O homem nasce convidado a chorar
Redação DM
Publicado em 5 de abril de 2017 às 02:59 | Atualizado há 9 anos
“Desde que haja homens despertos, não podes garantir que não exista esperança de destruir a casa de ferro”
(Lu, Su, apud Schilling, 1984, p.10)
A vida insiste na máxima de que aquele que crê a loucura a idealiza, já a partir do instante do parto, quando desaparece o pesadelo palpável que o impede delirar. Mesmo dormindo a um olho só, de sapato apertado, sonha sem pago trilhar num pé a mentira que é o mundo de parcos deuses experimentado nas infinitas trilhas do diabo. Para além dos beliscões que a luta pela sobrevivência dá, não há coração que bata sem ter o que negar e mesmo a relação perene, gozada no amor platônico, esvai-se por entre os dedos de mãos marcadas na capina da realidade. O inferno da dor é enxergar a si mesmo, crer na salvação sublima a latência, e, pelo viés do trabalho incansável o bom samaritano garimpa nacos de uma ética vencida e rançosa, extrapola a fome ao longo do dia no tamanho inverso do desemprego, retrata na prostituição do trabalho a terceirização das dignidades e direitos. Há tempos o homem não sabe que “Deus está morto, aliás, deveria estar diante do que o cristianismo fez dele” (Nietzsche, 2012, p. 8). Parte alienável no modo de produção das riquezas, explorado e expropriado, é criatura substituível a partir da criação do nefasto capital e da salvação em outra vida e planeta.
Acreditar no homem é ultrapassar a promessa e idolatria de santos de areia. Estes não sobrevivem ao vento, tal qual “as árvores que atingem as alturas com as tempestades” (idem). A partir do momento em que se escreve o próprio Evangelho, o ser social passa – na condição de célula revolucionária – pelo funil estreito do conta-gotas dos direitos (fetiche burguês dos Direitos Humanos), quando “sorrir não ensina rigorosamente nada, pois só o sofrimento educa” (idem). Somando à frente de batalha lucrativa dos “promotores do amanhã”, o resgate de almas pós-modernas estrutura a proposta da Organização Não Governamental (ONG). A miséria da razão dos seres sem face, manejada e administrada, dá lucro, retrata a massa ou diáspora que sai à porta da realidade retratada no desespero existencial. Os mais novos escravos “tecnicistas” estruturam o mercado terceirizado, tecnológico, que insiste em carimbar o retrocesso com a estampa da assistência tradicional e religiosa limitada ao chá de primeiras-damas assentadas no passado da igreja, do latifúndio e do poder de fato. Sentado no vaso do retrocesso o golpista Temer impõe ao País a Reforma da Previdência, a reforma dos absurdos, da idade mínima de 65 anos, do benefício como meta após 49 anos de pago de impostos a um Brasil que conta com muito mais que 40 ladrões. O direito integral passa pelo crivo do relator da proposta, deputado Arthur Oliveira Maia, que recebeu cerca de R$ 300 mil em doações feitas por empresas de previdência privada nas eleições de 2014, claramente um conflito de interesse. E mais, o chefe da comissão que discute a proposta é braço direito do coringa no baralho da matilha instalada, Eduardo Cunha.
Atual, conivente, conveniente e sem vergonha a contrarreforma é “centro dos conflitos e luta de classes, portanto, na perspectiva da superação das relações sociais capitalistas” (Frigotto, 2012, p. 343) bebe da diáspora coletiva, define o seu deslocamento forçado ou incentivado na higienização das cidades, também das grandes massas populacionais estampadas em sujeitos sem face, originários do campo que habitam, na cidade, uma zona pré-determinada na periferia, define as poucas áreas de acolhimento – distintas segundo o poder de consumo – nas prisões de uma “sociedade a disciplinar”, tal como descrita por Foucault (2000, p. 101). Os capitães do mato da era pós-moderna tomam da Bíblia – livro dos pobres transformado em ferramenta lucrativa e dominação religiosa – gerenciam o mercado das almas sem rumo, sedentas de libertação, salvação, dispersam o poder de aglutinação do povo que vaga feito o judeu no mundo antigo, a partir do exílio na Babilônia, no século VI a.C. e, especialmente, depois da destruição de Jerusalém em 135 d.C. Antiga.
Quem reza não ora e sabe que o sistema capitalista é tocado a santos, diabos e ladrões a delapidar o Estado. Mais de treze milhões de trabalhadores encontram-se alijados às fileiras do exército industrial de reserva (Karl Marx). Parte expressiva da população brasileira mal convive em meio à violência extremada e vergonhosa situação de vulnerabilidade social. Ao ser concebido o sujeito, antes mesmo de chorar, é recebido pelo mundo material em meio à luta e guerra à qual deverá resistir e insistir. A sociedade das aparências exige do homem comum vencer já a partir da concepção. A vida ensina a aprender, viver e vivenciar quem se ama também a quem se odeia e isso inclui os covardes que abandonam o barco à primeira deriva. Urge emprestar alguma identidade às vidas vazias, pois se pensador delira, e, ainda consegue chorar e rir da vida, a maioria das pessoas segue travestida em almas anêmicas. A fome estampa o estômago sem se espantar com a dor do dente na boca banguela, a concretude existencial conta das covardias, a maior delas, o simples fato de existir.
Em meados do século XIX, Engels denunciava a situação alimentar da classe proletária: “Aos trabalhadores resta o que repugna à classe proprietária. […] Em geral, as batatas de má qualidade, legumes murchos, o queijo envelhecido, toucinho rançoso, a carne ressequida e magra proveniente de animais doentes, até mesmo em decomposição. […] A carne vendida aos operários é intragável, porém, uma vez comprada, é consumida. […] Vende-se manteiga salgada como fresca, cobrindo-a com uma camada nova, colocando uma libra de manteiga fresca para ser provada. Ao açúcar, mistura-se farinha de arroz e outros gêneros baratos, vendidos a preços altos. Mistura-se chicória e outros produtos de baixo preço ao café moído, ao não moído, dando-lhes forma de grão. O chá vem misturado com folhas de ameixeira e outros vegetais, folhas de chá já servidas são recuperadas, tostadas em alta temperatura sobre placas de cobre para que retornem à cor para serem revendidas. A pimenta é adulterada com cascas de nozes moídas” (da obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra).
Em letras garrafais a mídia alavanca mentiras pontuais lucrativas sem esclarecer: não é a carne que é fraca e sim o capitalismo que atesta e cria certezas à massa carente de pão, água também uma pitada do sal da dignidade. A fome imediata busca encher o estômago, antes mesmo de saciar o espírito sedento por direitos.
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, escritor, filósofo, mestre em Serviço Social/doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)