Lili
Redação DM
Publicado em 12 de julho de 2017 às 00:05 | Atualizado há 9 anos
Senhor Delegado.
O senhor tem que dar um jeito na Lili. Ontem, por volta das 21:00 h, com certeza aproveitando o restinho do feriado, ela foi com o pai e a mãe ali para o BAR DA ESQUINA, e aprontou lá o maior regaço. Não sobrou um só taco de sinuca inteiro. Foram todos, literalmente reduzidos a cacos e cavacos nas cabeças e cacundas de todo mundo. Vou falar, mas o senhor não vai acreditar: se a luz dos olhos de Vossa Senhoria lá estivesse, assaz estarrecida haveria de ver, voando pelos ares, de norte a sul e de leste a oeste, até mesas de sinuca arremessadas nas cabeças uns dos outros. Coisa mais horrorosa.
E na do coitado do Lelé, precisamente o pai da Lilli – pivô de toda aquela confusão – uma assaz infeliz garrafa de cerveja teve o mesmo destino que teve aqueles pobres tacos. Virou só cacos. Fez-lhe grande rombo no couro cabeludo. E nas suas costas, o golpe de uma faca. E dizem que essa lâmina, no momento em que operava, estava nas mãos do dono da mesma retro-citada empresa: o BAR DA ESQUINA, sediada igualmente na circunscrição do 3º DP de Aparecida, do qual Vossa Senhoria é o bravo, intrépido, e mui competente titular.
Doutor Ovídio, tudo começou quando uma dançarina desajeitada esbarrou…
Sim, porque no BAR DA ESQUINA se bebe e se dança também.
Pois então, essa bailarina ‘trapalhona teve a malfadada sorte de, bruscamente, bater a bunda na cadeira da mãe da Lili, gênese, como já se disse, de todo aquele meu-deus-do-céu-o-quê-qué-isso-gente. O Lelé, bravo e mui dedicado pai da Lili, ficou mui nervoso com aqueles maus jeitos. E foi na bucha tirar satisfação com a bund… quer dizer: com a bailarina.
– Oh, sirigaita! ‘Cê não tem outro lugar pra rebolar não?!
A Lalá, mãe da Lili entrou no meio e não deixou:
– Foi sem querer, meu bem! A moça não viu!
E enquanto assim tentava contemporizar e aplacar a raiva do pai da Lili o dono do bar e da bund… quer dizer: da bailarina trapalhona também chegou pra tirar, por sua vez, com ele a devida satisfação também.
Depois de trocada boa conta de verbos cheinhos de ferinas farpas o empresário decidiu encerrar o expediente da casa naquele momento mesmo. Mandou todo mundo ir embora pro meio dos quintos. Mas a pouco de ter baixado até a última porta, e haver, a mãe da Lili, colocado longe um do outro os dois que se estranharam, a confusão recomeçou… outra vez! Agora do lado de fora da firma. Foi quando aconteceram a facada e a garrafada.
Data Venia, Senhor Delegado, este mui cioso escrivão de seu cargo, para poupar-lhe muita fadiga, avisa logo a Vossa Senhoria, que não adianta mandar intimação pra Lili não. Deixa ela fora disso. A moça não sabe ler. Nem escrever. Não sabe assinar, sequer com as digitais do seu polegar. Oriunda das abençoadas entranhas de sua mãe ela chegou aqui neste mundo velho e feio, cheio de muita guerra, ‘ind’agorinha, Senhor Delegado! Hoje mesmo foi que chegou às medidas de trinta dias de vida.
ADENDO
Data Venia mais uma vez, Autoridade, esse vosso escriba, temendo que os olhos de Vossa Senhoria, por mais argutos que sejam, e por mais que estejam sendo auxiliados por um muito bom e eficiente par de óculos não tenham, mesmo assim, decifrado as pequeninas letras emboladas, vazadas neste pergaminho pela nossa mui preguiçosa impressora EPSON FX-2180 – ah… que saudades das jurássicas Olivetti… – então, por causa tanta repete aqui neste ADENDO, agora em DINOSSÁURICAS proporções, a idade daquela pequerrucha: UM MÊS, senhor Delegado! Lili não tem ainda, quiçá, trinta dias de vida vividos!! A mamãe dela ainda está naqueles dias de resguardo. Lá no BAR DA ESQUINA.
(Francisco de Oliveira Santos, escrivão)