Cotidiano

FED vai bater de frente com Trump

Redação DM

Publicado em 15 de março de 2017 às 02:13 | Atualizado há 9 anos

A principal matéria da seção de economia do The New York Times de ontem foi o duelo, já anunciado, entre o presidente Donald Trump e o FED, o popular Federal Reserve, o banco central deles lá.

Para Trump e seus assessores econômicos, o forte crescimento da taxa de emprego em fevereiro, nos EUA, foi festivamente celebrado na Casa Branca, tendo sido considerado o primeiro passo para uma série de medidas visando aquecer a economia dos EUA. Isto foi promessa de campanha de Trump.

Para o FED, porém, o aumento da taxa de emprego é aviso de que o tempo de levantar as taxas de juros básicos chegou. O objetivo é evitar o superaquecimento da economia americana. Parece que bancos centrais foram inventados exatamente para frear o crescimento econômico.

Sr. Trump e Janet L. Yellen, a presidente do FED, diz o TNYT, entraram em rota de colisão, ainda que estejam se movendo lentamente. Mas vão acabar batendo de frente, é certo. Trump já disse, repetiu e tornou a repetir que quer crescimento rápido. O Banco Central deles lá vem indicando que vai procurar inibir o processo. Trump não pode fazer nada conta o FED. A instituição é autônoma e cada presidente tem mandato fixo, não podendo ser removido pelo presidente da República. Trump terá que esperar até fevereiro do ano que vem para indicar outro presidente, quando o mandato de Janet chegar ao fim.

O FED já anunciou que vai subir suas taxas. O que se especula é o tamanho do aumento. Não deve ser tão grande que aumente o volume da dívida pública americana, que é a maior do mundo, nem tão pequeno que facilite os planos de Trump. O jornal novaiorquino arrisca o palpite de que a taxa vai continuar abaixo de 1%.

Muitos especialistas foram ouvidos pelo jornal. Cada um com sua explicação e seu palpite. Mas o ponto essencial é que o FED não quer crescimento rápido. Os economistas da instituição acham, segundo o jornal, que a economia americana já está crescendo na velocidade limite da sustentabilidade. No ano passado, o PIB americano ficou em 1,8%, que é, para padrões americanos, uma taxa muito boa, sobretudo para um país que tem no crescimento do seu PNB sua principal fonte de riqueza. Países subdesenvolvidos como o Brasil nem calculam seu PNB, por irrisório.

O FED acha que crescimento acima de um certo ritmo pode provocar espiral inflacionária, o que forçaria o FED a aumentar as taxas num ritmo muito rápido, o que sempre dá em recessão. Para este ano, projeta-se um PIB de apenas 2,1% ano ano. Para Trump, é pouco. Para o FED, está pra lá de bom. Em recente encontro com parlamentares, Janet Yellen foi indagada se iria mesmo subir as taxas de juros para frear um crescimento mais rápido. Ela respondeu secamente: “Yes”. Para a ela, “faster growth” é muito bom, “is fine”, desde que, ressalva, haja melhora dos fundamentos da economia. A receita proposta por Trump, reduzir impostos e aumentar gastos públicos, gera um aumento da demanda, mas também faz a inflação disparar.

São duas visões totalmente opostas. Trump, que é empreendedor na vida privada, ganha dinheiro fazendo prédios, vendendo coisas. Tem ojeriza de rentistas, de financistas e outros que ganham fortunas no “mercado de capitais”. Na sua linguagem rude, beirando o obsceno, ele anuncia que sua política fiscal é a única que pode estimular o crescimento econômico e restaurar a prosperidade nacional.

Burocratas

Os burocratas do FED, insensíveis aos compromissos políticos do presidente, afirmam que o ritmo acelerado proposto por Trump é “insustentável”. E dão exemplos de como em certos estados a euforia financeira já está beirando à loucura de 2008, quando a “bolha” estourou.

Os tecnocratas do FED alinham dezenas de ótimos argumentos contra Trump. A racionalidade técnico-científica nunca brilhou com tamanho esplendor. Mas a urgência de Trump é determinada por razões políticas. O FED opera apostando no longo prazo, quando, supondo que Keynes esteja certo, todos estaremos mortos. Trump tem promessas de palanque a resgatar. Segundo o jornal novaiorquino, ele já pensa em aproveitar sua maioria no Congresso para mudar algumas coisinhas na instituição. Talvez a autonomia do FED esteja com os dias contados. Mas isto é outra história.


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia