Brasil

O profundo Roberto Mangabeira Unger

Redação DM

Publicado em 6 de junho de 2017 às 02:07 | Atualizado há 9 anos

Sempre  o admirei  pela sua elevada inteligência, materializada nas suas obras universais e no seu modo original e profundo de analisar o Brasil. Ao ser entrevistado, dias atrás, na Globo News, pelo jornalista Roberto D Ávila, fixou o entrevistado seu olhar num ponto de análise típico daqueles que se propõem a discutir o país no campo das ideias.

“A agenda do Brasil hoje se volta para dois pontos básicos: a economia e a corrupção”. Disse ele para, em seguida, apontar um novo caminho de discussão: “[…] que modelo de desenvolvimento queremos para o país? E a construção institucional tão necessária para se construir o futuro?”.

Quem aponta o dedo para pontos, hoje, não discutidos no país tem credenciais intelectuais para discordar da maioria de nossos pensadores que, aliás, consideram-no uma espécie de estranho no ninho.

Vejo aí certa “dor de cotovelo” contra um brilhante pensador que  ousa a discutir os problemas nacionais com um sotaque acentuado natural de quem, muito jovem, migrou para os Estados Unidos e lá se tornou o mais jovem professor titular da mais prestigiada universidade do mundo: a de Harvard. “Falo português com sotaque, mas não penso o Brasil com sotaque, ao contrário de muitos que governaram o país”, responde ele a seus críticos. A tradição política brasileira o liga consanguineamente a um grande homem brasileiro: Otávio Mangabeira, este, ex-governador da Bahia e ex-ministro da Relações Exteriores.

Desnudemos o personagem: Roberto Mangabeira Unger, professor de Barack Obama quando este fazia seu doutoramento em Harvard. Em entrevista a seu biógrafo, Obama cita-o com a admiração e o respeito que ele merece.

Caetano Veloso disse sabiamente que, no Brasil, “quem vai para as paradas de sucesso são nossos fracassos.” Creio ser essa a melhor explicação para expressar a pouca penetração que tem o brilhante professor de Harvard não só na mídia tupiniquim, mas, também, nos meios intelectuais do país.

Mangabeira Unger é pouco escutado no Brasil, porém sua obra ecoa pelos quatro cantos do mundo, a ponto de ser considerado, por muitos, um dos pensadores mais influentes e com uma obra social marcante a partir da segunda metade do século vinte.

Confesso que dele consegui ler e entender sua vibrante “Alternativa Transformadora”, um calhamaço de mais de 400 páginas e repleto de ideias originais para o país da primeira à última página. Confesso que hoje luto para vencer seu instigante livro “Paixão”, uma instigante e original análise que vê a política na sua mais sublime concepção: como um ato de amor.

Concluo: Roberto Mangabeira Unger tem muito a ensinar para muitos de nossos intelectuais que pensam o Brasil com sotaque. Sotaque que nos prende ao colonialismo intelectual, que impede o país de pensar o novo que transforma.

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de Cheiro de Biblioteca.)


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