.
Sua Faculdade foi a natureza, bravia e misteriosa; cujas páginas teóricas foram se abrindo em cada manhã de chuva; de chuva fininha, cujos pingos foram letras que se constituíram sentido e significado. Cada folha virada do livro da vida trouxe um ensinamento diferente, cujo diploma está presente no saber agregado, que ninguém lhe tirou até o fim.
Sabedoria da calma, da temperança, da confiança e do necessário silêncio, que, tantas vezes, eu tenho inveja.
Tive inveja da segurança e da confiança inabalável do meu pai no acontecer das coisas, ou da naturalidade que ele observava em tudo, sem se espantar. Atitudes que traduziam-se numa aceitação pacífica e alegre dos fatos. Nunca um grito, nunca a exasperação, nunca um descontrole. Jamais ouvi de meu pai uma palavra intempestiva, um gesto brusco, uma agressão, uma palavra de revolta. Sua voz era até baixa, como se, falando, já ensinasse.
Teimosia sim, talvez fosse o seu defeito. Cabeça dura, que tantas vezes não aceitava o que falávamos e, de ouvidos moucos, seguia. Mas, hoje, vejo que, mesmo assim, se constituiu virtude. Para que a obediência cega aos preceitos e normas? Sábio mesmo o meu pai. Viveu apenas e isso lhe bastava.
Suave e manso como a chuva de dezembro ele seguia. Nem os ventos fortes da enfermidade o fizeram soçobrar. Trêmulo tantas vezes, de mãos vacilantes, segurou as rédeas da vida. Altaneiro e altivo, de cabelos brancos como pingos do orvalho sobre os campos; seguiu ele, com seus diplomas de mestre, de doutor; cuja faculdade teve por currículo muitas carpinas, roçadas, ordenhas, plantações, colheitas, farturas de um tempo esquecido; cuja grade curricular maior era a coragem.
Meu pai era um grande angico, que espalhou sementes ao vento, e estas, curiosas e festivas; celebraram vida em outras searas. Seu saber para a vida e para a realidade, se destacava na alegria de servir, de ser útil; ao fazer o papel de provedor, alegre e satisfeito, ao lembrar a música da família: “Que um homem carregue nos ombros a graça de um pai”.
Nesse mundo tenho o orgulho de dizer que, na minha estrada, tive e tenho a sombra protetora de um pai!
Sua imagem se derrama em mim, na sombra da casa antiga, de janelões, na bica d’água, no paiol de lascas de aroeira por sobre o chiqueiro como porão, de estiva, a casinha da carroça, o varandado da trempe de torrar farinha e da fornalha de fazer sabão, o galinheiro, o forno pançudo, de pedra e tijolos, o brejo mais abaixo, os pastos de “trabanda”, a estradinha de terra, o mato, as roças. Tudo como pedaço de um chão. Um chão de dentro, carregado de poesia.
E a casinha das ferramentas, da lenha seca para o tempo da chuva? As enxadas penduradas, marcas “duas caras”, “jacaré”, depois a “tramontina”; a foice marca “JF”, os cabos de ferramentas, retirados em santa lua, do guatambu do mato, o cutelo, os facões, cordas, o sedenho, os laços, os arreios. As cangalhas do carro de boi, a arriata para a carroça. Pareço sentir o cheiro daquela casinha que sempre tinha, também, uma galinha chocando, uma cachorra parida, uma gata e sua ninhada de gatinhos a pular, ariscos “riscando fósforo” a cada tentativa de pegá-los.
Ao lado dela havia a cisterna com sua casinha, a banca de espremer o queijo, os latões para o leite, um jirau para lavar roupa e logo abaixo a bica d´água de aroeira, sempre a derramar o barulho incessante da água limpinha do rego.
E meu pai, assim como minha mãe, me ensinou muito dos mistérios do chão. Curioso e atento, pude certificar do valor dos saberes antigos, na certeza de que nenhuma tecnologia consegue explicar melhor os mistérios das coisas, como por exemplo, por que uma folha se assemelha a uma mão aberta, colhendo os toques das auroras?
E meu pai, com o seu coração de terra, me abriu portas de um mundo ignoto. Aprendi com os mistérios do tempo, o conhecimento que o livro não ensina. Comecei pela lua misteriosa e poética, tão longe, tão ebúrnea, tão vacilante; motivo poético de tantos vates que, no passado, contemplaram-na, e, chorando, derramaram suas dores. Quem, hoje, chora ante um luar que se desmancha em cores dúbias no existir das coisas?
Ficou no meu pai como síntese de tudo. O símbolo de terra, hoje, para mim continua sendo o meu pai. Proseador, alegre, conversado, mas na medida certa. Feliz na sua simplicidade, pouco esperava da vida, no muito pouco que, de fato, ela nos oferece. Paciente, voz mansa e de temperança, meu pai criou filhos, criou sobrinhos, fez forno de barro e fornalha de sabão, fez casinha de lenha, acendendo a chama sempre viva de seu ideal de servir e amar.
Pai amoroso, pai amigo, pai presente; arrebentou pipoca à noite, batendo a tampa da panela, dançando, assou mandioca e batata, fez pé de moleque e rapadura como ninguém. Nas noites caladas da roça, suas histórias de assombração eram o meu terror de criança. Cansado da lida do dia, ainda nos levava à privada no terreiro da roça com toda paciência quando sempre minha mãe, entre resmungos, se recusava.
Meu pai adoçou seu tempo com as garapas dos sonhos nas engenhocas da vida. Colheu frutos de um já longo plantio. Já idoso amava a terra, amava o trabalho, amava servir, misturava-se ao chão, quando colhia couves e alfaces e seus remédios de horta. Enfrentou várias enfermidades, pisou o solo ardente da dor e, muitas vezes, esteve perto do fim, mas Deus queria muito mais dele ainda entre nós. Sua fé e resignação o salvaram tantas vezes e o deixaram descansar suavemente na sua casa.
Meu pai. Nosso pai. Elo poderoso de nossa corrente. As pequeninas flores das vassourinhas onde ele caminhou, são, hoje, um belo tapete aveludado, onde repousa os seus pés cansados da luta. Meu pai teve uma velhice tranquila e calma, iluminada pelo seu trabalho; suas danças, seus forrós, seu grupo de amigos do truco, suas visitas, suas bicicletas; suas missas, andores, novenas, os programas de rádio e de TV. Meu pai simples assim, foi um doutor, com as suas pequeninas virtudes; foi quem, de fato, conheceu a plenitude.
No fundo do meu coração, acho que meu pai é síntese de tudo. Presença viva, presente, mesmo após a morte, ele é a terra que sustenta meus incertos passos na aridez desse mundo. Ele me mostra que não me livro do passado e levo sempre comigo o Lugar.
Ele, com seus saberes e suas crenças, seus mundos e seus sertões, mostrou-me o Liso do Sussuarão e a Pasárgada com que todos sonham nos livros da vida. Meu pai me ensinou muitas geografias de mundos reais e de mundos imaginários, tecidas sob a égide do sertão. Na cartografia do seu ser, há tantos caminhos, paisagens e lugares de indeléveis belezas.
No inventário dessas cinzas do Cerrado ainda encontro um broto verde de poética presença, que se resumia na simples existência, firme e altaneira, de meu pai! O que aprendi nas escolas e faculdades foram apenas sequência. Meu pai me ensinou o chão, me mostrou o definitivo, que nenhum livro é capaz de elucidar e que apenas a terra frutifica e dá sentido. Daí meu amor pelo chão que é a essência do meu pai.
Meu pai me disse do valor da lua, cuja força é sobrenatural. “A lua manda em tudo; nas plantas, nas águas, nas chuvas, nos bichos, nas colheitas, até no corte do nosso cabelo”. Falava da força do trabalho dos homens de bom coração, como ele, os agricultores que semeiam vida e esperança.
Muito me ensinou meu pai sobre a lida com os “trens de comer”, já que a labuta pelo sustento sem nenhuma tecnologia, era árdua. Garantir o arroz, o feijão, o milho, a mandioca, as “misturas”, já dava status de boa vida àquela gente sagaz e dominante do passado. Quem comia bem, enchia o bucho, era rico! Tuia cheia, sacos de arroz e mantimentos na sala, amontoados, eram prova cabal de homem trabalhador.
Como homem desse tempo, meu pai gostava de despensa cheia. Fartura.
Serviço mais duro, segundo ele, era a derrubada da mata, a força na derrubada, a machado, de grandes árvores e arbustos. Depois, esperava secar, queimava a lenha e arrancava os tocos ou plantava entre eles; destocava na enxada, na foice e no machado. Na matemática da roça, uma quarta de chão era cinquenta braças; uma braça era dez palmos; um alqueire era cem braças.
As roças para o sustento eram divididas dentro do chão. Um pedaço para o arroz, para o milho junto com o feijão, para a mandioca, para as hortaliças, em meio a esses, a melancia, a abóbora, o quiabo, o jiló; tudo esquadrinhado, às vezes separado por talhões de milho, que serviam como cerca natural. Era bonita uma cerca verde de milho separando roças. Bandeiras verdes que desfraldavam alegres nas manhãs de dezembro.
Muitas vezes a terra era preparada nos arados rústicos, chamados “cultivador”, “carpideira”, “tombador”; de madeira e base de ferro; pesados e complicados; puxados por bois e cavalos. Era serviço das crianças puxar os animais para que eles não desviassem da “rua” da plantação. Iam elas na frente, puxando as rédeas ou montados sobre os mesmos. Às vezes, o cavalo, o boi ou o burro dava um safanão para se coçar e jogava longe a criança, dada a sua força. Eu mesmo, levei cada tombo!
Esses arados serviam tanto para abrir as valas para plantar, assim como para limpar a roça, jogar terra no pé da planta e arrancar as pragas. No varandado da carroça ficavam guardados esses arados, geralmente caros, untados a óleo e bem cuidados. Ter um desses era investimento.
Assim, no dizer de meu pai, coisas de raiz, debaixo da terra, devem ser plantadas na lua minguante, senão ficam aguadas e apodrecem antes do amadurecer. Coisas que frutificam por sobre a terra, precisam ser plantadas na força da lua nova, para ganharem viço e robustez, e, o milho, diferentemente, sempre na lua cheia; senão as espigas ficam falhadas, banguelinhas, apenas no sabugo, iguais aquelas que, quando tiramos as palhas, só têm cabelo! Os meses certos para o plantio são outubro e novembro, nas luas desses meses, na força das primeiras chuvas e, as coisas de raiz, devem ser plantadas na minguante de outubro, que é a ideal.
Outubro é o mês da planta, com trovões surdos e profundos blururum blururum, ecoando longe, detrás dos morros verdejantes, do revoo de saúva e da correição de formiga, anúncios emblemáticos de chuva.
Na força da lua cheia de outubro o milho deve ser plantado, no preparo da terra com o arado ou na roça destocada. Também, as covas abertas na enxada, precisam receber de quatro a cinco grãos sadios, curtidos na cinza e no fumo, defensivos naturais. A distância entre as covas é sempre de cinco palmos e de sete palmos entre as ruas da plantação para, depois, haver espaço para plantar o feijão. Assim que nasce, junto com as pragas, deve-se fazer uma limpa, quando cresce, daí um mês e meio, outra limpa. Quando as folhas do milho cobrem a rua, a própria sombra aniquila a praga.
O prazo para a pamonha é 90 dias, três meses e a roça do milho, querendo Deus e a chuva ajudando, emboneca e perfuma o ambiente. Bonequinhas de todo jeito, de cabelos amarelos, vermelhos, pintados. Pamonha é símbolo de reunião, congraçamento, fartura, alegria; tachadas cheirosas perfumando as velhas casas. Junto à pamonha vinha o milho refogado, o cural, o bolinho de milho com queijo, o angu, depois a canjica e a farinha de milho. Milho é purissignificativo e vai de encontro ao ditado do meu pai: “Quem planta mio, cria os fio”.
Pamonhada, no estudo gramatical, deveria ser substantivo coletivo de goiano!
A casa virava uma confusão de gente descascando milho, tirando os cabelos, ralando, temperando, amarrando pamonha; fazendo cural, bolinho de milho, em meio a conversas, risos e muita alegria; muita trabalheira, canseira de dia inteiro, mas o que valia a pena era todos juntos, trabalhando e comendo.
Para o milho seco, alimento da criação, o prazo é 120 dias, querendo Deus. Passado o tempo da pamonhada, já se plantava, na minguante de janeiro, entre as ruas, o feijão carioca, roxinho, amarelo, preto e um graúdo, amarelão, alcunhado, entre risos, e se colhia no começo da seca, no mês de abril, também na minguante. Milho seco ia para o paiol e para a boca e bico gulosos dos porcos, vacas e os bicos salientes das galinhas, patos e cocás.
Do milho seco separava-se em atilhos, medida de quatro espigas. Quarenta atilhos davam um balaio cheio de milho e quarenta jacás era a medida de um “carro de milho”. Na negociação daqueles tempos, vendia-se um “carro de milho”, bem lembrado, carro de boi. Para fazer a farinha de milho era outro trabalho pesado e cansativo, na lavagem, curtição (em cochos de pau, geralmente tamboril), ou gamelas, separação, socagem e quebra do milho, peneirar a quirera e depois torrar em fornos de pedra ou de ferro, extremamente aquecidos.
Na variação do milho, sempre havia o de pipoca, para a alegria da meninada. Pequeno, miúdo; era plantado, colhido e depois guardado na espiga, para só ser debulhado na hora de arrebentar a pipoca; geralmente à noite, no sossego da casa.
O milho já seco era quebrado, onde, por ele, enramava o feijão, que, depois de arrancado, era colocado sobre um pano grosso de algodão, tecido em casa, bem mais tarde a lona, no terreiro varrido da casa. Esse pano grande de algodão era feito pelas mulheres, assim como toda a roupa de cama, mesa e banho. Cobriam o pelado dos filhos e do marido. Aqueciam no frio, com as belas cobertas de estilos variados.
E assim, na sabedoria de meu pai, com seu diploma de doutor em natureza, meus olhos se extasiam na contemplação sensível do mundo da roça. Meu professor da terra, o meu pai.
Não quero me lembrar de seu sofrimento final. Quero pensar nele junto à terra, junto ao chão, às coisas que amava. Ele dizia querer morrer na sua casinha, junto ao seu quintal todo florido e perfumado pelas jabuticabeiras, as canas caianas, o pé de ingá balançante, o pé de lima de bico, as latadas de cebolinha e pitangas do campo. Mesmo sofrendo no hospital, pode voltar no último dia, e, no calor de sua caminha, entre os seres que amava, mulher, filhos e netos, o perfume das flores por ele plantadas; os gatinhos estendidos no quintal ladrilhado, sob uma chuvinha de dezembro, bem mansa e suave, Deus o acolheu sem nenhum sofrimento; apenas um leve sono de quem descansa de um longo caminho, com mãos semeadoras de paz e ternura.
Eu te amo meu pai! Te amo tanto!
(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, especialista em Literatura pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutor em Geografia pela UFG, pós-doutorando em Geografia pela USP, professor, poeta – bentofleury@hotmail.com)