Brasil

Tríplice saudade

Redação DM

Publicado em 14 de maio de 2017 às 02:13 | Atualizado há 9 anos

Comemora-se, neste domingo, o dia das mães.

Comenta-se muito, no meio do povo, que o Brasil é o país do mundo que tem mais feriados e também o que tem mais dias comemorativos. Comemoram-se o dia de todos e o de cada um: cada uma profissão, cada um santo, cada uma situação.

Mas se há um dia que, realmente, não poderia deixar de ter sido marcado para a devida comemoração este é o dia das mães.

Não se tem como fugir da imensa significação desta pequenina palavra de apenas três letras e do ser humano que ela define.

Bastaria lembrar que, quando a divindade resolveu se tornar visível aos olhos dos homens, fez-se um deles, e para estar entre nós, precisou de nascer, precisou de ter uma mãe. Poderia, pelo seu poder, simplesmente ter aparecido e depois desaparecido, misteriosamente, mas preferiu tomar a forma humana e passar pelo trâmite  da gestação e da maternidade.

E por mais que desejemos ser cabeças duras, não dá pra achar que isto foi um mero capricho. Há razão e razões para tudo isto. E uma delas, sem dúvida, é a sacralização da maternidade.

Mãe não se define, não se explica, não se entende nunca, em sua total extensão.

Fico pensando em dona Benedita Targino Lima, minha mãe biológica. Mulher franzina mas de uma fortaleza inexplicável, de uma sabedoria especial que borbulhava do alto de seu simples curso primário incompleto.

Quantas lições minha mãe deixou, quantos conselhos sábios, quantos exemplos edificantes durante toda sua jornada. Paciência, compreensão, humildade e, principalmente, inabalável fé. Vivendo profundas provações, nunca naufragou, por maiores que fossem as ondas a serem enfrentadas.

Aquele manso olhar, contemplando a imensidão, assuntando o mundo, como dizia sempre que a pegávamos nesta situação, aquele jeito especial de nos acariciar a cabeça e sempre incentivar a prosseguir, a conquistar…

Quanta falta me fazem os seus conselhos, mesmo agora que caminho no outono da vida. Como careço de seu colo, de sua voz, de seus conselhos.

Interessante sabermos de certos caprichos do céu.

Pois que, além de minha mãe Benedita, concedeu-me Deus que eu tivesse mais uma outra mãe: dona Ruth Jaime.

Que maravilha foi para mim, quando me vi acolhido, adotado, aceito pelo casal maestro Sizenando Jaime e dona Ruth Jaime. Assim ganhava mais uma família, ganhava os irmãos  Rubens ( Rubinho ), Sérgio ( Serginho ), Dido e Mauro ( Pastinha ) que até hoje me conferem esta enorme felicidade de poder contá-los como meus irmãos 1, 2, 3 e 4.

Minha mãe Ruth era sinônimo de trabalho, de presteza, de capacidade de servir. Aqueles bolos, biscoitos e almoços…Aquela mulher forte, de olhar penetrante e determinação inabalável…Indo e vindo da copa para cozinha e da cozinha para a copa, em sua casa, em Anápolis…

Mãe amorosa, que nos últimos tempos de sua vida, numa cadeira de rodas, sem ter mais condições de conversar , ao me ver dizia meu nome e ficava repetindo: 5 de agosto… 5 de agosto ( dia do meu aniversário ) e diante de Isolda, minha mulher, desfilava os nomes de nossos três filhos ( Sheila, Cristiane e Glauber ) que tinha como seus netos e dos quais queria saber notícias.

Mas pensam que os céus se deram por satisfeitos? Não!

Houveram por bem me conceder mais uma mãe: dona Cremehilda Ribeiro Dias.

Era membro ativo da Igreja Batista e lá me encontrara menino adolescente.

Mulher de baixa estatura mas de um dinamismo impressionante. Não teve tempo ou oportunidade para muitos estudos, mas foi agraciada por Deus com uma inteligência especial. Gostava muito de declamar ( e o fazia muito bem ) poemas especiais de Mário Barreto França nas festividades da Igreja.

Um dia eu já adulto, profissional, escritor, recebi dela um pedido: Meu filho, estou fazendo um livro, quero que você faça o prefácio. Ah! que surpresa agradável, que tarefa emocionante.

Minha mãe Cremehilda, que se recusou a partir, sem me ver, pois, em estado terminal, sem reconhecer mais ninguém, poucos momentos antes de falecer me viu, me reconheceu e falou comigo: Você veio, meu filho?

Mães, seres indefiníveis, indispensáveis e insubstituíveis…

Obrigado, Senhor, por todas as mães do mundo.

Obrigado por minhas três mães!

Neste dia de gratidão, porém, não tenho como deixar de reconhecer: bate uma tríplice e dolorosa saudade…

 

(Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro da Associação Nacional de Escritores e)


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