Brasil

Um deserto de ideias

Redação DM

Publicado em 22 de novembro de 2017 às 04:04 | Atualizado há 9 anos

O que Bolsonaro pensa do Brasil?

Que ideia tem trazido ao de­bate nacional?

E Lula, conhecido pela expres­são farta, sempre pronto para atacar adversários e defender o “petismo salvador da Pátria”, que propostas tem apresentado para melhorar a economia ou os serviços básicos de respon­sabilidade do Estado?

O que pensam Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin ou, ainda, o animador de audi­tório Luciano Huck?

Quem souber de uma boa sa­cada, um projeto interessante, uma proposta crível e factível que tenha sido expressa por um des­ses pré-candidatos à presidên­cia da República, está convidado a trazê-la ao conhecimento pú­blico. O fato é que, até esse mo­mento, sobram blábláblás e falta algo inovador, capaz de chamar a atenção e gerar interesse pela originalidade.

Se as campanhas não con­seguem empolgar plateias, seja por ausência de novidade, seja pela sensação de que as propos­tas mais parecem uma teia de re­talhos e fragmentos, dispostos um ao lado do outro sobre o pano de fundo de nossa realidade, imagi­nem as besteiras que surgem nes­se momento.

De Lula em suas caravanas, brotam roças de demagogia, sob um tiroteio ao atual governo, para ele o responsável pelo descalabro que afundou o país nos últimos anos. Como é sabido, a defesa do Lula é o ataque.

O petismo-lulismo, inspiração do dilmismo, afundou a Nação.

Os bolsões que receberam da era petista melhorias para mudar de patamar na pirâmide social aca­baram voltando ao estágio inicial.

De Bolsonaro, não se espera grandes coisas. Ele mesmo reco­nhece que ignora fundamentos de economia. Claro, é capaz de iden­tificar o mapa do Brasil, mas não se cobre dele conhecimento pro­fundo sobre o Nordeste, o Norte, o Centro-Oeste e o Sul.

Nesse instante em que even­tuais candidatos à presidência da República começam a povoar es­paços midiáticos com suas ideias (???), seria oportuno virem à públi­co para oferecer pautas densas que chamem a atenção pela relevância e oportunidade. Nada disso se vê.

Áreas vitais como saúde, segu­rança, educação ou polêmicas so­bre as reformas (política, previden­ciária, tributária) ganham adendos superficiais e bordões escondidos na frouxa promessa “vamos con­tinuar isso e aquilo, fazer mais e melhor”. Nunca foi tão importan­te para o Brasil debater seu futuro.

O atual governo se empenha em desamarrar as reformas ne­cessárias à alavancagem do país. Por que os pré-candidatos não se voltam ao debate substanti­vo em torno dessas reformas, trazendo subsídios que possam colaborar com o debate, em vez de apenas se posicionar contra ou a favor?

Partidos de oposição, sem en­xergar o mérito, tratam a reforma trabalhista, por exemplo, como um atraso, quando ela coloca o trabalho na linha dos avanços.

VELHO ROTEIRO

O fato é que, nos últimos tem­pos, o clima eleitoral puxou novos adereços, decorrentes da tecnolo­gia da informação e sob a fosfores­cência do Estado-espetáculo, onde os atores procuram esmerar-se na estética e esquecendo a semântica.

Seu esforço consiste em apa­recer bem aos olhos dos eleitores de 2018, recitando slogans, deco­rado frases de efeito, declaman­do uma linguagem tatibitate, sem consistência. A campanha eleito­ral de 2018 já começou, e o Tribu­nal Superior Eleitoral ainda não dá conta do fato.

Pré-candidatos circulam para cima e para baixo, fazem carava­nas, são recebidos por multidões em aeroportos, usando artifícios de um marketing que parece sa­turado: militantes com vestes colo­ridas, passeatas, carros de som en­toando refrãos, flagrantes de ruas tomadas pelas mobilizações.

REDES SOCIAIS

As redes sociais formam o novo instrumento que as campanhas eleitorais estão adicionando ao ar­senal de marketing. O acesso do eleitor aos candidatos e a seus exér­citos se dá por meio do uso de ca­nais eletrônicos da internet.

Da naturalidade das ruas do passado para o artificialismo dos laboratórios do marketing – essa é a mudança nas campanhas. Abertas, emotivas, participativas tornaram-se fechadas, frias, racio­nais. Em 1950, Getúlio Vargas fez uma das mais brilhantes campa­nhas da história eleitoral.

Em 10 de agosto, em São Paulo, pronunciava um discurso versan­do sobre o poderio da terra bandei­rante, o dever da União para com o Estado, o saneamento financeiro do País, as diretrizes para uma po­lítica industrial e as bases do traba­lhismo, concluindo com a exalta­ção do vínculo entre democracia política e democracia econômica.

Regiões e cidades recebiam ex­pressão própria, com diagnósti­cos e solução para os problemas. O eixo do discurso era a descen­tralização.

Na peroração de São Borja, em 30 de setembro, Vargas confessa­va a receita do sucesso: “Da vasti­dão amazônica a estas fronteiras meridionais, das populações de beira-mar às do Brasil central, o povo me acolheu carinhosamen­te, e mais me falou dele do que eu de mim, transmitindo-me as suas queixas, as amarguras e di­ficuldades atuais.” Ouvir o povo, eis o mote.

Quem ouve o povo hoje?

Passemos aos tempos de Jus­celino Kubitschek. Na campanha de 1955, fez seis viagens pelo País, percorrendo 168 municípios num DC-3, equipado com escrivaninha e cama, e adotando a mesma estra­tégia de Vargas, ou seja, combina­va temas gerais com específicos.

Os roteiros cobriam cidades e capitais próximas, permitindo a ele conhecer e estudar as ques­tões regionais. Grupos de mobi­lização puxavam o povo para as ruas. As campanhas arrebanha­vam multidões. Os comícios ter­minavam sempre com pergun­tas formuladas por ouvintes, em “diálogo com o povo”.

As temáticas, entremeando situações nacionais e locais, ti­nham como foco o desenvolvi­mentismo, a partir das áreas de energia e transportes, com tex­tos elaborados por figuras tarim­badas, como o poeta Augusto Frederico Schmidt, o romancis­ta Autran Dourado e os jornalis­tas Álvaro Lins, Horácio de Carva­lho e Danton Jobim, entre outros.

Hoje, essa tarefa é de marque­teiros, muitos sem preparo.

Hoje, a descrença e a desmo­tivação do eleitorado, a pasteuri­zação ideológica, o declínio dos partidos e o distanciamento en­tre a esfera política e a esfera social mancham a moldura eleitoral. Se o país recuou no campo das gran­des ideias, avançou nas técnicas de engodo.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

 


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