Humanos como nós, homens (ou até mais)
Redação DM
Publicado em 9 de junho de 2017 às 03:06 | Atualizado há 9 anos
Certos tipos, que às vezes nem conviveram com a gente por muito tempo, marcam-nos a vida através de passagens e até mesmo de notícias de situações que a gente ouve contar.
No sertão do Duro, existiu uma figura que se tornou lendária: a velha Maria Bonfim. Não que ela fosse feiticeira, que tivesse uma característica física ou intelectual muito diferente do sertanejo comum. Mas a velha Maria Bonfim tinha uma fama que os homens, com raríssimas exceções, não tinham: era uma caçadora de onças.
Morando – dizem – em terras de Coquelin Leal, na Fazenda Uberlândia, a velha Maria Bonfim acabou com a raça de onças dali, e contam que até a época em que a vi pela última vez, há mais de 40 anos, cerca de setenta onças pintadas (sem se falar nas lombo-preto e suçuaranas) já haviam morrido debaixo das cacetadas da valente velhinha.
Com meus dez anos, mais ou menos, conheci a velha Bonfim comprando uma ferramenta lá na Loja Póvoa: preta retinta, corpo mediano aparentando miúdo, dentes alvos e perfeitos, ela entrou na Loja Póvoa com seu cambão de cachorrinhos magrelos, todos arranhados por cima das costelas expostas de magreza; segundo ela, eram unhadas de onça. Ela contou diversas passagens de sua valentia, com naturalidade de quem matava um carneiro num curral. E negou algumas histórias que lhe creditavam, dizendo que era invenção do povo, mas que na verdade ela havia matado umas setenta pintadas.
Meu pai contara que, certa vez, um senhor morador ali perto do Duro, “Seo” Anjinho, acuara uma onça num pé de puçá, mas a fera se apavorara diante da latumia dos cachorros e investia contra “Seo” Anjinho, que não teve remédio senão gritar por socorro, no que foi acudido pela velha Bonfim, que açulou os cachorrinhos magrelos em cima da bicha e amiudou-lhe o cacete no lombo, deixando-a estirada debaixo do puçazeiro. E nessa vez, perguntei à velha se ela já havia matado uma onça a cacetadas junto com o velho Anjinho, ela desmentiu:
– Junto com ele, não! Matei junto com meus cachorro, né? O véio correu e só voltô quando soube que a onça tava iscanchelada e morta! – e confirmou, tintim por tintim, a história que eu havia escutado de meu pai.
Tio Coquelin, em cujas terras a velha Bonfim morava, deu-lhe um dia de presente um vistoso rifle papo-amarelo de repetição, para ajudar nas caçadas de onça. Pois o rifle enferrujou-se num canto de sua choupana, porque ela dizia que não sabia “coisar aquele bichado” e que confiava mesmo era nos cachorros e no cacete.
Não lhe sei exatamente os métodos de matar onça. Dizendo ela, era biscando o cachorros em riba e amiudando o pau na besta-fera: só sei que quando acontecia de a bichana subir num pé-de-pau, ela encastoava a faquinha na ponta de uma vara e, a modo de chuço, matava a onça sangrando-a.
Há tempos, ouvi dizer que a velha Bonfim largara de mão caçada de onça, embora se sentisse em condições, porque certa vez, andando no piseiro de uma linha de caititus (pois ela não caçava apenas onça), quando se preparou para golpear um deles, o caititu – disse a velha – virou-se para ela e disse:
– O caititu maior vem aí atrás!
Ela tomou-se de verdadeiro assombro, largando ali no mato até a capanga com a muçuraca de pitadeira, abandonando de uma vez por todas a vida de caçar.
Dali em vante, nem onça, nem caititu, nem nada.
Era o fim da matadeira de onça, que assombrou o povo com sua coragice me-donha e que se cansou de ganhar cortes de pano e libras de café, em troca da limpeza que fazia nas propriedades infestadas de onça comedeira de gado.
No ano de 1979, um dos contos que escrevi, “A Vaca Cristalina”, teve a sorte de ser premiado nos dois concursos literários em que o inscrevi: o XIV Concurso de Contos e Poemas da Revista Literária da UFMG e no II Concurso Nacional de Contos da Academia Ribeirão-pretana de Letras. Hoje, ele integra o livro “Besta-Fera e Outros Contos”.
Pois bem, esse conto retrata a história de uma vaca que, criada com o carinho dedicado a um animal de estimação, tornou-se tão humana, que entendia os sentimentos do pessoal da casa. Euclides Marques de Andrade, respeitado contista e crítico mineiro ressalta no conto a fuga à temática da violência, tão explorada hoje em dia por todos. E seu comentário acrescentou muita coisa ao conto, valorizando-o sobremaneira.
De fato, ao escrever aquele conto, eu quis mostrar que pode existir muito de humano nos animais, humanidade que logo se vincula à fidelidade. Aqui, na cidade grande, só se toma conhecimento dessa faceta animal através de livros, filmes e da TV, mas no interior perde-se a conta das demonstrações muito humanas do animal para com o homem.
Em uma de minhas férias de julho, anos atrás, por exemplo, eu vinha de Conceição do Tocantins para a fazenda de meu ex-sogro, lá pelas oito da noite, quando, de repente, os faróis do carro iluminaram um corpo estendido no meio do cascalho da estrada. Imaginei logo que fosse alguém vitimado por um mal súbito. Parei o carro, e meu companheiro, conhecedor de todo o pessoal das redondezas, não demorou a identificar a pessoa estendida, ao lado de uma garrafa vazia, mostrando que estava bêbada:
– É Raimundinho Piauí, e tá é chilado.
Como estávamos com o carro cheio, não havia condições de transportá-lo para lugar mais seguro, pois naquele ermo o pobre do Raimundinho podia até servir de comida de onça. E sugeri que ele fosse colocado ao lado da estrada, enquanto suas sandálias ficariam ali mesmo no meio da estrada, bem à vista, a fim de que algum carro que parasse, atraído pelas sandálias, visse Raimundinho e o levasse para lugar mais seguro. E saímos tranqüilos, porque era dia de festa em Conceição e a todo momento cruzávamos com gente passando de carro.
Quando nos preparamos para remover Raimundinho, seu cachorro, um vira-lata malhado de preto-e-branco por nome “Turco”, avançou na gente, e a pulso conseguimos dominá-lo para socorrer seu desfalecido dono, pois o fiei cachorrinho virou onça em cima da gente.
Retirando Raimundinho para a beira do caminho, lá ficou “Turco”, assentado nas patas traseiras, montando guarda, e nem bem rodamos meio quilômetro, vinha uma camioneta em sentido contrário, a cujo motorista pedimos socorresse o pobre do Raimundinho. Ao retomarmos para ajudá-lo a colocar o infeliz bêbado em cima da carroceria, tivemos o mesmo trabalho: “Turco” avançou em nós, e custou-nos muito colocar seu dono no carro por causa do cachorro. E Raimundinho, vez por outra, vivia dando lambadas de cipó nas costelas expostas do pobre vira-lata; nem por isso o animal abandonou a fidelidade, que causa inveja a nós, humanos.
Quando a camioneta deu partida veloz, o cachorrinho sumiu no rolo de poeira levantada pelo carro, procurando, inutilmente, seguir o carro.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected]