Cárceres domésticos
Redação DM
Publicado em 6 de junho de 2017 às 03:01 | Atualizado há 1 ano
Nascida em Bruxelas no dia 6 de junho de 1950, Chantal Akerman viveu o auge de sua carreira cinematográfica entre as décadas de 1970 e 80. Seu filme mais conhecido, Jeanne Dielman, lançado em 1975, foi considerado pelo jornal The New York Times “a primeira obra prima do feminino na história do cinema”. Sua obra é feita de propostas narrativas incomuns, planos longos e aproximação com temas como feminismo e diversidade sexual. Também é lembrada pelo domínio sobre o silêncio e pela secura de palavras em seus planos. A cineasta morreu no dia 5 de outubro de 2015. A causa da morte, segundo o jornal francês Le Monde, foi suicídio, desencadeado por depressão. Sua obra continua a ganhar força em todo o mundo.
De acordo com Gwendolyn Audrey Foster, crítica e acadêmica de cinema, a influência de Akerman tem sido substancial no cinema feminista e avant-garde, e que atualmente é uma das autoras mais analisadas do cinema europeu. A autora também destaca a forma suave e despretensiosa da artista de desvendar as possibilidades cinematográficas. “Em trabalhos como Eu tu ele ela (1974), Jeanne Dielman (1975), Os encontros de Anna (1978), Histórias da América (1989) e Do Leste (1993), Akerman continuou a criar novos e inesperados filmes que exploram ideias sobre imagem, observação, espaço, performance e narração, mostrando-se uma praticante dedicada, porém descompromissada do cinema”.
Akerman sempre se recusou a lidar com estereótipos pre-concebidos, e nunca permitiu que seus filmes fossem exibidos em mostras exclusivas, como as de cinema LGBT. Ela não gostava de lançar visões “conclusivas” ao teor de seus filmes em geral. Gostaria que eles fossem tratados como filmes comuns, sem visões taxativas. Esse ponto de vista pode ser comprovado em um comentário da autora sobre seu filme Eu tu ele ela, de 1974, que mostra o amor entre duas mulheres: “Apenas escrevi uma história que gostei. Todo mundo pensava que era algo político, mas era uma história de amor normal. Não estou dizendo que é um filme gay, ou feminista. Se eu disser que é, você pode procurá-lo com noções preconcebidas”.
A jornalista cultural Rachel Donadio, correspondente europeia do The New York Times, escreveu um artigo sobre o trabalho de Akerman em março de 2016. A autora aprofunda-se na maneira como a diretora retrata a relação entre a cozinha e a mulher em seus filmes. “A forma como a cozinha – assim com o quarto – são capazes de confinar mulheres e ao mesmo tempo oferecerem um espaço íntimo que serve como pano de fundo para o drama e o trauma da vida diária é uma questão recorrente no trabalho da autora”. Segundo Rachel Donadio, o confinamento é um dos definidores da obra de Akerman, que era filha de uma polonesa, sobrevivente do holocausto.
As rebordoses das atrocidades da Segunda Guerra Mundial determinaram o clima e as incertezas dos primeiros anos da cineasta, “Nathalia Akerman, a mãe de Chantal, morreu em 2014, aos 86 anos. Seus pais morreram em Auschwits, e o espectro do Holocausto sempre assombrou a visão da diretora”. A morte de sua mãe foi tão impactante, que a diretora cometeu suicídio menos de dois anos depois. Seu último filme, o documentário Não é um filme caseiro, consiste numa série de conversas entre mãe e filha poucos dias antes da morte de Nathalia. De acordo com a irmã da cineasta, ela esteve hospitalizada com depressão e teve alta apenas 10 dias antes de sua morte, em Paris.

Legado
A sensação que se tem durante uma visita aos filmes da autora é de que ela promove um aborto de climas intensos e temas expressivos por natureza, buscando nos momentos de solidão transmitir imagens que coloquem o público numa atmosfera de tempo real, diante de cenas palpáveis, que poderiam ser vistas numa ida ao mercado, ao banheiro ou à sacada. Em Jeanne Dielman, produção com mais de três horas de duração, observamos a figura de uma mulher de meia idade a exercer atividades domésticas rotineiras. A viúva Jeanne, representada pela atriz Delphine Seyrig, mora com o filho e vive uma vida cíclica. À tarde, quando está sozinha, cuida da casa e sendo nada a si própria e a si não desejando nada”.
Em entrevista à Criterion Collection cedida em 2009, a diretora conta como concebeu a trama. “Fiz esse filme para que todas aquelas ações invisíveis ganhassem vida em vídeo”. Akerman usa elementos cinematográficos para montar monotonia e o anticlímax aos quais muitas mulheres são submetidas fora das telonas. “Tudo veio muito fácil, é claro, porque eu vivia tudo ao meu redor. A prostituição e o assassinato são um tipo de metáfora. O resto eu conheci em primeira mão. Está no meu sangue. Se víssemos alguém arrumando camas ou lavando pratos nem iríamos reparar. Assim como os homens são cegos às suas esposas a lavar vasilhas. Tinha que ser alguém que não temos o hábito de ver lavando louça”.



