Brasil

Janê, pobre como quê

Redação DM

Publicado em 24 de fevereiro de 2017 às 02:14 | Atualizado há 9 anos

Era um casebre junto de uma floresta, onde vivia um tal Janê. Esse Janê era um rapaz de bom caráter, muito amigo de declamar versos, sensível com as mulheres, mas carregava um grande defeito para os daquele reino: era pobre como quê, a roupa sempre puída, remendada, a barba desgrenhada, segundo diziam. Vivia a perambular pelas ruelas com aqueles calçados truncados e sujos. Uma lástima! Conforme já aludido, Janê cometia o grande pecado de ser pobre. E para aqueles súditos ser pobre era quase uma doença fatal. Muito embora aqueles súditos vivessem sob a liderança de Alberto, um rei sábio e muito afetuoso com os mais carentes.

Tendo chegado enfim a idade de se casar, a idade da carência, lá pelos 30, Janê tratou de procurar a mulher certa, pobre Janê, quem havia de?, com a ajuda do santo casamenteiro da sua devoção, São Gonçalo do Amarante:

Casai-me, casai-me,

São Gonçalinho,

Que hei de rezar-vos,

Amigo santinho.

Muitas vezes recorria a São João:

Dai-me noiva, São João, dai-me noiva,

dai-me noiva, que me quero casar.

Mas, que mulher se arriscaria a tal, sabendo ser ele, ha, ha, ha, pobre como quê? Logo naquele reino  habitado por alguns tão amigos do dinheiro e posição?

Ainda assim Janê pôs-se a procurar a mulher dos sonhos, em meio àquele pesadelo, quer dizer, à   dura realidade daquele reino, perdido nos confins.

A primeira delas, pobre Janê, a quem propôs casamento, coitado!, declamando versos, coitado!, falando de amor, coitado!, prometendo mundos e fundos em um lar plenamente feliz, coitado!, foi a vaidosa Marcelina. Marcelina, com aquele olhar de águia, farejando a presa mais rica, rindo-se por dentro, olhou-o de cima abaixo, com fundo desprezo, fixando atentamente o olhar naqueles trajes esfrangalhados, e falou:

– És muito atrevido, ou ousado, Janê, em vir me formular uma proposta dessas. Imagine se eu, se eu, oh, oh, do alto da minha grandeza, vou sair de casa, do meu santo lar, do convívio beatífico dos meus pais, que me proporcionam todo conforto, que me fazem todas as vontades, que me realizam todos os caprichos, mimada que sou, pra me juntar a um pé de chinelo que nem tu. A morar num pardieiro daqueles! Graças ao bom Deus ainda conservo um pouco de juízo nesta caixola, falou ela, apontando para a cabeça.

E Marcelina, para completar enfim seu desdém pelo mísero rapaz, chamou os cães e açulou a matilha na direção do proponente a fim de que o mordesse, ou retirasse aquela presença incomôda da sua frente. E o desinfeliz afastou-se dalí na carreira, arrasado, clamando pela proteção de São Gonçalo, São João, e de todos os santos, com os cães quase no seu encalço, arreganhando os dentes alvos e latindo.

A segunda a quem ele propôs núpcias foi a bela Lucinda, uma almofadinha filha de um abastado comerciante de tecidos. Lucinda, com aquele ar de nojo, pensando no casebre, nas dificuldades do dia a dia, nas privações que teria de passar ao lado dele, retrucou-lhe:

– Janê, tu és um excelente rapaz, não restam dúvidas a respeito, e igualmente bem intencionado, até eu estou ciente disso, mas, mas, convenhamos, meu jovem, não sou dessas aí que tem vocação para Amélia, não, que “às vezes passava fome ao meu lado”, sou ambiciosa e desejo ardentemente me juntar, em matrimônio, a alguém de muitas posses, que se vista com apuro e elegância e me faça profundamente realizada. Compreendes? Comigo não, pobretão!

E Lucinda despachou Janê, que saiu dalí cabisbaixo, humilhado.

Mas o pretenso noivo não se abateu, não, com aquelas recusas. Persistia. A terceira, com quem persistiu, declamando um belo madrigal, e em quem depositava ainda uma vã esperança, pobre Janê, foi, imaginem só, a jovem Lúrian que, ao ensejo do malfadado pedido de casamento, exibia nos pés um Aldo Genetti preto, com rajas azuis, calçado dos sonhos de toda mulher refinada, confeccionado por exímeos artesões da Corte, uma loucura!, e no corpo um lindo Vichy de idêntica cor. A resposta de Lúrian foi particularmente arrasadora:

– Podes tu, Janê, com os minguados recursos de que dispões no bolso, dar-me a mim acaso, a cada capricho meu, disse Lúrian, apontando o indicador para os pés, um Aldo Genetti desses? Podes tu, repetiu ela, em alto e agressivo som, apontando agora o indicador para o vestido, Janê, com os minguados recursos de que dispões, dar-me a mim acaso, a cada capricho meu, ah, ah, ah, um lindo Vichy preto e azul desses? Pelo lugar em que tu moras, pelas roupas malcheirosas que usas, pelo calçado com que pisas a lama, onde tu nasceste, está bem claro que não podes me proporcionar nada disso. Então, podes me esquecer e adeus. Vai procurar outra, se é que vais achar.

E assim foi com a quarta, a quinta, a sexta e mais outras jovens. Ninguém se dispunha a lhe prestar aquele serviço, quer dizer, ser a rainha do seu lar. Pobre Janê!

Eis, por milagre, que Deus afinal é grande, Janê vagava por um dos becos da Misericódia, não longe do Mercado das Pulgas, a declamar uns versos, versos apaixonados, quando escutou uma vozinha linda, macia e doce como uma sonata ao luar:

– Que lindos versos!

– Obrigado, falou Janê.

– E vós, quem sois?

– Sou Janê.

– E tu, quem és?

– Sou Malena. Ponde a mão aqui em meu coração e vede quão emocionada estou com tais versos.

Janê pôs a mão alí e sentiu quão acelerado batia o coração dela. Aquela jovem bonita parecia realmente afetada ou imantada pela poesia. Foi um diálogo rico e proveitoso. Enquanto durou, Malena não dirigiu o olhar para as roupas dele, nem para os calçados, nem se preocupou em saber se era rico ou pobre, se morava ou não em um pardieiro, caindo aos pedaços, só atentou na alma dele, na essência dele, naqueles lindos versos que a faziam se emocionar, na maneira sutil com que Janê lidava com uma mulher sensível. A relação deles logo se firmou. Malena, numa manhã de sol, até lhe mandou um cartão com estas palavras:

Janê,

Começamos a percorrer um novo caminho juntos, ele é desconhecido e cheio de dúvidas; mas se tivermos em nossos corações a esperança, o amor e a confiança, chegaremos a um lugar onde só encontraremos a felicidade.

Com carinho,

Malena

Enfim, viram-se, identificaram-se, apaixonaram-se, casaram-se. Como quem casa quer casa, eis seu  pobre lar todo enfeitado para a noite de núpcias. À hora da consumação, o desejo à flor da pele, com Malena lindamente socada naquela camisola rosa, Janê a chamou a um canto e disse: ? Acompanhe-me, querida.

– Acompanhar-vos? Agora? Para onde afinal?

– Não faças perguntas. Eu explico tudo depois. Não é aqui o lugar digno das nossas núpcias.

Janê afastou uma mesa e ergueu depois um alçapão de madeira, assentado alí, no assoalho do seu lar, se é que aquela ruína podia ser chamada de lar. A abertura revelava uma escada em espiral, de alvenaria, suficientemente iluminada a lâmpadas elétricas, que descia até uma passagem oculta, resquício de construção romana, grande como um túnel, todo ela pavimentada de paralelepípedo, igualmente bem iluminada e arejada.

A ventilação era regularmente mantida por aqueles enormes dutos de pedra de cantaria, a captarem o ar benéfico do lado de fora. Uma linda carruagem, emanada quem sabe de um conto-da-carochinha,  achava-se estacionada alí. Mas, para quê?

Assim que os recém-casados iam se aproximando, um cocheiro alto, de libré vermelha, com detalhes e botões dourados, desceu rapidamente da boléia da carruagem, descerrou a portinhola e falou, fazendo uma mesura, o chapéu à mão:

– Subam, por favor, majestades.

Majestades? Que tratamento inusitado era aquele? Indagava-se Malena. E ela sem compreender nada, atordoada, a mente a rodopiar, enquanto a carruagem seguia.

Malena soltou um grito de espanto, ao saber que aquela grande passagem oculta, do tamanho de um túnel, quase a perder de vista, ia dar no pátio interno do Palácio Real, que ficava do outro lado da floresta. Guardas perfilados, formais, com as suas dragonas lustrosas, douradas, orgulhosos do seu reino, lá se achavam e aguardavam o monarca para a revista da tropa.

Façamos uma pausa aqui, neste parágrafo, pra falar da arquitetura do Palácio Real. Alberto III contratou Rajiv Gopal, paquistanês de origem indiana, para operar o projeto da edificação. O que cativou particularmente Alberto foi a singularidade da filosofia arquitetônica seguida por Gopal, a que o técnico batizou de “intimista”, por valorizar o lado interno ou íntimo das construções em detrimento do externo. Fim da pausa para a retomada da narrativa.

Pois bem, ao descerem da condução, Janê se ausentou alguns momentos. Ao cabo de poucos minutos, Malena nem acreditou no que via, eis Janê de volta, se é que aquele era ele mesmo, enfiado num traje de gala branco e sem a barba. Isto mesmo, traje de gala, primorosamente bordado e nenhuma barba na cara. Indescritível. E só o que podemos adiantar. Porque tudo, desde que desceram a escada em espiral, parecia então surpreendente. Tudo parecia um conto de fadas do século XXI. Malena se beslicava de quando em quando a conferir se aquela situação era real ou não, ora nutria a sensação de que podia acordar a qualquer instante, dar com as contas a pagar. Nada existe de mais concreto e real do que contas a pagar.

Mas tudo era real, real, real. Real como aquela espada que Janê exibia agora, uma linda espada dourada, incrustada de gemas preciosas. Uma só gema daquelas podia tornar rico qualquer um do reino. Janê parecia bem mais jovem e bonito. Disse à mulher:

– Penso ter chegado a hora de dizer-te a verdade, amor. Meu nome não é Janê. Sou o rei Alberto, o teu monarca. O Janê foi um disfarce que adotei para que ninguém me reconhecesse. Quem é que podia imaginar um chefe de Estado real na pele de um rapaz sem a mínima importância? Mais ainda com a face encoberta por aquela barba espessa?

Malena quis curvar-se ante sua majestade, fazer-lhe a devida reverência, mas Janê, isto é, Alberto, a conteve.

– Mas o que motivou tal disfarce?

– A intenção inicial foi, disfarçado daquele jeito, conhecer melhor meus súditos de perto ou me misturar a eles e saber suas carências. Depois, quando desejei ardentemente me casar, surgiu a intenção de encontrar uma mulher que me apreciasse pelo que sou e não pelo que eu tenho. Nem pelo poder que eu represento. Entendeste? E acho ter encontrado a minha rainha. Tu foste a primeira, disse o monarca reconhecido, a valorizar a minha essência de rei-poeta. De resto, católico e piedoso que sou, creio religiosamente, desde tenra idade, que todo aquele que enaltece mais a essência que a aparência vai regiamente recompensado no céu.

Malena entendeu plenamente o sentido daquelas palavras enquanto as lágrimas lhe corriam docemente pelas faces níveas.

– E qual tratamento deva esta rainha aqui dispensar-vos agora, Majestade ou Meu Senhor?

– Digas simplesmente, meu amor.

E Alberto, ou Janê?, deu-lhe um longo e apaixonado beijo, no que foi prontamente correspondido. Nem é preciso dizer que foram felizes para sempre.

E Marcelina, Lucinda, Lúrian e as outras mulheres? Lembram-se delas? Essas aí, envergonhadas com o fora que deram, viraram motivo de chacota, e ainda se acham encalhadas e, a esta hora, já ficaram pra titias.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre pela PUC-Goiás em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)


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