Hipocrisia
Redação DM
Publicado em 15 de março de 2017 às 02:46 | Atualizado há 9 anos
Os últimos dias foram caracterizados por alguns eventos que, embora na forma pareçam distintos, essencialmente carregam consigo peculiaridades que os identificam. O que pode ter em comum a promoção de Cressida Dick como a nova comandante da Polícia Metropolitana de Londres, a Scotland Yard, a liberdade do goleiro Bruno acusado de ter assassinado uma prostituta e ocultado o cadáver, e o Dia da Mulher?
Foi uma declaração pública de tolice, talvez encorajada por um romantismo tupiniquim, da imprensa brasileira e de alguns brasileiros, a repercussão sobre a promoção profissional, ao posto máximo da Polícia Metropolitana de Londres, a que foi responsável pela operação policial na estação de Stockwell, onde o brasileiro Jean Charles foi morto por engano. A reação brasileira e de algumas insignificantes ONG’s passou a impressão de que a polícia inglesa perdeu todos os seus méritos naquele ato, que toda a sua tradição como polícia eficiente, não-letal e humanização de sua atuação, foram jogados ao ralo. Não é bem assim. Ela continua sendo uma das polícias mais bem preparadas e respeitadas do mundo. Aqueles que ensaiaram gritinhos de protestos contra a promoção da policial deveriam, antes de tudo, iniciarem o dever de casa e, como cidadãos que prezam por uma polícia eficiente, preparada e respeitada, passassem a exigir das polícias brasileiras essas qualidades e, com maior razão, cobrar das autoridades maior rigor e seriedade nas apurações e punições sobre arbitrariedades praticados pelas polícias brasileiras. O que se vê, todavia, são manifestações de apoio, tolerância e exaltação às atitudes de truculência, execuções sumárias e seletivas, praticados pelas polícias Brasil afora, tudo sob o olhar complacente de uma sociedade segregacionista, patologicamente ávida por sangue, principalmente quando as vítimas são os oriundos das castas de excluídos sociais. Por aqui também os facínoras institucionalizados são promovidos profissionalmente, na proporção de suas vilezas e latrocínios, com a covarde anuência social.
Outro fato que também impressionou pela peculiar bizarrice foi o denominado Dia da Mulher. Primeiro, essa coisa de dividir a humanidade pela genitália gera a dúvida se se trata de estupide ou de canalhice sem precedentes na história dos povos. Enganam-se os que pensam que isso contribui para com a construção e assimilação de uma cultura de tolerância, de inclusão, de paz. Absolutamente, não. O efeito é o oposto. Tolices como um “Dia da Mulher” apenas reforçam e confirmam as distensões sociais, o preconceito, principalmente considerando as pautas de “reivindicações”. Isso tudo se confirma a partir de uma simples análise dos discursos, da cólera, das investidas contra os que têm pênis e são heterossexuais e dos interesses antagônicos dos que capitaneiam esses movimentos, estimulando o embate sexista, e os que são manipulados e adestrados a repetirem os jargões vazios de sentido, sem nenhuma capacidade de refletir e de criticar. Há uma espécie de demência nessas manifestações que, associada à falta de coerência, passam a impressão de que a pauta, aquele que se reivindica, em verdade, é a certeza de que seus protagonistas nunca devem ser levados à sério.
O maçante e escamoteador clichê da “violência contra a mulher” transformou-se uma espécie de mantra do discurso feminista – ou femista, seja lá que troço é esse -, que, como é resultado da desonestidade de grupos de poder, é facilmente repetido por uma legião de não-pensantes ou debiloides intelectuais. O problema da violência deve ser abordado através de um debate mais amplo, de forma englobante, não através da falácia de eleger-se nichos sociais para o papel de vítima e outro para o papel de algoz. Diante da censura imposta pelos patrulheiros das ideologias de gênero quase ninguém se atreve a levantar a voz e denunciar que as estatísticas sobre a violência contra as mulheres não passam de uma grande farsa, manipuláveis de acordo com os interesses e conveniências escusos. Os poucos que se arriscam a refutar esses dados são imediatamente lançados ao linchamento público. Em um raciocínio simples, em uma equação sem muito esforço do intelecto, é possível desmentir as sempre muito bem e providencialmente super inflacionadas cifras sobre a violência contra a mulher.
Segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Brasil existem mais de 5,2 milhões de mulheres a mais que homens. Apesar do número, morrem dez vezes mais homens que mulheres. Para cada 100 mil habitantes, há 47,7 homicídios contra pessoas do sexo masculino. Entre as mulheres, a cada 100 mil habitantes, esse índice é de 3.9 mortes. O fenômeno da violência deve ser abordado adotando-se critérios honestos; a mulher não é nem nunca foi menos violenta que o homem. A educação para uma cultura de paz dever ser promovida através da construção de uma Ética Maior, um sentimento de pertencimento, de unidade humana, de identidade social civilizada. Estimular as diferenças, através de afirmações segregacionistas ou de desejo de imposição de submissão e inferiorização do outro, com a falsa e bizarra pretensão de superioridade ou detentora de privilégios, culminará, fatalmente, com o recrudescimento de mais violência e discriminações recíprocas.
Por último, as manifestações de ódio contra a decisão da Suprema Corte de colocar em liberdade o jogador de futebol. Milhares de pessoas até chantagearam o clube de futebol em Minas Gerais por ter decidido contratá-lo. Convenhamos: a grande maioria daqueles que se dizem “inconformados” com a “injustiça” é composta por pseudo-defensores da ressocialização, de que os egressos do sistema penal devem ter uma “segunda chance” e, pior que isso, defendem que “o preso deve trabalhar e pagar pelo seu sustento”. Eis o preconceito, desnudado e atávico daqueles que são os telespectadores dos espetáculos midiáticos promovidos pelas instituições de justiça criminal. Essas manifestações de ódio, tendo como pano de fundo o eficaz trabalho de construção e difusão de estereótipos ou de “etiquetagem social”, remetem-nos à obra de Victor Hugo “Os Miseráveis” (Les Misèrables), que conta a história de Jean Valjean, um preso que é colocado em liberdade condicional com a obrigatoriedade de se apresentar á justiça regularmente, sob pena de voltar para a prisão e se preso pelo resto da vida. Para recomeçar a vida, se redimir do seu passado e para atender à exigência do próprio sistema de justiça, Valjean procura trabalho, mas é perseguido, vítima dos agentes do sistema e de uma sociedade ensandecida. Em relação ao caso do goleiro brasileiro, uma multidão se vale das redes sociais e da mídia digital para pressionar o clube a não contratá-lo e para que os patrocinadores rompam com seus contratos de patrocínio com o clube. À primeira vista, é possível acreditar que essa multidão realmente esteja comprometida com o “senso de justiça em solidariedade com a mãe da mulher vítima. Entretanto, em verdade é que isso pouco importa. Há, sim, um selvagem sentimento de ódio social, de um esforço para sentir até onde cada um deles é capaz de atingir, de ferir, de fazer um mal àquele que está em condição de vulnerabilidade moral, contra uma pessoa que foi despojada de sua condição de humano e passou a ser coisificada pelo sistema e pela patrulha social. Afinal, é inadmissível que um egresso, após ter sido eleito objeto de açoite, possa, de repente, reinserir-se ao seio social e se conduzir livremente, ainda mais com a possibilidade de ter sucesso profissional e financeiro, aquilo que nunca conseguiram a maior parte dos “justiceiros”.
Mudam-se os métodos, disfarçam-se os objetivos. A sociedade brasileira, induvidosamente, é constituída por, talvez, um único fator de agregação: a hipocrisia. São pessoas más, são cruéis, dissimuladas que, mesmo quando organizam um movimento social, sobe a aparência de um bem comum, é a hipocrisia que lateja, que os impulsionam. Defender-nos dos maus parece ter se tornado mais fácil do que proteger-nos dos hipócritas. Esses agem sub-repticiamente.
(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista – [email protected])