Um dorso no mar
Redação DM
Publicado em 1 de março de 2017 às 00:48 | Atualizado há 9 anos
Parados ali, analisando mais um ponto de mergulho “shore”, onde entrariam sem guia e com seus próprios equipamentos, o mar se encontrava revolto. A explosão contínua das ondas no penhasco não eram animadoras. Logo mais a frente, uma caverna e uma “boka”, como se diz em papiamento. Mas não dava, os conhecimentos recentemente adquiridos no curso, ministrado pela descolada instrutora californiana, confirmavam o que viam. Era um suicídio mergulhar ao lado do velho farol em Malmok, naquele dia. Apenas apreciavam a força da Natureza.
Porém a cor verde fosforecente se destacou ao lado das rochas. Cercada de um marrom, fez um giro e desapareceu. Ficaram surpresos de ver um mergulhador naquele lugar. Um pouco mais a frente, novamente a mesma cena, agora mais turva, como se boiasse ao léu. Não havia equipamentos de scuba. Não viram nadadeiras. Apenas o tronco?
E depois desapareceu. Começaram a tecer conjecturas mil. Teria morrido num mergulho e sido comida as extremidades pelos peixes necrófagos? Estaria caçando num ponto espetacular e dera um apagão? Poderia ser apenas um tecido flutuando? Ou um peixe enorme? E para completar um barco surge do nada, como que a perscrutar o local. Vai e volta, mas não se aproxima devido as ondas.
Sem os seus cilindros de Nitrox, se encontravam apenas com seus pulmões na ponta do extremo norte do Parque Nacional de Bonaire, o belíssimo Washington Slagbaai. Celular não pegava, a caminhonete poderia levá-los de volta e buscar ajuda. Mas seria tarde. E se de relatores se tornassem suspeitos? Ambos barbudos, muito queimados de sol, mas diferente dos holandeses, eram bronzeados e não assados. Falando uma língua estranha entre eles e compreendendo inglês, espanhol, holandês e papiamento. O que fazer?
Em Tolo, também chamado Old Blue eles já haviam visto diversas vestimentas curiosas de mergulhadores, muitos sem roupa de neoprene. Logo ao lado, em Karpata, a variedade da fauna era impressionante, mas absolutamente nenhum peixe se parecia com o que haviam visto. Ninguém caça, exceto os peixe-leões invasores, mas precisa de um guia ao lado e a arma é pequena, diminuta, um mero elástico. Entretanto isso é a parte oeste da ilha, a porção abrigada. Domesticada pela cidade de Kralendijk e seu porto para grande calado e uma sucessão de pontos maravilhosos de mergulho.
Ali, no leste selvagem, no mar aberto, a coisa era diferente. Pensaram em chamar o Bass, mergulhador raiz, recluso por natureza e conhecedor de cada recife da ilha. Ou então ligar para o casal subaquático Guilherme e Samantha, moradores brasileiros, corajosos e sabedores dos segredos locais. Talvez a Gift, simpatissíssima e com uma capilaridade incrível que ia desde entre locais de Rincon aos europeus milionários de veraneio. Mas o tempo urge. Quando então resolveram ir em frente, para relatar o que viram ao primeiro guarda local.
Na Boka Bartol não havia viv’alma. O mar parecia ter melhorado e o sol a pino incomodava. Hora mais quente do dia, sem água e sem comida. Somente um havia levado suprimentos e tudo estava acabando. Saíram frustrados.
Logo ao lado, Boka Katuna. Resolveram descer o paredão e mergulhar entrando ao lado das duas pedras. Corais destruídos e pouca vida. O predador peixe-leão, ali reinava. Triste.
E então, depois de passar pela Playa Bengé e seus iguanas enormes, chegaram ao paraíso do snorkel: Wayaká. Numerada de I a III, a segunda era uma pintura. Vista de cima, o mesmo barco de quilômetros atrás estava chegando. E eis que não mais do que de repente a mesma cena se repete e agora com mais clareza. Era um peixe. Não só um, mais de meia dúzia boiavam indolentes na maré. Aquele verde indescritível refletindo ao sol inclemente era digno de foto e registro. Fizeram-no. E celeremente se trocaram e enquanto discutiam a geografia local, entraram.
Na brancura arenosa do canal, parada e atenta, uma barracuda de mais de um metro de comprimento, mimetisada pelos reflexos brancos de suas escamas prateadas. Mais a frente um cardume de blue tangs. E ali, o mistério de desfazia: o gigantesco peixe-papagaio chamado Rainbow Parrotfish, o Scarus guacamaia, estava com sua turma triturando corais. Passou então – para completar a família – um arredio Blue Parrotfish, devidamente filmado.
Ao saírem aliviados e exultantes d’água cristalina, se depararam com o guarda-parques que fez uma reprimenda dizendo que estavam atrasados e que não era mais permitido mergulho a essa hora. Mal sabendo que quem tinha se atrasado de verdade, era ele. Para alívio da dupla que agora conheceram mais um peixe e toda a costa de Slagbaai.
(JB Alencastro, médico)