Catarse estilingada
Redação DM
Publicado em 11 de março de 2017 às 02:48 | Atualizado há 9 anos
Nunca tinha matado um passarinho. Todos os meus amigos viviam a contar, empolgados, sobre suas caçadas exitosas, falando de pombas-do-bando, rolinhas, inhambus e até perdizes. Uma perdiz representava o zape da situação, porque é do tamanho de um frango, um frango pequeno, para ser sincero. Com isso, eu, o menorzinho da turma, vivia, morrendo de vontade de ir caçar com eles.
Apesar de um dia eu ter provado uma coxinha de inhambu e não ter gostado, não prejudicava em nada o desejo de caçar passarinho. Coisas totalmente distintas. Aliás, não é raro ver gente adorar pescar e não comer peixe. Pois é. Assim que os meninos, voltando da caçada, apareciam lá no começo da rua, eu saía correndo, tropicando, para me encontrar com eles e saber o que traziam em suas capangas. Poucas vezes voltavam de mãos abanando. Ao chegar até eles, sem darem muita confiança, rapidamente abriam a boca da capanga e mostravam um ou outro pássaro morto dentro. Feito isso, despediam-se e cada um ia para sua casa limpar e preparar a caça.
O anseio de aprender a caçar de estilingue aumentava, chegando a ponto de sonhar. Nesse tempo diziam que condenável era matar por matar. Matar para comer não tinha nada, não. Por isso eu sabia que, chegando a hora de eu matar algum passarinho, por eu não querer comer a caça, concederia para alguém preparar e comer. Isso mesmo. Simples.
Com a liberação de mamãe para eu sair caçando com a turma pelas matas e palhadas próximas, nunca tive a sorte — ou o azar — de matar um passarinho sequer. Com a pontaria frouxa e, portanto, errática, levava broncas severas dos entojados veteranos por espantar as outras aves. O meu disparo de estilingue passava longe do alvo. Um verdadeiro fiasco. Por fim, de uma hora para outra, não me deixaram mais caçar com eles. Relegado. Porém não encostei o estilingue.
A partir de então, solitariamente, vez em quando eu esperava, debaixo de alguma árvore, uma pomba-do-bando posar para tentar derrubá-la. Não acertava nem à custa de reza brava. Espantava todas. Numa dessas vezes, estando já grilado por não conseguir atingir o objetivo, uns periquitos alvoraçando pousaram na copa da árvore. Não sei exatamente o que houve, mas me ocorreu de testar a pontaria do estilingue. Podia servir de treino. Silêncio. Olhos de lince. Pega a pedra furtivamente e a coloca no courinho. Forquilha empunhada. Goma tensionada. Mira. Tiro. Chilept! Não acertei o periquito no qual mirei, e sim outro infeliz a seu lado. Enquanto o bando se retirou chalreando desesperadamente, o coitado despencou quase em minha cabeça. Meu coração ficou cortado ao ver o bichinho agonizando no chão, entre as vassouras ralas. Um remorso bateu e bateu com força. Uma pelota se formou em minha garganta. Vontade de chorar. Arrependimento de matar. O peso do mundo nos ombros.
Poderia, todavia, haver algo a ser feito. Sim, talvez o periquitinho escapasse da morte se lhe fosse dado os cuidados necessários. Não hesitei em pegá-lo e levá-lo para casa. Lá chegando, cuidadosamente o embrulhei num pedacinho de pano, dei-lhe água e mingau, afaguei. Cheguei a rezar pedindo o apoio dos céus para que ele não morresse. Coisa de menino. Entretanto, apesar do grande esforço, a sobrevida do pobre não durou muito mais que uma hora. Como forma de compensar tão má ação, tragédia causada pelas próprias mãos, preferi não jogar o corpinho do animal fora, ao léu. Isso poderia agravar o pecado. Cuidei de enterrá-lo no fundo do quintal, usando como caixão um pote de margarina, com direito a cruzinha de graveto sobre a cova e tudo mais. Tudo para tentar aliviar um pouquinho o peso da consciência.
Contudo, embora uma grande dor me abatesse o peito e me fizesse abandonar de vez a caça de passarinho, novamente não deixei de lado o estilingue. Comecei a gostar de ficar sozinho, sentado sob o imenso pé de jatobá, jogando pedras longe, ao léu, sem mira nem nada que pudesse pontuar ou servir de referência. Zunindo, as pedras cortavam o ar, um risco, viajavam sobre o pasto de braquiária e penetravam numa matinha lá adiante. Quase não se conseguia ouvir ou ver onde caíam. Para mim, não sei direito, talvez, quem sabe, as pedras arremessadas levavam, pouco a pouco, a dor profundamente lancinante da culpa, do sofrimento de ter causado a morte da inocente criaturazinha verde. Uma espécie de catarse estilingada.
(Hailton Correa, servidor público e escritor)