Os linchadores
Redação DM
Publicado em 23 de março de 2017 às 02:32 | Atualizado há 9 anos
O vento se diverte a balançar os galhos das árvores e muitas folhas suportam não o vaivém e quedam-se ao chão aí e continuam à mercê da ventania. A hipocrisia e a maldade, principais pilares do ser humano, são ventos que provocam linchamentos físicos e morais. Ali pelas quatro horas da tarde de uma quarta-feira,na principal praça de uma cidade de 300 mil habitantes, passou, a correr com todas suas energias, um adolescente de pés descalços, vestido de bermudas e camiseta. O pobrezinho, enquanto corria, clamava por socorro, por piedade, jurava que não roubara, que não furtara. Atrás dele, distância de mais ou menos meio quarteirão, um homem aparentando 30 anos e dotado de boa disposição física, em largos passos gritava: “Pega o ladrão! Pega o ladrão!” ,e como fazem os cães – um late aqui, outro late acolá e logo muitos cães ladram de uma só vez e se atiçados põem-se em disparada contra o alvo que estraçalharão – justiceiros se adicionam para matá-lo com mordidas, coices, murros, pedras, paus,facas. E cuspiam nele e o insultavam. Eram uns 20 covardes, umas 20 figuras abjetas contra um adolescente indefeso a quem esta republiqueta negara tudo. Agiram sob uma falsa indignação. Logo se ouviu a velha e esfarrapada desculpa segundo a qual a sociedade, por falta de segurança, faz justiça com as próprias mãos.
Um dos objetivos primordiais desta república é criar um estado justo, livre e solidário. Quem o afirma é a Carta de 1988. Somos um estado injusto, submisso e destituído de solidariedade para com a maioria dos seus habitantes. Somos o país dos linchamentos físicos e morais, de magistrados, promotores e policiais ávidos por refletores e que agem sem isenção. Lima Barreto dizia que o Brasil não tinha povo, tinha público. Povo tem cidadania e cidadania é a segunda coluna básisa da República Federativa do Brasil, consoante à referida Constituição.
Daniele Toledo do Prado teve, em 2006, a alma ferida pela navalha da morte da Victória, sua filha de um ano e três meses. Impediram-na de assistir aos funerais da filhota porque a acusaram de tê-la assassinado por envenenamento. Alguns apresentadores de sensacionalismo barato e cruel na televisão a denominaram de “Monstro da Mamadeira”.E como são muitos os jornalistas que vendem a caneta, como são muitas pessoas perversas, a maldita antonomásia pegou. Sob insultos, a trancafiaram e permitiram que prisioneiras a surrassem. Finalmente, um laudo médico atestou que não houvera envenenamento algum. Tomo ciência dessa tragédia ao ler a entrevista que a senhora Daniele concedeu à jornalista Ana Cláudia Peres, na Revista Radis, ed. 173, fevereiro 2017, sob o título “Mãe é Inocente”. A história, ocorrida em Taubaté, terra do Monteiro Lobato, no dia da reeleição do presidente Lula, será contada em livro. Suas páginas serão o grito contra mais um “erro” policial e judicial. Continuarão a “errar” e a mídia sensacionalista prosseguirá vilipendiando sobre sofrimentos.
(Filadelfo Borges de Lima, 72 anos, autor de vários livros, auditor aposentado do Estado de Goiás. Sócio fundador da “Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios”.)