Inacinha, a “Preta”, que achou que eu era fichado no TRE
Redação DM
Publicado em 10 de março de 2017 às 02:11 | Atualizado há 9 anos
Numa intensa atividade em Palmas, além de presidir a Câmara Cível, integrar a Câmara Criminal e o Pleno do Tribunal de Justiça, escrevia meus artigos no “Jornal do Tocantins”, produzia a coluna dominical “Judiciário” no mesmo jornal, fazia parte da Academia Tocantinense de Letras, e ainda me sobrava tempo para um programa de TV com o amigo Núbio Brito, sem falar na participação esporádica em outros, sempre falando de assuntos regionais e jurídicos.
Um dia, em 2002, eu presidia o Tribunal Regional Eleitoral, e o hoje deputado Waldemar Júnior, que tinha um programa muito assistido, levou-me para falar sobre assuntos que eu sempre tratava, na companhia do amigo humorista “Pau Véio”.
Estava lá num intervalo do programa, quando alguém me falou que estava na portaria da TV uma senhora, que, tendo visto minha cara na tela e falando coisas lá de nossa terrinha, queria porque queria ter um dedo de prosa comigo.
Pedi que esperasse um pouco, e, ao findar o programa, fui lá ter com ela, que esperava pacientemente numa cadeira na entrada da emissora.
Quando vi aquela senhora miudinha, sorridente, vi que era do gado que eu olhava: pretinha, meio cabo-verde, já chegada nos sessentanos ou mais, palavreado típico das nossas beiradas e logo senti que a conhecia. E ela veio cheia de satisfação, com gestos largos e palavreado inconfundível do meu povinho de São José do Duro:
– Cê é fio de Dinha Rege e ti´Liberato? E qual é sua graça?
Respondi que sim e, ao dar meu nome, ela se encheu de satisfação, dizendo que morava em antes no Brejinho e tinha me carregado na cacunda quando pichititinho, e até me tratava de Berinha.
Proseamos um bando, e ela disse que estava ali por perto quando viu minha cara na televisão, tomou informação e foi bater lá na emissora. Perguntou onde eu morava, o que fazia, e acabei por levá-la pra casa, onde almoçou, contando coisas lá do nosso tempo, dizendo que sua irmã Emília tinha morrido, que seu filho Edésio e sua sobrinha Martinha tinham ido pra Brasília e ela, com a criação de Palmas, tinha arribado pra lá com uma filha, que era conhecida apenas por Dade, onde sobrevivia vendendo raízes numa banquinha na feira livre da Vila Aureny.
Dali, como eu ia ter sessão após o almoço, dei-lhe uma carona até o ponto de ônibus mais fácil pra ela pegar seu coletivo de volta. No caminho, mostrei a ela onde eu trabalhava: no Tribunal de Justiça e no TRE, o que ela achou o máximo, comentando que muita gente estava de cara pra riba sem ocupação, enquanto eu tinha dois empregos no governo, sem atinar que o do TRE não era outro emprego.
Dali em vante, Inacinha, que a gente tratava de “Preta”, porque a irmã mais encostada na idade, Emília, era branca, passou a ser visita constante lá em casa, e, quase sempre na hora do almoço ela batia na minha porta, onde almoçava e eu a levava pra pegar seu coletivo, depois de dar uns trocados pra ela comer qualquer coisa.
Um dia, ela chegou toda chorosa, clamando que a polícia tinha levado o seu caçula, por nome Adelvan (se não me engano) que estava preso, e ela foi me pedir pra eu mandar o juiz soltá-lo, pois a cachaça do menino estava lhe corroendo o juízo, a ponto de dias atrás terem-no levado escangotado num carrinho de mão e despejado na sua porta, que nem podia parar em pé. E por conta de sua cachaça excomungada, nem podia ser fichado numa construtora qualquer.
Falei com ela que eu não podia mandar o juiz soltá-lo, pois a coisa não era assim tão fácil, mas fui com ela à Defensoria Pública, onde, a meu pedido, arranjaram um defensor, que entrou com um “habeas corpus”, soltando-lhe o filho, que, depois passou a dar-lhe mais trabalho por conta de maconha.
Várias vezes ela me procurava apenas para bater papo no Tribunal de Justiça e certa vez, estava eu presidindo uma sessão do TRE, quando, no meio da solenidade de uma sessão importante, com os compenetrados juízes e advogados ouvindo a leitura de um voto, diante de uma considerável plateia, entrou Inacinha, que tirou todo mundo da concentração, quando, na sua santa inocência, de mãos na cintura, indagou, lá do meio da sala, interrompendo a leitura do voto e todos se concentraram naquela mulherzinha miúda, que, na maior simplicidade, indagou:
– Uai, Berinha, é ocê?
Os presentes ficaram boquiabertos, como seria natural. E antes que eu explicasse quem era aquela figurinha que me tratava com tanta intimidade, Inacinha, ainda com a mão na cintura, completou:
– Uai, Berinha, intão cê é fichado é nessa firma lorde? Bens a Deus!
Calculem o que ocorreu: tive que dar um recesso de minutos para conversar com Inacinha ali no corredor, ante o olhar estupefato dos circunstantes, para ouvir dela mais uma queixa de seu filho, que voltava à cachaça e estava atolado nas drogas.
E Inacinha, sem ligar pro pessoal que nos cercava, foi logo desfiando mais uma conta do seu rosário de queixas, dizendo que agora seu filho dera pra usar uma droga estrangeira, que estava pra botá-la doida.
– Que droga estrangeira é essa, Inácia?
– Uai, Berinha, é um tal de “baseado”, e ele tá vendendo tudo que acha lá em casa pra mode comprar essa porqueira; até minhas cuié, meus garfo, um casal de prato esmaltado e uma verônica com uma volta de ouro, que era de minha mãe, ele já carregô.
Assim era Inacinha, que fazia presença toda semana lá em casa durante quase dez anos, contando causos e trazendo novidades e relembranças.
Com a minha mudança para Goiânia, perdi o contato com ela, que deve estar ainda vendendo suas raízes na feira da Aureny pra ganhar pão de cada dia.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])