Tribunal de barbearia
Redação DM
Publicado em 11 de julho de 2017 às 01:30 | Atualizado há 9 anos
Barba. Cabelo. E vida dos outros. Que combinação! Olhando de dentro é que se percebe, lá fora, que o outro existe, tem história, tem defeitos e qualidades – muito mais defeitos que qualidades para a turma da afamada Barbearia do Olavo, a bem da mais pura verdade. A avenida larga, de blocos de cimento, é o cenário preferido aos olhos dos que lá esperam para dar um trato no visual. E nisso, jogar conversa fora, papear à toa.
Numa sexta-feira, comecinho de mês, o vaivém de gente aumentava. Muita gente. Gente a cavalo, a pé, de carro, de moto, de carroça. Gente de bicicleta, de skate, de muleta. Gente lá fora espreitada meticulosamente pela gente de dentro da barbearia. Comentários prontos para os transeuntes. Se passava João, isso. Se passava Jorge, aquilo. Passando Marcos ou José ou Jerônimo ou Pedro ou Felisbino, sobre todos eles, comentários azedos, muitos indizíveis. Os pescoços torciam-se e esticavam-se lá dentro da barbearia e a língua coçava para falar mal dos que iam lá fora. Acerca das mulheres, há de se dizer, havia certa medida de recato nas considerações, falando baixinho, um no ouvido do outro. Quanto aos homens, não havia cerimônia alguma.
Até que, lá pelas tantas da tarde, passou o Bira. Para quê?
– Ó, espia o Bira passando acolá! Ei, Bira! – gritou Ananias de dentro da barbearia.
– Aô, Bira velho! – emendou Zico.
Bira acenou um joia discretamente, olhando de canto de olho, fingindo não ser com ele. Nada disse nem fez menção de dizer. Tampouco haveria motivo para frear e dar maior atenção aos homens da barbearia. Seguiu o caminho, alargando os passos.
– Bira custoso. Ele deu um tombo num monte de gente com uns cheques aí.
– Bira é bom – discordou Zico.
– Bom? Ele é cheio de rolo, ouvi falar. Não vale nem o sal do batizado. Tem cobrador batendo na casa dele toda hora.
– Ele é bom – insistiu Zico.
– Bom? O carro que ele anda é finanzão!
– Ele é bom. Ruim, Ananias, foi a parteira dele.
E riram todos gostosamente. Mesmo os que estavam despercebidos, folheando revistas antigas, caíram na gaitada.
– Não, não! A parteira foi boa – discordou Ananias. – Na verdade, ruim foi o cavalo que levou a parteira, nem para o bicho empacar.
E riam mais. Tinha um com as veias do pescoço em tempo de arrebentar de tanto rir.
Olavo, o barbeiro, depois de rir, talvez um pouco menos que os outros, ouvindo a tudo atento, parou os olhos no nada e, limpando a navalha na toalha sobre os ombros do cliente, saiu decidido em defesa da parteira e do cavalo, dizendo que esses são isentos de alguma culpa no nascimento do Bira.
– O quê? Por quê? – quis saber Ananias.
– Ruim mesmo foi a seriema! – asseverou Olavo.
– Como assim? Está doido, Olavo? Que seriema?
– Sim! A seriema! – confirmou o barbeiro voltando a lâmina na costeleta do freguês.
E ficaram todos pensativos. Silêncio repentino para se buscar resposta.
– Pode falar, Olavo! Ninguém aqui sabe! – disse um, já desacorçoado.
O barbeiro deu uma nova pausa no procedimento, enquanto mudava de lado para fazer a outra costeleta.
– Bira não é ruim – explicava Olavo –, Bira até que é bom. Ruim também não foi a coitada da parteira. Aliás, boazinha ela. E nem o pobre cavalo que a levou para fazer o parto da mãe do Bira foi ruim. Para mim, está todo mundo inocentado definitivamente: Bira, a parteira e o cavalo! Inocentes! Não resta dúvida! Nenhum desses é culpado! Prestem atenção, ruim mesmo, para ser honesto, convenhamos, de rocha, foi ninguém mais, ninguém menos que a danada da seriema que comeu a cobra.
– A cobra? Por que a cobra? O que tem a ver uma coisa com outra? – Zico apressou-se em perguntar.
Novo silêncio se fez, agora mais longo. Nenhum piu. Se caísse uma agulha no chão, poderia facilmente ser ouvido o barulho. Todo mundo parou para esperar o resultado da equação culpista de Olavo sobre o nascimento do Bira.
– Ora, a cobra! – o barbeiro quebrou o silêncio ao mesmo tempo que retirava a lâmina do barbeador para jogá-la fora. – Percebam que a cobra é também criatura das mais inocentes, neste caso. A culpa, meus amigos, de o Bira ter nascido é unicamente da seriema, porque ela comeu a cobra que morderia o cavalo que levou a parteira para que a mãe do Bira desse à luz.
Outra trovoada de risadas. Teve quem não aguentou e rolou no chão de tanto gargalhar. Descontrolada farra, tanta que a costeleta do homem acabou por ficar desigual – quase dois dedos de diferença – e ele nem percebeu. Pagou rindo.
– A orelha do Bira deve estar uma brasa nesta hora, hein! – acrescentou Olavo, tentando minguar a toada da risada, enquanto guardava as notas de dinheiro no bolso. – Quem é o próximo?
(Hailton Correa, licenciado em Letras, agente prisional e escritor)