Brasil

A cisterna encantada

Redação DM

Publicado em 28 de março de 2017 às 02:16 | Atualizado há 9 anos

Apreço por fatos marcantes do passado tinha Joaz, principalmente pelos que tatuaram valores positivos em sua experiência de vida. Assim, abrindo o zíper da mochila, abasteceu-a de recordações e embarcou para o século passado, num tour na década de 70. Época em que desafiou desmiolados moinhos de vento, dominando-os ora com a lança inquebrável da rebeldia, ora com a candura afável de uma alma juvenil.

Nostálgico, buscava sempre ver poesia num tempo que foi escrito com as letras frias da razão. Ou razão onde hoje percebe que o texto fora de intensa poesia.  Seu fraco pelo passado, embora este tenha sido composto também de tristezas, resultava do fato de ele ser o retrato indelével de nossa história, por isso perscrutava-o agora sem o olhar opaco da inexperiência. Com efeito, o presente está sendo transformado a cada segundo em passado e o futuro a Deus pertence, refletia Joaz deitado numa rede da varanda, de onde olhava as estrelas encrustadas num céu de noite escura.

Com os cabelos longos, semelhantes aos do Roni Von, batendo nos ombros, camisa gola alta e calça boca de sino, seguia Joaz entre sua turma desbravadora de festas familiares. Esquadrinhando quadras, cortando ruas de cima a baixo, batiam pernas incansáveis à procura dos bailes de sábados, que ferviam aos borbotões em várias casas do Jardim América, bairro point da época da incipiente e bucólica Goiânia.  Olhos ávidos por um agrupamento de jovens e ouvidos atentos ao menor sinal de um som chamativo.

Para melhor avaliação dos embalos dançantes, era mister ser antenado às músicas da hora. Joaz,  curioso, cutucava o amigo Misael, que sempre estava por dentro.

– Essa eu não tinha ouvido ainda… De quem é?

– Have your ever sseen the rain? Creedence Clearwater Revival.  Banda da hora.

Depois, sabendo que Joaz era fã número um dos Beatles, dava a triste notícia.

– Agora é oficial. Os Beatles separaram-se.

– Não é possível! Não me conformo…

– É sério… O sonho acabou.

Não obstante, os quatro rapazes fantásticos de Liverpool continuariam fazendo músicas fantásticas, as quais não podiam faltar no menu musical dos bailes domiciliares, notadamente John Lennon e Paul McCartney

A referida turma desbravadora do jovem que viera do futuro era composta de penetras assumidos, figuras comuns na época, seres desprovidos de maiores desconfiômetros. Se o portão estivesse aberto ao convite, entravam e, imiscuindo na chusma de jovens delirantes, sem maiores escrúpulos, perdiam logo o status de persona non grata.

Quando estava meio embaçado, um dos integrantes, o Nelson, de alcunha Faro Fino, contribuía decididamente para o almejado acesso, vez que era muito conhecido pela maioria dos anfitriões dos embalos de sábado à noite. Com as garotas, porém, um tanto retraído, demonstrando timidez na abordagem feminina,  talvez por falta de confiança na própria estampa. No entanto, exímio farejador de bailes e facilitador de invasões. Em incontida evolução, tomava frente. Sem perda de tempo, após o reconhecimento de área, destilava rapapés e loas aos anfitriões. Em seguida, reaparecendo do interior da residência, com seu sorriso de desbravador vitorioso, cabeleira esvoaçante, de posse do copo de ponche, conclamava:

– Entrem, rapazes, a casa é nossa!

Uma vez banhados pelos efeitos da luz negra, acessório indispensável nos bailes, cuja falta poderia rebaixar a nota da festa, bem como deixar vir à luz algum recalque por destoar físico indesejável, estavam em casa definitivamente. Um ou outro anfitrião – que muitas vezes os penetras tinham o disparate de desconsiderar (o importante eram os fins não os meios) – fazia, por sua vez, vistas grossas com a turma invasora, uma vez que não detectassem presença de aloprados e drogados. Outros até demonstravam gosto pela intempestiva invasão, se o baile estava fraco, desprovido de glamour, as meninas reclamando a presença da figura masculina.

Naquela época, ainda que de pé-dois, era fato o direito de ir e vir sem ser abordado por meliantes e afanadores do alheio. Não existia a violência gratuita de hoje e a única coisa a ser pilhada era o coração de uma “gata”. Para depois, coladinhos, sentir o perfume feminino da garota aquiescente ao galanteio,  dançando ao som inebriante de Do You Wanna Dance?, de Johnny Rivers, Welvet mornings, de Demis Roussos ou a ousada Je t’aime moi non plus, da dupla Serge Gainsbourg e Jane Birkin,  entre outras melodias inesquecíveis.

Talvez mais por medo ou pelas informações corpo a corpo dos mais vividos do que pelo ímpeto curioso de hoje, Joaz, como a maioria da juventude prevenida, mantinha-se distante das drogas dito ilícitas. Ouvia-se falar das páginas negras de O Estudante, de Adelaide Carraro, mas eram poucos os que tinham acesso ao livro, sendo, para os jovens leitores periféricos despossuídos, quase impossível. A parte negra do romance, a saber, culmina num desfecho trágico em que um pai não teve outra saída senão ceifar a vida do próprio filho com um tiro fatal, visto já o ter perdido inexoravelmente para mundo das drogas. Isto tudo depois de a família viver num céu de brigadeiro nas páginas azuis do livro, com a felicidade vicejando no lar ajustado de pais e filhos.

O Nelson não saía de dentro da casa do amigo Joaz, era como se fosse um outro irmão de sangue. Mas andava sumido, há tempos que não dava as caras. Certo dia, porém, quem lá apareceu foi a mãe dele, Dona Terezinha, com semblante sombrio, para perscrutar alguns pormenores que a preocupavam.

– Meu filho está diferente, Joaz, parece outro, sempre longe, com o olhar perdido no vazio, falando esquisito. Quando me aproximo e pergunto, ele se esquiva, desconversa… Agora só sabe dizer responder “só”, “é isso aí”, “falou”, “numa boa”… Deu para ficar sentado na praça das flores, sabe? Não sei o que tanto ele faz ali, se tem encontro com alguém…  Tem ideia do que se passa com ele?

– Ora, dona Terezinha, não se preocupe. Nós somos jovens, queremos sempre estar na onda. Curtir a vida.

– Mas a onda pode ser enorme e os levar para dentro do mar…

– Poder, isso lá pode… Mas pensemos positivo.

Relatou-lhe a mãe que no dia anterior fora ao colégio onde Nelson estudava e o diretor mostrara-lhe os diários de chamada em que havia “efes” a perder de vista. Os “pês”, podia-se contar nos dedos. O professor fora educado com ela, não aludiu à cancelamento de matrícula, mas usou um termo que a ressentiu, ao dizer que seu filho tornara-se turista. Depois amenizou, vendo que fora indelicado. Com mais candura, disse ser uma idade difícil que a maioria dos jovens atravessava, tempo de rebeldia sem causa, onde muitas mudanças podem ocorrer. E, para arrematar, aconselhou que convinha vigiar de perto, de olhos bem abertos…

Assim sendo, para suavizar sua dor, Joaz disse-lhe brandamente que era cisma à-toa dela, mas era de bom alvitre seguir os conselhos do professor. (Mas no fundo havia sacado que as transformações eram visíveis.) De fato, o Nelson agora estava usando uns trajes diferentes, coloridos, deixara a barba crescer, emagrecera e usava uma faixa para prender a cabeleira repartida ao meio, bem como uma surrada calça jeans boca de sino, camisão tipo bata e manga longa, alpercatas de dedo. Levava ainda uma bolsa a tiracolo, não se sabia, porém, qual a serventia, se para enfeite ou para guardar alguma coisa. Até passara a curtir umas músicas psicodélicas, experimentais, de um tal Alice Cooper, e de outra banda denominada Pink Floyd. Absorvera uma linguagem descolada, solta e entrecortada. Essas coisas ele pensou consigo, pois não precisava falar, estava evidente até para dona Terezinha. Fingir que não via era tapar o sol com a peneira.

Não querendo piorar a situação, Joaz pisara em ovos para aludir ao envolvimento do Nelson na questão do Movimento Hippie, o que ela não compreendia bem, achando que as ideias vindas do estrangeiro eram o fim do mundo. Ia destilando as palavras a conta-gotas para não a afligir ainda mais. Porém, de repente emudeceu ante ar materno sucumbido daquela mãe afilha e ficou com o coração enternecido, quando lágrimas desceram dos olhos dela. E com um nó na garganta, quando, limpando os olhos com as franjas do avental, ela não conseguira completar a frase:

“- Desconfio que ele…”

Depois de um breve intervalo de longo silêncio, dona Terezinha despedira-se e se retirara, Joaz ficou matutando no grande desfalque que essas mudanças do Nelson deixariam na turma, sumariamente substituída por outra de um movimento até então pouco conhecido, deixando-os dali para frente de calças curtas com os anfitriões mais arredios. Com efeito, as festas ficariam mais restritas, a turma batendo com a porta na cara.  Outra coisa era que o desligamento daquela amizade implicaria uma menor assiduidade à casa de dona Terezinha, onde sempre ia para debruçar sobre a beleza de Rosalinda, irmã do amigo, seu olhar cobiçoso… A vantagem, porém, era que os outros rapazes integrantes da turma, concorrentes do mesmo olhar, também de lá se afastariam, claro, deixando o caminho mais livre.

Acumulada de preocupação e estresse, após ter comandado operação de guerra para o resgate do filho sem lograr êxito, dona Terezinha começou a ter síncopes frequentes. Num desses desfalecimentos, em dia cinzento e melancólico, ela voou para o infinito…  Com o seu passamento, o filho, agora hippie assumido, que já não parava em casa, passou a ficar grandes lapsos de tempo fora de área, mas os comentários sempre presentes.  Estaria viajando? Que espécie de viagem fazia? De repente, ele reaparecia, cada vez mais magro e disperso, andando e olhando para cima, movendo os lábios como estivesse conversando com o além. Mas ninguém ousava se aproximar dele, olhando-o como se ele tivesse alguma doença contagiosa.

Na última vez que se encontraram, Joaz viu o amigo fumando, coisa que nunca presenciara. Um toco curto de cigarro queimava-lhe os dedos, a ponto de atear fogo na barba negra e volumosa. Após expelir uma fumaça pardacenta que lhe cobriu o rosto afilado de tez encardida, deu um apagado sorriso, um esgar no canto boca, como fazia toda vez que Joaz chamava-o pelo nome próprio, preterindo o apelido Faro Fino. Estrategicamente, Joaz aludiu aos amigos, que reclamavam a sua presença, pediam sua volta.

– Tô noutra, diga a eles.

– Noutra melhor?

– Depende do ponto de vista…

– O seu, por exemplo… Mudou?

– Não mudou nem desmudou. O mundo é que permanece careta.

Percebeu Joaz que aquele diálogo ia prolongar-se laconicamente, sem maiores conclusões. Então, numa última cartada, disse ao amigo que, em memória de sua mãe, voltasse para a luta dentro de uma real, ao lado  dos verdadeiros amigos.  Mas desconversando, com os dedos em V, Nelson respondeu:

– Nada de luta, bicho. Paz e amor.

Então, o Nelson deu as costas e adentrou lépido um lote baldio, onde o capim alto tomava conta, para ganhar a rua paralela, a qual bifurcava na praça das flores.  No entanto, no centro deste lote havia uma profunda cisterna abandonada que estava sem a tampa de proteção, o que era do conhecimento de Joaz. Corria notícia de que muitos descuidados lá caíram e não voltaram mais. Outros, de curiosidade, tocados pelo fascínio que a queda exercia, com a cara e a coragem, e até com ares de felicidade, jogavam-se nela por conta própria, embora estivessem sido previamente alertados de que quem entrasse não saia mais, pois na verdade ali era um poço sem fundo.

Despertando-se para o perigo que corria o amigo, Joaz ainda correu para interceptá-lo, porém não o viu mais…  À orla da cisterna, estacou pensativo. Era tarde: o Nelson tinha virado fumaça.  Porém, acometeu-lhe a dúvida:  o amigo havia tomado a rua paralela e alcançado a praça das flores ou despencado no vazio da cisterna? Pode ser ainda que ele já soubesse da sua existência e preferiu, de livre e espontânea vontade, jogar-se no buraco.

Joaz olhou para as escuras profundezas, mas só viu uma névoa azulada.  Acometido de vertigem, tratou de sair logo daquela orla, pois se vacilasse, ia acabar deslizando e ser tragado inexoravelmente para o abismo interminável.

Regressando à estação de onde partira, o adulto viajante fechou o zíper da mochila, lá prendendo as recordações daquela distante década explosiva. Depois, da rede da varanda onde acordara, permaneceu a fitar um céu de negra noite, onde silenciosamente faiscavam diamantes.

 

(Joaquim de Azevedo Machado , professor e escritor – [email protected])


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