Brasil

Primeiro embalo

Redação DM

Publicado em 3 de março de 2017 às 02:01 | Atualizado há 9 anos

– Você gostaria de segurá-lo um pouquinho?

Aquele bebê com grandes e arregalados olhos verdes olhava-me com aparente curiosidade. As perninhas moviam-se aleatoriamente, mas havia algum método em como o pequeno socava o ar. Aos três meses de idade, o Chico parecia mais esperto do que muito caboclo maduro. A minha futura comadre insistiu:

– Pegue-o um pouco.

– Melhor não.

– Em algum momento, compadre, você terá de fazer isso.

– Não tenho muito jeito com criança.

– É só um nenê.

– Sou meio desajeitado.

– Você aprende com o tempo.

O pequeno Chico continuava com aqueles olhos verdes fixos em mim. Era possível acreditar que estivesse compreendendo cada detalhe da conversa. Por alguns segundos, ponderei se estaria me censurando por não toma-lo em meus braços. Parecia muito desconfiado, mais do que deveria, considerando que era uma criaturinha tão jovem. Resolvi dialogar com o futuro afilhado.

– Bicho, é o seguinte: eu nunca segurei bebê algum em toda a minha vida. Não sei se você ficaria confortável comigo. Sei lá, guri, talvez eu lhe aperte a costela ou deixe seu pescoço doendo. Eu lhe quero bem, entende?

Eu acreditava piamente que o bebê estava compreendendo toda a minha explicação. Inclusive creio que ele balançou a cabeça positivamente por alguns instantes. Pode ser coisa da minha cabeça. Mas aquele recém-nascido parecida velhaco demais. Minha comadre trouxe um pouco de realidade para a prosa.

– Compadre, não sei se o Chico entende o que você está dizendo.

– Olha o grau do menino! Esse aí vai dar nó em goteira. E esconder as pontas.

– É só um bebê.

– Observe os olhos dele. Há um cara aí dentro com muita vontade de se manifestar.

– Ele nem balbucia palavra alguma.

– Esse é o lance. Ele fala com os olhos.

– Compadre, suspenda a cachaça pelo resto do dia.

– Por quê?

– Porque não faz o menor sentido você dizer essas borrachas.

– Não estou embriagado.

– Modo de dizer.

– Entendo.

– Você deveria ao menos tentar. Mal não fará.

– Tudo bem. Vejamos o que vira.

Com muito jeitinho, minha comadre veio em minha direção. O pequeno Chico, embrulhado em uma mantinha azul clara, ficava dando umas bicudas no vento. Parecia animadinho. Ela me instruiu a formar um pequeno cesto com meus braços, de maneira que pudesse encaixar a cabeça da criança com algum conforto.

Fui aos poucos absorvendo a ideia. O danadinho parecia confortável, do jeito dele, enquanto eu fazia o melhor possível para deixa-lo em paz. Resolvi sentar. O Chico continuava me olhando. Eu não fazia a menor ideia do que aqueles olhos verdes queriam me dizer. Eu teria de balança-lo?

– Comadre?

– Sim, compadre.

– Acho que não levo jeito para a coisa.

– Claro que leva. Eu até provo isso a você.

– Como?

– Veja o Chico. Nem mexe mais as perninhas. Está tão calminho.

Ela tinha razão. O menino parecia pacífico. Notei que aqueles olhos verdes estavam cerrados. Chico parecia cochilar em meus braços. Transmitia uma serenidade absoluta enquanto tirava o sono dos justos. Acabou me engambelando bonitinho.

Eu, de minha parte, olhava curioso para aquele garotinho. Sem dizer uma única palavra, havia destruído todos os meus argumentos. Fiquei com ele daquele jeito até que acordasse umas duas horas mais tarde. Meus braços doíam pacas. Soube muito tempo depois que bastava tê-lo colocado no carrinho. Se o Chico viesse com manual de instruções…

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)


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